Em um de seus últimos livros, ‘‘O Desafio de Criar’’ (Global Editora, R$ 18,50), lançado em 1995, Julieta de Godoy Ladeira (1935-1997) falou sobre ‘‘O sonho e chão da palavra escrita’’, como diz o subtítulo da obra. São artigos publicados na imprensa e outros novos, principalmente sobre Osman Lins, com quem Julieta se casou em 1964. A seguir, trechos do livro:
‘‘Em artigo publicado sobre Lima Barreto, Osman Lins o chamava de o escritor que não silenciou sobre o seu tempo. Após a morte de Osman Lins (8/7/78) alguns jornais usaram o mesmo título referindo-se a ele. Sim, Osman Lins não silenciou sobre o seu tempo, nem mesmo no momento em que o regime militar queria que o silêncio tomasse conta do Brasil. Silêncio que ele rompia, escrevendo sem aceitar imposições. Sabia estar vivendo sem liberdade, em um país fechado, mas usava a franqueza, a solidariedade e a participação. (...)
Após a publicação de alguns de seus artigos mais contundentes contra o regime estabelecido, recebíamos telefonemas anônimos, pela madrugada, com ameaças às quais Osman Lins não dava importância. Poucos dias depois escrevia outro. (...)
A ameaça sobre a saúde teve início no final de 77. No começo aborrecia-o mais do que tudo a necessidade de interromper o trabalho para ir a consultórios, a laboratórios. Assim mesmo procurava manter, sempre que possível, seu horário de escrever. Quando não se sentia bem ou precisava sair para ir a médicos, irritava-se. Chegou a dizer, em relação ao romance (‘A Cabeça Levada em Triunfo’, que ficou incompleto): ‘Escrevo com uma metralhadora no peito. Que diabo, preciso ficar sossegado, trabalhando, em minha mesa’. (...)
Um dia almoçamos com a poeta Zila Mamede em sua casa (em Natal). Ela preparou uma refeição simples, que Osman Lins apreciou, sentindo-se bem a seguir. Descansou então na rede da varanda. Perto havia árvores, uma brisa agradável. Comentávamos ainda o seminário (sobre literatura, do qual participara). Então ele disse, olhando longe, olhando para aquela paisagem do Nordeste: ‘Há tanto o que fazer, mas tanto, pela cultura deste país’.
E mais baixo, como para si mesmo: ‘Eu preciso de mais dez anos, pelo menos’.
Estávamos em fins de maio. Ele não chegou a ter dois meses de vida’’.
• Hugo Almeida, escritor e jornalista, é autor de ‘‘Minha Estréia no Crime’’ (Editora Lê) e faz mestrado na USP sobre a obra de Osman Lins.

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