Escreveu, não leu...
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Mais do que apenas uma questão mercadológica, o baixo índice de leitura do País reflete problemas em diversos âmbitos sociais, causados em parte pela desigualdade social e pela falta de projetos que incentivam a educação e formação literária no Brasil.
''Houve um crescimento no número das bibliotecas? Não. Desta maneira é impossível promover um acesso sério à leitura no País'', opina Rovilson José da Silva, docente do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ex-diretor da Biblioteca Municipal. ''A questão não é só a de montar mais bibliotecas. É preciso implementar uma política continuada, de educação e ampliação, que não existe em lugar nenhum. A leitura ainda não é encarada como política pública'', critica o professor.
Os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil indicam que, apesar da declarada pujança econômica atual, a falta de acesso à obras de qualidade ainda é um grande problema na maior parte do País. De acordo com o levantamento, 75% dos cidadãos brasileiros nunca entraram em uma biblioteca. ''É fato que o livro ainda continua caro e inacessível para a maior parte da população. Nós não podemos desconsiderar isso'', reconhece Rovilson, destacando a importância de uma política mais contundente pela propagação do conhecimento. ''Cada vez mais, é preciso existir pontos públicos de leitura nas cidades. Lugares que proporcionam ao cidadão a possibilidade de ter contato direto com livros, revistas e jornais'', propõe.
A educação parece ser, novamente, a base de tudo. De acordo com um levantamento realizado pelo Instituto EcoFuturo, estudantes de escolas públicas que estão próximas a bibliotecas comunitárias obtêm desempenho superior ao de alunos que vivem em regiões sem biblioteca. O índice de aprovação chega a ser 156% superior, e a taxa de abandono cai até 46%.
Uma lei, aprovada em 2010, obriga todas as escolas a terem uma biblioteca com acervo próprio até 2020. Infelizmente, são promessas de papel - segundo os cálculos do movimento Todos Pela Educação, para cumprir com esse prazo o País teria que construir uma média de 24 bibliotecas por dia.
''Se você for até uma das bibliotecas dos grande colégios públicos de nossa cidade, vai perceber uma situação que, na maioria das vezes, carece de muita melhoria'', declara Rovilson, lembrando que a maioria do acervo desses espaços vem através de doações da sociedade, e não por verbas governamentais. ''Falta continuidade. Falta financiamento. A sociedade almeja que as crianças leiam, que os jovens leiam, mas não disponibiliza as ferramentas corretas. Onde está o dinheiro público?'', indaga.
O abandono das bibliotecas existentes no País também foi abordado na pesquisa. Só 7% dos brasileiros responderam que vão com frequência a uma biblioteca e a maioria, 20%, respondeu que iria se houvesse mais livros novos.
''Este processo não acontece sozinho. Você precisa ter a estrutura física adequada, um acervo e, no caso da escola, um espaço pedagógico que seja favorável à leitura'', reflete Rovilson, analisando todo o problema da falta de leitura como fruto de nossas raízes culturais. ''Esse descaso com a leitura no Brasil não é exclusivo de um Governo ou de outro. É um descaso histórico, que todos nós precisámos enfrentar como população brasileira. É um problema de todos nós.''



