Escorpião anabolizado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de abril de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Saudades de Conan, o Bárbaro, quem diria. O filme de John Milius, um clássico se comparado a este O Escorpião Rei, pelo menos tinha algumas qualidades, como um certo arrebatamento épico, uma relativa originalidade e uma quase justificada crueldade - afinal, estávamos de volta à idade das trevas dos mitos ancestrais, via um lendário e cultuado personagem dos quadrinhos, respeitado em fundo e forma pela visão de um cineasta com apreciável currículo. Duas décadas depois, aqui e agora e ao contrário, The Scorpion King é apenas um cartoon de 88 minutos com gente em músculo-e-osso, uma exagerada, frenética e ao mesmo tempo simplista aventura de ação, de olho nas platéias pré-adolescentes e nos fanáticos por academias de modelagem.
O Escorpião Rei espertamente revisita argumentos de filmes diversos, e melhores, incluindo no caldeirão da reciclagem títulos mais distantes como os exemplares da série Indiana Jones, Flash Gordon, Beastmaster e até Os Goonies. Há cerca de 5 mil anos, um ambicioso e cruel senhor da guerra chamado Memnon (Steven Brand, com ares de Russell Crowe) conquista uma grande extensão de desertos pré-faraós e múmias graças aos préstimos do oculto fornecidos pela feiticeira Cassandra (Kelly Hu). As poucas tribos remanescentes contratam uma espécie de dream team de assassinos liderados por Mathayus (The Rock, o anabolizado astro americano número um de lutas romanas, fisicamente um tipo de boneco inflável com a aparência de Keanu Reeves), o último dos Arkaddians, milenar grupo de matadores treinados durante gerações para as artes da morte - no grupo há até um camelo falante. A idéia é liquidar Cassandra, mas a moça não é fácil. Além de bruxa competente e de se mostrar tremendamente tentadora naqueles trajes sumários das grifes convencionadas pelo cinema para a Idade do Ferro e adjacências, a atriz Kelly Hu demonstra com sobras porque é karateca faixa-preta.
Há um infindável número de cenas de luta obviamente fake, muitas delas em planos tão próximos que o espectador acaba nem vendo direito o que se passa, ou quem espanca quem. Uma vez que a proibição original para menores de 13 anos proíbe derramamento de sangue, o diretor Chuck Russell (aliás Charles Russell, de Queima de Arquivo) preparou um mix à base de sons de golpes com ruídos de mastigação, e muita acrobacia. Funciona a contento, para quem tem menos de 9 anos. Ou para quem se decidir, logo à entrada do cinema, não esperar absolutamente nada do filme.
Produzido e co-roteirizado por Stephen Sommers, o homem por trás das duas recentes Múmias. Mas se essas singelas homenagens tecnológicas aos seriados dos anos 30 vieram dar uma revigorada a uma venerável tradição do cinema, O Escorpião Rei afinal parece uma infeliz peça de manipulação pontuada por diálogos bobos e às vezes até embaraçantes, apenas para servir de ponte entre longas sequências de ação. Como esta sentenciosa observação de conteúdo ainda por definir: Depois de uma dia duro, de roubos e pilhagens, não há cidade melhor que Gomorra. Pausa. A menos que seja Sodoma, acrescenta pensativo o personagem.


