A segunda noite de desfiles da elite do Rio aconteceu na segunda-feira (4), no sambódromo carioca. As duas exibições cercadas de maior expectativa eram da Mangueira e Portela, também as duas escolas de maior torcida. O samba da Mangueira cita a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada há um ano, e se popularizou de forma inédita na década - é dos mais cantados em blocos de rua. A escola conta a história do Brasil do ponto de vista de heróis populares que não figuram nos livros didáticos. O samba da Portela já não faz tanto sucesso, mas o enredo rende muitos aplausos ao homenagear Clara Nunes.

O Salgueiro trouxe um samba-enredo dedicado a Xangô, orixá da justiça: adaptado ao atual momento brasileiro, tema agradou ao público
O Salgueiro trouxe um samba-enredo dedicado a Xangô, orixá da justiça: adaptado ao atual momento brasileiro, tema agradou ao público | Foto: Carl de Souza/ AFP



O tom de crítica social é o mesmo que fez sucesso no desfile do ano passado, quando a Beija-Flor foi campeã - com um enredo sobre as mazelas do Brasil -, a Paraíso do Tuiuti alcançou o vice-campeonato - criticando os políticos e exibindo um presidente da República com feições de vampiro, menção velada a Michel Temer (MDB) - e a Mangueira fez críticas ao prefeito.

Logo de início, a São Clemente repetiu sua exibição de 1990, "E o Samba Sambou", uma crítica cada vez mais atual às mudanças que a profissionalização do desfile impôs às agremiações. Houve menção ao troca-troca de carnavalescos, intérpretes e outros profissionais, ditado pelo dinheiro, e aos camarotes organizados por empresas, que oferecem atrações musicais próprias e deixam as escolas em segundo plano.

Em um carro alegórico foi retratada a dupla César Menotti e Fabiano - em 2018, Menotti afirmou que samba era "coisa de bandido" e depois se desculpou. Também não faltaram críticas ao prefeito Marcelo Crivella, que cortou 75% da verba distribuída às escolas. Um dos carros alegóricos ficou propositalmente incompleto, em alusão à falta de dinheiro.

A Vila Isabel, na sequência, exaltou a cidade de Petrópolis, e as expectativas ficaram em torno das estreias do carnavalesco Edson Pereira, campeão da Série A (segunda divisão) em 2018 pela Viradouro, e do coreógrafo Patrick Carvalho, muito aplaudido pela comissão de frente da Paraíso do Tuiuti.

Rosa

Na Portela, a tarefa de homenagear Clara Nunes foi atribuída à campeoníssima Rosa Magalhães, sete vezes vencedora do desfile (1982, 1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013). Além de retratar a vida da cantora, a escola também vai exaltou Madureira, bairro da zona norte onde a escola tem sede.

Já a União da Ilha falou sobre o Ceará, usando as obras de Rachel de Queiroz (1910-2003) e José de Alencar (1829-1877), ambos nascidos em Fortaleza. Cerca de 15 mil peças do artesanato local decoraram carros e fantasias. E o Ceará também esteve presente no desfile da Paraíso do Tuiuti, que, mantendo a temática aplaudida no ano passado, desta vez criticou os políticos por meio do bode Ioiô, "eleito" vereador em Fortaleza em 1922. Um carro alegórico retratou políticos de terno e gravata, mas com cabeças de ratos, porcos, moscas e outros bichos. Uma ala exibiu a disputa entre o "bode da resistência" e "coxinhas", os críticos da esquerda.

Sob o comando do talentoso carnavalesco Leandro Vieira, a Verde e Rosa - cujo presidente, o deputado estadual Chiquinho da Mangueira, está preso desde novembro acusado de envolvimento em um esquema de propinas - homenageou personagens que ajudaram a construir a história do Brasil, mas não foram reconhecidos. Em geral, são índios, negros e pobres.

Além de Marielle (negra oriunda de uma favela e casada com outra mulher que ganhou destaque ao defender minorias na Câmara Municipal), o enredo menciona personagens como Dandara, mulher de Zumbi dos Palmares, e Chico da Matilde, abolicionista que em 1881, no Ceará, liderou uma resistência contra a escravidão. O desfile foi encerrado pela Mocidade, que discorreu sobre o tempo e as formas criadas pelo homem para controlá-lo.

Mestre-sala e porta-bandeira da Beija Flor: escola não chegou a agradar em cheio no desfile de domingo, mas mantém o brilho
Mestre-sala e porta-bandeira da Beija Flor: escola não chegou a agradar em cheio no desfile de domingo, mas mantém o brilho | Foto: Mauro Pimentel/ AFP



No domingo (3) desfilaram outras escolas do Grupo Especial: Império Serrano, Unidos do Viradouro, Acadêmicos do Grande Rio, Acadêmicos do Salgueiro, Beija Flor de Nilópolis, Imperatriz Leopoldinense e Unidos da Tijuca.

O Salgueiro se destacou com um enredo dedicado a Xangô, orixá da justiça. Segundo o carnavalesco Alex de Souza,a intenção é fazer um paralelo com o atual momento político brasileiro, destacando que a corrupção existe no País desde o tempo do Império. O enredo "Quem não viu vai ver - as fábulas do Beija-Flor" mostrou a escola de Nilópolis em seus antigos desfiles, com uma reflexão sobre as histórias e biografias que já foram abordadas na Sapucaí.

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