Shaft – Trinta anos separam o Shaft ideologizado pelo black power do diretor Gordon Parks desta reedição menos comprometida assinada por John Singleton. O personagem detetive é agora vivido por Samuel L. Jackson, às voltas com o assassinato de um negro por um branco. Ação de cara limpa, o que equivale dizer que os efeitos ficam de fora. Os saudosistas vão delirar com volta do vozeirão de Isaac Hayes, que levou um Oscar (71) com a canção-tema, agora reciclada pelo próprio autor. •••
Endiabrado – Da interminável série ‘‘Em Algum Lugar do Passado Hollywoodiano’’, a refilmagem de uma comédia de 67 dirigida por Stanley Donen, ‘‘O Diabo é Meu Sócio’’. Introvertido desajeitado faz pacto com bela diaba para conquistar colega de trabalho. Mas cada um dos sete desejos satisfeitos leva a equívocos e confusões. Elizabeth Hurley faz o pacto valer a pena. Brendan Fraser vem se especializando no tipo, o que é perigoso. No geral, inofensiva. •••
Saló – Os 120 Dias de Sodoma – O último e mais controvertido filme do poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini, lançado pouco depois de seu assassinato, em 1975. Violento, apocalíptico, repulsivo para alguns, ‘‘Saló’’ é vagamente baseado na fantasia sexual e explicita do Marquês de Sade. A brutalidade do fascismo italiano, segundo Pasolini. Quatro representantes do poder – um juiz, um nobre, um religioso e um banqueiro – são submetidos à torturas diversas numa espécie de ‘‘villa’’ isolada. O resultado é irregular, em que pese momentos isolados de brilho. ••






Divulgação‘‘Intrigas’’:inconsistência e artificialidade








Intrigas – Três universitários – um artista, uma bela intelectual e um arrogante mauricinho-quase yuppie – querem comprovar na prática como um boato bem plantado pode se expandir de maneira nociva. O pior deste filme não são a inconsistência e a artificialidade, mas o olhar conservador, a solenidade e a postura diante dos males da sociedade contemporânea, do cinismo e da hipocrisia juvenil. ••
A Lenda do Pianista do Mar – Não que seja uma obra-prima, mas este melodrama de Giuseppe Tornatore está longe de ser o mau filme definido por parte da crítica mundial, especialmente a italiana. A fábula do pianista (Tim Roth) que toca a bordo e não pisa terra firme tem momentos muito inspirados. A trilha do Ennio Morricone é capítulo à parte. PPP
A Cela – Psicóloga desenvolve técnica revolucionária e acaba entrando na mente de psicopata serial killer. Sair de lá com saude mental é que são elas. Pretensioso exercício que mistura citações cinematográficas, literárias e de videoclipe. Jennifer Lopez, pasmem, está sendo trabalhada para ser uma das divas do século 21. O filme leva fácil o troféu ‘‘Claustrofobia’’. ••
E Aí Meu Irmão, Cadê Você? – Dos irmãos Coen, Joel e Ethan,
é possível esperar tudo, até este divertido pastichão da ‘‘Odisséia’’ de Homero, misto de fantasia, comédia e musical adaptada para o Mississipi durante os anos da Depressão. Três homens fogem do presídio e voltam para casa. No caminho, o encontro com o cíclope, com as sereias e com uma enfurecida Penélope. Os Coen já fizeram melhor, mas dá bem para o gasto. •••



Divulgação‘‘Cowboys do Espaço’’:diversão leve






Cowboys do Espaço – Eficiente brincadeira geriátrica de e com Clint Eastwood, espécie de hora do recreio para o cineasta que sem dúvida já assinou trabalhos bem melhores. Mas a aventura do quarteto de ‘‘velhinhos’’ passando apertos durante resgate de satélite russo carregado de mísseis é uma diversão leve, que nem eles e nem você podem levar a sério. •••



Divulgação‘‘Super Nova’’:antologia do tédio






Super Nova – É ótimo que este filme inútil esteja sendo exibido ao lado das travessuras especiais dos ‘‘Cowboys do Espaço’’. ‘‘Super Nova’’ talvez seja a maior antologia do tédio já disparada de uma plataforma hollywoodiana. O que é, no mínimo e com tanto dinheiro, pura incompetência.•
Celebrity – Ultimamente desaparecido das telas brasileiras, Woody Allen afinal reencontra a boa vontade dos distribuidores. Inédito há dois anos, ‘‘Celebrity’’ é uma tragicomédia desabusada, mais uma entre os muitos momentos de lucidez na filmografia do diretor. Aqui, o pequeno mundo de gente célebre – e de gente que gostaria de ser. Um mundo em que as nervuras narcisistas buscam a exposição a qualquer custo. Aqui, nenhuma comiseração pelos fracos. Kenneth Branagh é o ventríloquo, a marionete, o alter ego, o avatar de Allen. Com grande competência, diga-se.••••
Kiriku e a Feiticeira – Desenho animado francês sobre lenda do folclore africano. Belo e inteligente, o filme de Michel Ocelot é um bom exemplo da independência e criatividade de animadores livres da opulenta influência americana no setor ••••
U-571 – Ressurge o antigo subgênero ‘‘filme de submarino’’. Com muita ação e suspense, este drama de guerra sobre missão aliada para neutralizar código secreto alemão se ressente de atores carismáticos e de um texto com mais consistência. ••
Eu, Eu Mesmo e Irene – Depois do escracho de ‘‘Quem Vai Ficar com Mary’’, os irmãos Farrely voltam à carga com mais uma comédia destemperada. Os abusos já começam a incomodar e o riso é mais de constrangimento do que propriamente fruto de situações de humor saudável. ••
O Auto da Compadecida – Quando se fala que televisão deve ter papel importante na produção cinematográfica, a coisa não é bem assim, condensando minissérie e soando trombetas como se a salvação do setor estivesse garantida por mágica e instantânea transmutação global. O filme até que é bem simpático, tem empatia, é fiel ao espírito Suassuna. Mas o que é da tevê pertence à telinha. •••
Duas Vidas – Crise dos 40, versão Disney. Bruce Willis faz yuppie sem coração. Ele recebe visita dele mesmo quando criança, e a convivência vai mudar seu comportamento. Para melhor, como o espectador já sabe há muito. Mas esta fórmula aparentemente simplista tem charme e bom humor, evita as armadilhas mais açucaradas e acaba agradando. Willis devia cultivar mais a comédia. •••
Todo Mundo em Pânico – Outra comédia, desta vez completamente desregrada. Vendo o filme, cabe ao espectador decidir se a afirmação é elogio ou não. Enxurrada de piadas de todo o tipo – infames, chulas, espirituosas – em cima da onda de terror teen que assolou o cinema nos 90, particularmente através de ‘‘Pânico’’ e ‘‘Eu Sei o que Você Fizeram no Verão Passado’’. Mas há referências a outros títulos recentes e famosos. Os americanos adoraram esta ‘‘paródia’’ anarquista, produzida pela mesma empresa da série ‘‘Pânico’’. •••
O Homem Sem Sombra – Muita pirotecnia para embrulhar um roteiro inexpressivo. O diretor Paul Verhoeven tropeça pela terceira vez seguida depois de ‘‘Showgirls’’ e ‘‘Tropas Estelares’’ e não retoma aqui a originalidade de ‘‘Instinto Selvagem’’ e ‘‘Robocop’’. A consistência do argumento, a influência de H. G. Wells, tudo aqui é invisível. Menos a parafernália digital, que confirma a fórmula do novo milênio: muito engenho, quase nenhuma arte.••
Cotação • (fraco) •• (razoável) ••• (bom) •••• (ótimo) ••••• (hors concours)

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