Escritor defende o 'livro-de-sete-cabeças'
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quarta-feira, 15 de maio de 2002
Carina Paccola Reportagem Local 
O livro Canto dos Malditos, escrito pelo curitibano Austregésilo Carrano Bueno e que inspirou o filme Bicho-de-Sete-Cabeças, corre o risco de ter sua circulação proibida em breve. Uma decisão da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná, de 30 de abril, determina a apreensão de todos os exemplares da atual edição da obra.
Mas a Editora Rocco responsável pela nona edição entrou com embargos declaratórios porque não teve o nome de seus advogados citados na pauta de julgamento. Isso significa que a publicação da decisão do Tribunal terá que ser adiada, segundo o advogado da editora Pedro Henrique de Miranda Rosa, do Rio de Janeiro.
Portanto, os leitores ainda podem conhecer o livro que relata o inferno que Carrano passou durante três anos de internação em hospitais psiquiátricos do Paraná, na década de 70.
A ação que motivou a decisão do Tribunal foi movida por Ilka Maria Guimarães Paolini, filha do médico Alô Ticolaut Guimarães, já falecido, que trabalhou no Hospital Espírita do Bom Retiro, de Curitiba, e que teria aplicado 21 sessões de eletrochoque em Carrano.
A família de Alô Guimarães alega que o livro ofende a honra do médico, que já foi prefeito de Curitiba, secretário estadual da Saúde, deputado federal e senador. E pede indenização por danos morais e a retirada da circulação do livro.
O advogado da editora Rocco afirma que estranha a atitude da família que suportou tranquilamente sete edições anteriores (da editora paulista Lemos) e agora está profundamente ofendida com a edição da Rocco, que inclusive retirou vários termos agressivos constantes nas edições anteriores.
Carrano se defende dizendo que não escreveu o livro para denegrir a imagem de ninguém. Apenas mostrei a realidade que vivi nas internações. E eles querem me calar.
O escritor está em Londrina para a Semana em Comemoração ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial, que começou ontem no auditório do Cesa (Centro de Estudos Sociais Aplicados) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Carrano passou por internações em hospitais psiquiátricos dos 17 aos 20 anos de idade. O pai dele resolveu interná-lo quando descobriu que o filho fumava maconha. Essa história é o enredo do filme Bicho-de-Sete-Cabeças, de Laís Bodanzky, que já recebeu 44 premiações nacionais e internacionais. O ator Rodrigo Santoro interpreta o papel de Carrano.
O escritor integra o Movimento Antimanicomial, que é contra a existência dos manicômios e defende formas substitutivas de tratamento para pacientes com problemas psquiátricos.
As internações explica Carrano só devem ocorrer em casos de crise que coloca em risco a vida da própria pessoa ou de terceiros. Mesmo assim, a internação deve ser em hospital geral, numa ala específica, com atendimento interprofissional, com psiquiatras, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais e enfermeiros, diz.
O tratamento passa ainda por centros de convivência, postos de saúde e terapêuticas para pacientes abandonados pela família. É preciso resgatar o convívio social.
Com essa forma de tratamento, Carrano diz que o País gastaria 50% dos atuais R$ 600 milhões por ano destinados às 267 instituições psiquiátricas do Brasil.
Em 1998, Carrano entrou com a primeira ação indenizatória contra a Federação Espírita do Paraná, responsável pelo Hospital Bom Retiro; contra a família do médico Alô Guimarães; contra o Hospital Neuropsiquiátrico do Paraná, de Piraquara; e contra o médico Alexandre Secsh. Por causa dos tratamentos recebidos, Carrano conta que ficou com várias sequelas, como problema na coluna, na dentição, na visão e uma pequena fissura craniana.
Essa ação, segundo o escritora, abriria um precedente na questão da saúde mental do Brasil. Mas de vítima passei a réu. Fui condenado a pagar R$ 60 mil. Vou recorrer agora ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília.
Na avaliação de Carrano, o sistema judiciário brasileiro não tem conhecimento técnico para julgar nenhuma questão relacionada aos tratamentos psiquiátricos. Não existe na história forense brasileira condenação por erro médico psiquiátrico. Essa questão está confinada, escondida intramuros.


