Doce Novembro – Refilmagem de interessante comédia dramática realizada em 68 sobre mulher com vários namorados e sem nenhuma ligação afetiva por causa de doença terminal. O resultado aqui é menos interessante. Primeiro porque Charlize Theron, apesar de linda e iluminada, não tem o talento da já falecida Sandy Dennis do filme anterior. Segundo – e mais grave –, porque observar Keanu Reeves na frente da câmera é o mesmo que presenciar a iminente colisão entre dois trens em alta velocidade: o espectador sabe que aquilo é terrível, mas não há o que fazer, não há como pedir que o moço se retire. O cinema ainda não inventou nada que possa evitar uma interpretação desastrosa. ••
Shrek – A obrigação de levar as crianças à matinê aqui transformada em deliciosa travessura de adulto – seu filho menor deve gostar do filme bem menos que você. Não há como não encarar o verde e ‘‘bom-mau-caráter’’ Shrek com certa dose de cumplicidade. Afinal, quem não desejou um dia subverter a ordem natural e bem comportada do reino das fadas, alterando as regras magicamente corretas? Entregue-se sem medo a esta inspirada, hilária e tecnicamente prodigiosa jornada. ••••
A Partilha – Hora e meia de agradável incursão aos meandros da classe média, mais carioca que brasileira. O roteiro sabe extrair da situação metafórica – quatro irmãs dividindo bens materiais depois da morte da mãe – um certo travo agridoce, uma certa amável e quase sempre bem-humorada melancolia. Não é preciso muito tempo de projeção para encontrar um subtexto nelsonrodrigueano. E isso talvez seja o maior elogio para Miguel Falabella e Daniel Filho. •••
Pequenos Espiões – Historinha de espiões adultos e espiões mirins, este filme do ex-garoto prodígio Robert Rodriguez é uma recomendável opção, digamos, familiar. E o assunto aqui é basicamente sobre o núcleo da família. Mas não tratado de maneira esquemática, convencional ou ideológica, mas com inteligência, sensibilidade e respeito ao público menor. Agentes secretos à maneira Bond, Greg e Ingrid estão casados e semi-aposentados há dez anos. Os dois acabam se envolvendo numa missão. São presos e a única esperança de salvação é o casal de filhos. Divertido, movimentado e de muito bom gosto, o filme tem boas surpresas, como Antonio Banderas à vontade na comédia. •••








Divulgação‘‘Atlantis’’:convivência pacífica entre arte e tecnologia






Atlantis, o Reino Perdido – Do empório Disney direto para a arena do grande circo do lazer frugal das férias. Valente contra-ataque da marca mais famosa, de olho na oponente DreamWorks que produziu o campeão de rendas ‘‘Shrek’’. O mito da Atlântida filtrado pela ótica da aventura que o estúdio costumava fazer nos anos 60, com personagens de carne e osso – ‘‘A Cidadela dos Robinsons’’, ‘‘20 Mil Léguas Submarinas’’. O espírito Disney ainda mantém a convivência, por enquanto harmoniosa, entre a arte do traço à mão e a vanguarda da ‘‘engenhoca’’ computadorizada. •••
Na Teia da Aranha – O grande Morgan Freeman desperdiçado nesta retomada do personagem Alex Cross, dublê de detetive e psicólogo visto anteriormente em ‘‘Beijos que Matam’’. Atormentado pela recente perda de sua parceira de investigações, ele agora tenta por as mãos num professor que rapta a filha de um senador, em Washington. O título, óbvio, se refere às maquinações do criminoso. Filme sem brilho e decepcionante pela assinatura do neo-zelandês Lee Tamahori, tão vigoroso em ‘‘O Amor e a Fúria’’. ••
Profissão de Risco – Cinebiografia de famoso narcotraficante americano, George Jung, que em fins dos anos 70, e com a parceria direta com o czar mundial da droga , Pablo Escolar, chegou a comandar cerca de 90% do negócio da cocaína nos Estados Unidos. O que se questiona neste filme de Ted Demme é o olhar superficial sobre um tema tão complexo e uma extensa galeria de personagens caricaturais. Quando se pensa em ‘‘Traffic’’, este ‘‘Profissão de Risco’’ fica ainda mais vulnerável. ••
Pearl Harbor – Em tempos de George Bush e republicanos no poder, filmes como ‘‘Pearl Harbor’’ são não apenas ruins enquanto cinema, como arte e até como entretenimento, mas são também ideologicamente incômodos. Sessenta anos depois, reviver a extremada atitude expansionista japonesa não é inventariar o passado, mas forma sutil de rearmar o presente. •


Divulgação‘‘Lara Croft – Thomb Raider’’:saturação de efeitos especiais




Lara Croft – Thomb Raider – Depois da fracassada experiência de ‘‘Super Mario Bros’’, outro super videogame chega às telas. Aqui, nada a ver com a vida real. O argumento está praticamente oculto sob a saturação de efeitos especiais. Mas é o seguinte: a moça com pretensões a Indiana Jones tem que encontrar as duas metades de uma antiga e poderosa peça enterrada no tempo e no espaço. Mas no caminho existe uma perigosa sociedade secreta. A constante mutação de formas e volumes, e os personagens que voam sob um ruído ensurdecedor seduzem um tanto e logo começam a aborrecer. E o que é pior: a garotada está sem os controles do game na mão e quem manobra tudo é só o diretor Simon West. Para curtir, Jon Voight, pai de Angelina Jolie, faz o pai de Lara Croft e é de longe o melhor em cena. ••
O Retorno da Múmia – Segunda dose desta história que o cineasta brasileiro Ivan Cardoso chamaria de ‘‘terrir’’, um mix de comédia, aventura e terror. Mais do mesmo, e até um pouquinho melhor enquanto diversão absolutamente ‘‘pipoca das quatro’’. O público adolescente, em especial, vai se fartar com mais criaturas excêntricas, mais correrias, mais perigos. Brendan Fraser repete o aventureiro que enfrenta maldições diversas, agora para livrar o filho em perigo. •••
Snatch – Porcos e Diamantes – O inglês Guy Ritchie, Mr. Madonna em pessoa, pega o bonde-legado de Quentin Tarantino. Aqui ele repete a fórmula de ‘‘Jogos , Trapaças e Dois Canos Fumegantes’’, de 98, e reforça a dose de testosterona, misturando ladrões de diamantes, gângsters americanos, boxeadores, máfias russas, cachorros e granjas de porcos. Humor de ‘‘porrada’’ e virulência verbal. ••
15 Minutos – Mesmo recheado de lugares-comuns e carregado de obviedades, este ‘‘thriller’’ sobre dois psicopatas europeus que barbarizam Nova York brinca com a metalinguagem do cinema, faz referências abusadas e sem muita sutileza ao ‘‘american way of crime’’ e acaba acertando no que não mirou: a televisão sanguinolenta e a capacidade do veículo de banalizar a violência na busca dos tais 15 minutos de fama, como gostava de brincar a sério o precoce multimídia Andy Warhol. Robert De Niro, superexposto e burocrata, é outro que de vez em quando precisa dar um tempo. •••
Billy Elliot – Mais um bom flagrante das diferenças que devem ser respeitadas num meio dominado por estereópicos culturais. O garoto Billy, filho de áspero mineiro em greve, treina boxe mas gosta mesmo é de dançar. Animado pela professora e disposto a enfrentar a família em crise, Billy cresce para seu ideal. Com emoção e humor, o filme do estreante Stephen Daldry renova o gênero da comédia social à inglesa, flertando com sucessos recentes como ‘‘Ou Tudo ou Nada’’. •••
Quase Famosos – Através deste muito simpático afresco dos anos 70, o diretor Cameron Crowe realizou seu trabalho mais ambicioso e pessoal. Não é para menos: o roteiro, dele mesmo, é autobiográfico e retrata suas experiências como ‘‘foca-quase-jornalista’’ da revista Rolling Stone. Homenagem crítica e por vezes idealizada do heterogêneo universo do rock há três décadas – o argumento é quase todo passado em 73 – ‘‘Almost Famous’’ é sempre sedutor, divertido e quase irresistível. ••••
Miss Simpatia – Bem a propósito o título. Sandra Bullock caiu nas graças do público com papéis simpáticos, ligeiros, típicos de insustentável perfumaria que se desmancha logo ali, na primeira vitrine à saída do cinema. Este seu personagem não é diferente: a agente do FBI infiltrada num concurso de beleza para investigar ameaça de bomba de um terrorista tem a mesma substância rala de ‘‘Velocidade Máxima’’ ou ‘‘A Rede’’ ou ‘‘28 Dias’’. A moça precisa dar uma boa guinada na carreira. Senão... ••
Cotação • (fraco) •• (razoável) ••• (bom) •••• (ótimo) ••••• (hors concours)

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