Júlio Gama
Agência Estado
‘‘A Academia do Fardão e da Confusão - A Academia Brasileira de Letras e os Seus ‘imortais’ mortais’’ (Geração Editorial, 586 páginas, R$ 35,00), de Fernando Jorge, chega como uma espécie de gororoba que deve entalar na garganta dos membros da Academia Brasileira de Letras (ABL), acostumados com o bolo de aipim e os apetitosos quadradinhos de banana que acompanham o tradicionalíssimo chá das 5 servido às quintas-feiras, aos imortais. O livro, que já está nas livrarias será lançado no dia 8, a partir das 5 da tarde, na Livraria Saraiva, no Shopping Eldorado, em São Paulo.
Jorge garante que sua obra prova a inutilidade da ABL. ‘‘O livro mostra que a ABL é inútil, ridícula, anacrônica, desatualizada e quase completamente estéril’’, afirma. Para ser mais claro, escreve: ‘‘A Casa de Machado de Assis é estéril como o útero de uma mula.’’ O autor garante que o livro só é contra a ABL porque nas suas pesquisas não conseguiu encontrar fatos positivos sobre a academia. ‘‘Até procurei, mas não encontrei.’’
Passional, muitas vezes risível, o estilo do escritor não poupa ninguém. Desanca da ex-presidente da ABL, Nélida Piñon, ao ex-presidente do Brasil e imortal José Sarney, de Josué Montello a Rachel de Queiroz e tantos quanto ocuparam ou ocupam as 40 cadeiras da centenária ABL, que compara a uma ‘‘senhora rica, obesa, estéril, velhusca, negligente e preguiçosa’’.
Ao longo de 35 capítulos, Jorge relaciona fofocas e futricas da academia. Cita trechos de críticas dos imortais contra a instituição, publicadas na imprensa ou em discursos proferidos nas sessões da ABL. ‘‘O poeta Manuel Bandeira chegou a escrever uma quadrinha para zombar da imortalidade do tio’’, informa Jorge, referindo-se ao ensaísta Sousa Bandeira que ocupou a cadeira de número 13, a partir de 1905. ‘‘Podeis dizer, confortado pelo sucesso: Afinal, pois que sou imortal, posso morrer descansado’’, teria escrito o poeta.
Esse petardo de quase 600 páginas é o resultado de dez anos de pesquisas nos arquivos de jornais e revistas, na biblioteca da própria ABL e na leitura de algumas das principais obras de imortais escolhidos a dedo pelo autor. Num dos trechos do livro, Jorge relaciona erros de português que, segundo afirma teriam sido cometidos pelos acadêmicos, como no cardápio de uma das reuniões, de dezembro de 1976, no qual se lê refrêsco (com acento) e sanduiches (sem acento).
Aos 69 anos, autor de um bocado de livros, entre eles algumas biografias (de Santos Dumont, Aleijadinho e Olavo Bilac) o escritor jura que jamais tentaria uma vaga na ABL. ‘‘Tenho senso de ridículo e acredito que a imortalidade do escritor vem com o livro e não com a ABL’’, explica.

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