ESCOLHA O FILME - Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Doce Novembro Refilmagem de interessante comédia dramática realizada em 68 sobre mulher com vários namorados e sem nenhuma ligação afetiva por causa de doença terminal. O resultado aqui é menos interessante. Primeiro porque Charlize Theron, apesar de linda e iluminada, não tem o talento da já falecida Sandy Dennis do filme anterior. Segundo e mais grave , porque observar Keanu Reeves na frente da câmera é o mesmo que presenciar a iminente colisão entre dois trens em alta velocidade: o espectador sabe que aquilo é terrível, mas não há o que fazer, não há como pedir que o moço se retire. O cinema ainda não inventou nada que possa evitar uma interpretação desastrosa.
Atlantis, o Reino Perdido Do empório Disney direto para a arena do grande circo do lazer frugal das férias. Valente contra-ataque da marca mais famosa, de olho na oponente DreamWorks que produziu o campeão de rendas Shrek. O mito da Atlântida filtrado pela ótica da aventura que o estúdio costumava fazer nos anos 60, com personagens de carne e osso A Cidadela dos Robinsons, 20 Mil Léguas Submarinas. O espírito Disney ainda mantém a convivência, por enquanto harmoniosa, entre a arte do traço à mão e a vanguarda da engenhoca computadorizada.
DivulgaçãoPequenos Espiões:núcleo familiar tratado com inteligência
Pequenos Espiões Historinha de espiões adultos e espiões mirins, este filme do ex-garoto prodígio Robert Rodriguez é uma recomendável opção, digamos, familiar. E o assunto aqui é basicamente sobre o núcleo da família. Mas não tratado de maneira esquemática, convencional ou ideológica, mas com inteligência, sensibilidade e respeito ao público menor. Agentes secretos à maneira Bond, Greg e Ingrid estão casados e semi-aposentados há dez anos. Os dois acabam se envolvendo numa missão. São presos e a única esperança de salvação é o casal de filhos. Divertido, movimentado e de muito bom gosto, o filme tem boas surpresas, como Antonio Banderas à vontade na comédia.
Na Teia da Aranha O grande Morgan Freeman desperdiçado nesta retomada do personagem Alex Cross, dublê de detetive e psicólogo visto anteriormente em Beijos que Matam. Atormentado pela recente perda de sua parceira de investigações, ele agora tenta por as mãos num professor que rapta a filha de um senador, em Washington. O título, óbvio, se refere às maquinações do criminoso. Filme sem brilho e decepcionante pela assinatura do neo-zelandês Lee Tamahori, tão vigoroso em O Amor e a Fúria.
Shrek A obrigação de levar as crianças à matinê aqui transformada em deliciosa travessura de adulto seu filho menor deve gostar do filme bem menos que você. Não há como não encarar o verde e bom-mau-caráter Shrek com certa dose de cumplicidade. Afinal, quem não desejou um dia subverter a ordem natural e bem comportada do reino das fadas, alterando as regras magicamente corretas? Entregue-se sem medo a esta inspirada, hilária e tecnicamente prodigiosa jornada.
15 Minutos Mesmo recheado de lugares-comuns e carregado de obviedades, este thriller sobre dois psicopatas europeus que barbarizam Nova York brinca com a metalinguagem do cinema, faz referências abusadas e sem muita sutileza ao american way of crime e acaba acertando no que não mirou: a televisão sanguinolenta e a capacidade do veículo de banalizar a violência na busca dos tais 15 minutos de fama, como gostava de brincar a sério o precoce multimídia Andy Warhol. Robert De Niro, superexposto e burocrata, é outro que de vez em quando precisa dar um tempo.
Alguém como Você Da interminável série comédia romântica adulta com pretensões cerebrais. Aqui temos a talentosa coordenadora de um talk show televisivo, Jane (Ashley Judd) que, afetivamente desencontrada, é agora adepta da teoria segundo a qual homens são como gado: o touro jamais é fiel a uma única vaca acreditem, a história está toda lá no filme, que originalmente até se chamava Animal Husbandry. Alguns diálogos mais afiados quase conseguem colocar o roteiro no bom caminho. Quase.
Pearl Harbor Em tempos de George Bush e republicanos no poder, filmes como Pearl Harbor são não apenas ruins enquanto cinema, como arte e até como entretenimento, mas são também ideologicamente incômodos. Sessenta anos depois, reviver a extremada atitude expansionista japonesa não é inventariar o passado, mas forma sutil de rearmar o presente.
A Partilha Hora e meia de agradável incursão aos meandros da classe média, mais carioca que brasileira. O roteiro sabe extrair da situação metafórica quatro irmãs dividindo bens materiais depois da morte da mãe um certo travo agridoce, uma certa amável e quase sempre bem-humorada melancolia. Não é preciso muito tempo de projeção para encontrar um subtexto nelsonrodrigueano. E isso talvez seja o maior elogio para Miguel Falabella e Daniel Filho.
Lara Croft Thomb Raider Depois da fracassada experiência de Super Mario Bros, outro super videogame chega às telas. Aqui, nada a ver com a vida real. O argumento está praticamente oculto sob a saturação de efeitos especiais. Mas é o seguinte: a moça com pretensões a Indiana Jones tem que encontrar as duas metades de uma antiga e poderosa peça enterrada no tempo e no espaço. Mas no caminho existe uma perigosa sociedade secreta. A constante mutação de formas e volumes, e os personagens que voam sob um ruído ensurdecedor seduzem um tanto e logo começam a aborrecer. E o que é pior: a garotada está sem os controles do game na mão e quem manobra tudo é só o diretor Simon West. Para curtir, Jon Voight, pai de Angelina Jolie, faz o pai de Lara Croft e é de longe o melhor em cena.
Billy Elliot Mais um bom flagrante das diferenças que devem ser respeitadas num meio dominado por estereótipos culturais. O garoto Billy, filho de áspero mineiro em greve, treina boxe mas gosta mesmo é de dançar. Animado pela professora e disposto a enfrentar a família em crise, Billy cresce para seu ideal. Com emoção e humor, o filme do estreante Stephen Daldry renova o gênero da comédia social à inglesa, flertando com sucessos recentes como Ou Tudo ou Nada.
Quase Famosos Através deste muito simpático afresco dos anos 70, o diretor Cameron Crowe realizou seu trabalho mais ambicioso e pessoal. Não é para menos: o roteiro, dele mesmo, é autobiográfico e retrata suas experiências como foca-quase-jornalista da revista Rolling Stone. Homenagem crítica e por vezes idealizada do heterogêneo universo do rock há três décadas o argumento é quase todo passado em 73 Almost Famous é sempre sedutor, divertido e quase irresistível.
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