Divulgação‘‘A Mexicana’’:Julia Roberts e Brad Pitt em história com mistura indigesta de gêneros e estilos









A Mexicana – Veículo para o estrelismo de dois nomes da moda. Mas apesar das intenção de sugar ao máximo, o filme até que não se escraviza à dupla Julia Roberts-Brad Pitt. Os problemas são uma história que faz mix indigesto de gêneros e estilos e o tratamento discriminatório e inescrupuloso para com os personagens mexicanos. ••
O Vento nos Levará – Programa obrigatório para o espectador carente de outros valores cinematograficos que não cachês astronômicos, efeitos especiais e bobagens afins. Cinema de alto nível, o filme do iraniano Abbas Kiarostami é reflexão poética em cima de tema eternos: o desconhecido, a ausência, a morte. ••••
O Corpo –- A história dos restos crucificados que poderiam ser os de Cristo até que renderia um bom filme. Mas não é o caso deste, assinado por Jonas McCord. O que se espera como intriga original não acontece, isto é, uma radiografia dos temores da Igreja Católica se o fato fosse comprovado. Vale dizer: na berlinda, o dogma da Ressurreição. Alguém, provavelmente de porre, comparou o personagem de Antonio Banderas a um Indiana Jones a serviço do Vaticano. ••
Morte em Veneza – Em comemoração aos 30 anos do lançamento, volta esta imponente visão operística orquestrada pela maestria de Luchino Visconti. Um filme sobre beleza, decadência e morte. Velho compositor passa o último verão de sua vida em aristocrático hotel de uma Veneza assolada pelo cólera. A ligação à distancia com um belo adolescente acentua as obsessões do fragilizado personagem. Dirk Bogarde está soberbo como o compositor que agoniza – e o sempre rico folclore do cinema assegura que ele nunca mais foi o mesmo depois desta experiência. •••••
Prova de Vida – Entretenimento movimentado que trouxe para as manchetes mundiais o affair Russell Crowe-Meg Ryan. O romance durou o tempo de filmagem, deixou Dennis Quaid no papel de marido traído e não serviu de alavanca para o filme. Que aliás não é ruim: engenheiro é sequestrado por um desses exércitos de libertação da América do Sul, que exige grande soma em dinheiro. Taylor Hackford, diretor de bom calibre, mistura o social e a ação, com resultado um pouco acima da média em termos da combinação assunto-procedência. •••
Dr. T. e Suas Mulheres – Um Robert Altman longe de seus melhores momentos. Em crise, ginecologista de renome em Dallas (Richard Gere) reúne ao seu redor um batalhão de mulheres, desde familiares até clientes. O problema é que o filme, embora assinado como dedicatória pelo diretor (‘‘uma carta de amor às mulheres de Dallas’’), se contradiz e acaba confundindo o espectador até com intrometidas sutilezas políticas. Faz falta aqui aquele toque típico de Altman. ••




Divulgação‘‘Círculo de Fogo’’:filme de Jean-Jacques Annaud mostra a selvageria da guerra




Círculo de Fogo – Um dos melhores filmes em cartaz, a despeito de pequenos tropeções de um roteiro que no entanto sabe ser grande quando centra a atenção num episódio-chave da Segunda Guerra Mundial: o cerco a Stalingrado. Jovem soldado russo é transformado em bandeira da resistência contra o avanço do exército alemão. Mas um major de Hitler faz a contra-propaganda para neutralizar os brios do exército russo. O diretor Jean-Jacques Annaud segura firme o selvagem espetáculo da guerra, nunca esquecendo a tragédia humana. ••••
Traffic – Steven Soderbergh fez um grande filme, impregnado de amargo realismo, lúcido, sem ideologias, longe da América triunfante, em sintonia com nossa época. Em três relatos sobre as rotas da droga, uma lição de ótimo cinema. ••••
Billy Elliot – Mais um bom flagrante das diferenças que devem ser respeitadas num meio dominado por estereópicos culturais. O garoto Billy, filho de áspero mineiro em greve, treina boxe mas gosta mesmo é de dançar. Animado pela professora e disposto a enfrentar a família em crise, Billy cresce para seu ideal. Com emoção e humor, o filme do estreante Stephen Daldry renova o gênero da comédia social à inglesa, flertando com sucessos recentes como ‘‘Ou Tudo ou Nada’’. •••
O Casamento dos Meus Sonhos – A cada dia fica mais difícil reencontrar a arte da comédia romântica e/ou sofisticada hollywoodiana em sua melhor tradição. O filme do estreante Adam Shankman é pobre em situações, todas já vistas (que tal ‘‘O Casamento do Meu Melhor Amigo ’’?) em outras circunstâncias. Falta química entre Jennifer Lopez e Matthew McConaughey. Falta humor, sobra previsibilidade. •
Drácula 2000 – Ninguém toma liberdades impunemente com o personagem que conseguiu atravessar um século e um milênio gozando de ótima saúde e eterna vitalidade. Nesta ressurreição, o mito sai seriamente arranhado por novidades que contrariam a tradição e ferem o bom nome da lenda. O nonsense maior: o vampiro e Judas Iscariotes (!) seriam a mesma pessoa. •
Antes do Anoitecer – O espanhol Javier Bardem faz ato de bravura como o escritor homossexual cubano perseguido pelo regime intolerante de Fidel Castro. Dirigido por Julian Schnabel, o filme deu a Bardem o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza do ano passado. Johnny Depp faz rápida e convincente aparição como um travesti na cadeia. •••
Do que as Mulheres Gostam – Ao contrário do que o título sugere, esta comédia simpática e elegante se preocupa menos com os desejos femininos do que com a dificuldade que têm certos homens de assumir a masculinidade. Machista a princípio, travestido no decorrer da trama, Mel Gibson trava sutil batalha na guerra dos sexos e dos papéis sexuais. Perde, é claro, mas se diverte estando do outro lado da trincheira. •••
Dançando no Escuro – Bem menos dogmático, Lars von Trier acabou levando a Palma de Ouro em Cannes-2000 com este tecnomelodrama sobre operária tcheca cega e idealista (Bjork) que caminha para a tragédia. Há momentos sublimes nas homenagens a musicais hollywoodianos, mas há banalidades que só mesmo um presidente de júri como Luc Besson poderia avalizar. •••
Duelo de Titãs – Se você acha que já viu todos os lugares-comuns, não deixe de conferir esta coletânea, baseada em fatos reais ocorridos há 30 anos no sul dos Estados Unidos. Denzel Washington é contratado para treinar os Titãs, time de futebol americano de cidade tipicamente racista. O ex-treinador e outros jogadores brancos são obrigados a aturar Washington. Mas apesar da tensão acabam se unindo para a vitória. A idéia era ser politicamente corrreto, mas o filme resulta ideologicamente confuso e esteticamente nulo. •
O Tigre e o Dragão – Artes marciais com neurônios da ponta da espada. Se fazia falta uma evidência mais contundente do talento multifacetado do diretor Ang Lee (‘‘Razão e Sensibilidade’’, ‘‘Tormenta no Gelo’’, ‘‘O Banquete de Casamento’’, ‘‘Comer, Beber, Viver’’), este seu novo filme o confirma não só como diretor em constante evolução como um dos artistas que melhor souberam conjugar e potencializar estéticas, temáticas e sistemas de produção tão diferentes como os de Hollywood e os do cinema asiático. ••••
Náufrago – Embora hesitante e insatisfatório no desenlace, esta história do acerto de contas entre civilizado e civilização numa ilha deserta tem hora e meia de grande e generoso cinema. Como são 144 minutos de extensão, o saldo é até muito positivo. Aos 45 anos, Tom Hanks prova uma vez mais que é ator cinematográfico por excelência. Sua solitária intimidade com a câmera o coloca entre os melhores de uma geração que não tem lá muitos eleitos. •••
A Fuga das Galinhas – O melhor presente que o exibidor poderia oferecer para encerrar ano, século e milênio. Animação à moda antiga, com personagens moldados em silicone e látex. Lideradas pela valente Ginger, galinhas tentam fugir de granja para não virar recheio de torta. Bela homenagem às mulheres, à liberdade e a clássicos do cinema, como ‘‘Inferno 17’’ e ‘‘Fugindo do Inferno’’. Arte e diversão em perfeita harmonia. •••••
Cotação • (fraco) •• (razoável) ••• (bom) •••• (ótimo) ••••• (hors concours)

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