Reprodução‘‘Os Xeretas’’: trama é narrada com bom humor e sensibilidade





Os Xeretas – A boa estréia do curta-metragista A.S. Cecílio Neto no longa. A história saborosa de três garotos amigos no interior de São Paulo. Aventuras, descobertas, rito de passagem, nostalgia. Tudo narrado com bom humor e sensibilidade. O filme, por ser brasileiro e não apadrinhado, recebeu dura sentença. Pronto há três anos, curtiu o castigo do injusto ineditismo, à espera de uma brecha no sufocante mercado dominado pelo similar americano não animado, ‘‘para menores’’, via de regra bobo e dispensável. •••

Pearl Harbor – Em tempos de George Bush e republicanos no poder, filmes como ‘‘Pearl Harbor’’ são não apenas ruins enquanto cinema, como arte e até como entretenimento, mas são também ideologicamente incômodos. Sessenta anos depois, reviver a extremada atitude expansionista japonesa não é inventariar o passado, mas forma sutil rearmar o presente. •
Amor à Flor da Pele – Seleção de Cannes-2000, este ‘‘In the Mood for Love’’ inclui o diretor Wong Kar-wai entre o escasso e seletíssimo time de poetas genuínos que estão por aí a fazer grande cinema contemporâneo. Ambientada na Hong-Kong do início dos 60, esta é a história de amor romântico sobre um homem e uma mulher que se conhecem casualmente, se seduzem, se desejam, se amam, mas nunca ficarão juntos. Maggie Cheung e Tony Leung, atores-fetiche de Kar-wai, são os perfeitos e irredutíveis intérpretes. Definitivamente a Palma de Ouro foi para mãos erradas. •••••
Quase Famosos – Através deste muito simpático afresco dos anos 70, o diretor Cameron Crowe realizou seu trabalho mais ambicioso e pessoal. Não é para menos: o roteiro, dele mesmo, é autobiográfico e retrata suas experiências como ‘‘foca-quase-jornalista’’ da revista Rolling Stone. Homenagem crítica e por vezes idealizada do heterogêneo universo do rock há três décadas – o argumento é quase todo passado em 73 – ‘‘Almost Famous’’ é sempre sedutor, divertido e quase irresistível. ••••
O Estranho – Figura-chave do neo-noir (a recuperação e releitura do policial clássico por jovens diretores surgidos nos anos 80 e 90), Steven Soderbergh consegue um dos melhores momentos desse movimento. É um pequeno grande ‘‘thriller’’, austero e melancólico, sobre fora-da-lei inglês (Terence Stamp, simplesmente magnífico) que sai da prisão depois de nove anos e vai a Los Angeles vingar a filha morta por um empresário discográfico ligado ao submundo (Peter Fonda, em afiado duelo com Stamp). Soderbergh deita e rola na iluminação e em especial na edição, quebrando com classe e estilo os tempos narrativos convencionais. Seleção oficial em Cannes-99. ••••
Snatch - Porcos e Diamantes – O inglês Guy Ritchie, Mr. Madonna em pessoa, pega o bonde-legado de Quentin Tarantino. Aqui ele repete a formula de ‘‘Jogos , Trapaças e Dois Canos Fumegantes’’, de 98, e reforça a dose de testosterona, misturando ladrões de diamantes, gangsters americanos, boxeadores, máfias russas, cachorros e granjas de porcos. Humor de ‘‘porrada’’ e virulência verbal. ••
Encontrando Forrester – Quem anda devendo coisas melhores é Gus Van Sant (‘‘Psicose’’), um diretor de reconhecido talento autoral como demonstra o estimulante primeiro terço deste filme afinal vitimado por uma sucessão de banalidades que aos poucos vai tomando conta da narrativa. Escritor de um livro só, famoso e recluso, conhece um precoce talento literário e vira especie de mentor. Mas há quem a atrapalhe a ascensão do rapaz. Sean Connery aparece vacilante no papel. ••
Billy Elliot – Mais um bom flagrante das diferenças que devem ser respeitadas num meio dominado por estereópicos culturais. O garoto Billy, filho de áspero mineiro em greve, treina boxe mas gosta mesmo é de dançar. Animado pela professora e disposto a enfrentar a família em crise, Billy cresce para seu ideal. Com emoção e humor, o filme do estreante Stephen Daldry renova o gênero da comédia social à inglesa, flertando com sucessos recentes como ‘‘Ou Tudo ou Nada’’. •••
Sob Suspeita – Depois de um começo auspicioso, este policial refilmado de um ‘‘thriller’’ francês do anos 80 não confirma a boa expectativa e envereda pelo terreno do improvável. Gene Hackman é advogado rico e famoso suspeito de violentar e matar duas garotas. Morgan Freeman é o policial que leva com rigor o interrogatório. Monica Bellucci é a porção de sensualidade que tempera este filme que poderia ser muito mais do que é. ••
15 Minutos – Mesmo recheado de lugares-comuns e carregado de obviedades, este ‘‘thriller’’ sobre dois psicopatas europeus que barbarizam Nova York brinca com a metalinguagem do cinema, faz referências abusadas e sem muita sutileza ao ‘‘american way of crime’’ e acaba acertando no que não mirou: a televisão sanguinolenta e a capacidade do veículo de banalizar a violência na busca dos tais 15 minutos de fama, como gostava de brincar a sério o precoce multimídia Andy Warhol. Robert De Niro, superexposto e burocrata, é outro que de vez em quando precisa dar um tempo. •••
O Retorno da Múmia – Segunda dose desta história que o cineasta brasileiro Ivan Cardoso chamaria de ‘‘terrir’’, um mix de comédia, aventura e terror. Mais do mesmo, e até um pouquinho melhor enquanto diversão absolutamente ‘‘pipoca das quatro’’. O público adolescente, em especial, vaise fartar com mais criaturas excêntricas, mais correrias, mais perigos. Brendan Fraser repete o aventureiro que enfrenta maldições diversas, agora para livrar o filho em perigo. •••
A Fuga das Galinhas – O melhor presente que o exibidor poderia oferecer para encerrar ano, século e milênio. Animação à moda antiga, com personagens moldados em silicone e látex. Lideradas pela valente Ginger, galinhas tentam fugir de granja para não virar recheio de torta. Bela homenagem às mulheres, à liberdade e a clássicos do cinema, como ‘‘Inferno 17’’ e ‘‘Fugindo do Inferno’’. Arte e diversão em perfeita harmonia. •••••
Cotação • (fraco) •• (razoável) ••• (bom) •••• (ótimo) ••••• (hors concours)

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