Sessão sadomasoquista em filme sul-coreano é boa jogada de marketing e garante polêmica


Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2

Não se pode negar a Alberto Barbera, o diretor da 56ª Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, um aguçado faro para a polêmica sob medida. Não é para menos. Ele está debutando num cargo com alto teor de vulnerabilidade e sabe que qualquer risco menos calculado pode custar a efêmera e frágil estabilidade. À exceção de detalhes que não são de sua competência, até o momento o homem vem se saindo bem no papel difícil de curador, de cuja decisão depende, em última instância, o que está se assistindo nas salas de exibição do Lido. Seu último achado, verdadeira obra-prima de marketing, é o representante sul-coreano ‘‘Gojitmal’’ (Mentiras).
Em vez de programar o filme numa das paralelas - ‘‘Sonhos e Visões’’, por exemplo, nicho adequado para provocações com propostas diversificadas - Barbera encaixou o mais radical dos objetos cinematográficos enviados a Veneza no espaço mais nobre, em pleno coração do nevrálgico segmento competitivo. A colheita não se fez esperar: tiroteio cruzado, fogo cerrado dos mais variados calibres, do Vaticano ao prefeito da cidade.
E se diante da maximizada ousadia de Kubrick alguns protestos já ecoaram na laguna, o que se ouviu depois da revelação do sexo extremado e da violência sadomasoquista está sendo uma glória.
Para ver o filme, vieram da Coréia nada menos que 26 jornalistas. Nunca se viu tantos daquele país por aqui. Mas a ocasião exigia. Porque ‘‘Gojitmal’’, o filme-escândalo de Jang Sun Woo, ou seria por eles visto em Veneza ou talvez nunca mais. Bloqueado pela censura coreana, está na lista negra à espera de um timbre liberatório, um ‘‘X’’ restritivo que ainda assim não tem a mínima garantia. ‘‘Por enquanto esperamos’’, disse o diretor numa coletiva sintomaticamente esvaziada por coleguinhas talvez incomodados e pouco dispostos a discutir o cinema desta final de século, tenha o sexo que tiver. ‘‘O filme está preso nas malhas dos tutores da moral, assim como o autor da novela esteve seis meses na cadeia mesmo, e não metaforicamente, acusado de pornografia.’’
Mas sem naturalmente chegar a extremos, mesmo a platéia festivaleira recebeu a sua cota de impacto e aturdimento, já em estado de vigília com uma anunciada montanha-russa de frêmitos eróticos. Ao longo de longos 115 minutos, na tela não se encontra nada além de um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Ele é J., escultor, de quem aliás não se vê uma peça artística, a não ser o instrumental variado para as sessões de espancamento mútuo. Ela é Y, estudante, e decididamente adepta e participante de uma imensa gama de jogos sexuais predominantemente sadomasoquistas, com repertório de provocar inveja no velho e - descobrimos durante a projeção - nem tão calejado marquês. Nas pausas para descanso, o aquecimento para novas rodadas admite explícitas incursões coprofílicas e coprofágicas, esta sim, uma variante nada frequente em festivais. Enfim, para colocar as coisas em seus devidos lugares: ‘‘Gojitmal’’ é um filme jamais visto em festival algum de cinema, pelo menos não onde transitam filmes de arte.
‘‘O exemplar sul-coreano - explica Alberto Barbera, sem buscar justificativas - é somente o sinal de uma tendência. Hoje a indústria do pornô é extremamente florescente. E isto gera consequências. Na tevê muitos canais são liberados depois de meia-noite, e muitos filmes ‘proibidos’ chegam às casas através do videocassete. Não creio que estas cenas tenham escandalizado as pessoas.’’
Nesta tediosa e entediante crônica de uma relação amorosa realizada sem nenhum véu ou pudor, falta aquela tensão interna que dava substância ao ‘‘Tango’’ de Bertolucci e ao ‘‘Império dos Sentidos’’, de Nagisa Oshima. Não chega a ser um filme pornográfico, porque a pornografia é menos redundante. É antes um filme desiludido que se apóia na obsessão como motor de uma espiral que não tem fim, que não se esgota como seus protagonistas não se esgotam, apesar de tanto bater e apanhar.

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