São Paulo, 16 (AE) - A platéia era das mais ecléticas. Estavam lá no auditório do Masp, ontem (15) à noite, entre outros, o editor Samuel Leon, o VJ Fábio Massari, o escritor Cláudio Willer. Todos para assistir à conferência "Borges e a Arte de Narrar", do escritor argentino Ricardo Piglia, o celebrado autor de "Respiração Artificial" (Iluminuras) e "Dinheiro Queimado" (Companhia das Letras).
Piglia veio ao Brasil a convite da editora Globo que, na noite de ontem, lançava oficialmente o segundo volume das obras completas do argentino Jorge Luis Borges, um dos maiores mestres da literatura mundial. O auditório lotou. A própria conferência, no entanto, demoliu a possibilidade de que algum dia venha a ser editada a obra "completa" do argentino. Uma editora de Buenos Aires acaba de publicar um volume com artigos que Borges publicou na revista "Sur", que contém 75 inéditos. Também acaba de sair naquele país um 5.º volume de Borges, "Textos Recobrados", que também inclui inéditos.
Piglia, no entanto, fez uma conferência magnífica sobre a natureza da narração em Borges, construindo um pequeno tratado sobre a filosofia intrínseca ao conto e à arte de contar histórias. Para tanto, tomou emprestadas citações de Kafka, Poe, Wilde, Calvino, Bergman, entre outros. E não se furtou de comentar as "relações estranhas" entre os textos de Borges e os de Adolfo Bioy Casares.
"É evidente que há relações", disse Piglia. "Há relatos de Borges que depois são escritos por Bioy e vice-versa", comentou. No entanto, ele ressaltou que esse método era parte do próprio processo dos dois escritores e ele não crê no "delito" do plágio entre os dois. "Eles se contavam as histórias e depois as escreviam, eram temas para serem explorados", afirmou o escritor. "Como eu não conheço esses textos manuscritos, não poderia dizer quem criou o que", afirmou.
Piglia também comentou, a pedido de Jorge Schwartz, professor da USP e um dos responsáveis pela edição da Globo, a própria declaração de que Borges foi "o melhor escritor argentino do século 19". Segundo ele, muita gente achou que a declaração envolvia alguma espécie de disputa literária. "Borges era ligado a uma espécie de mitologia do que foi o século 19 e acho que tinha uma vontade consciente de fazer algo ligado a essa tradição", comentou. "Essa declaração que fiz é provocativa porque ilustra o lugar que Borges ocupa na literatura, de um escritor assincrônico: é experimental, porém é o contrário da vanguarda", ponderou.
Toda a conferência de Piglia apontava para um cerne: segundo ele, o que importa na literatura é o que está no interior da história, o relato que persiste. Ele exemplificou com um belo conto de Borges, "Sete Noites", no qual o escritor conta o encontro com um antigo amigo em sonho. Mudado, triste, enfermo, o amigo mostra-se melancólico e mantém sempre uma mão escondida sob a blusa. Ao final do conto - somente ao final - ele tira a mão da blusa e é possível ver que tem agora a mão de um pássaro.
"Até que não se revele o que está escondido, a história é apenas o relato de um encontro, melancólico e trivial, entre dois amigos", disse Piglia. "Porém logo, com um gesto, tudo muda e se acelera e se torna nítido", afirmou. Modesto, o escritor - que amanhã (17) pretende visitar o Masp - definiu sua exposição como "um catálogo de pequenas ficções sobre o encerramento de uma obra".

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