‘‘O novo não me choca mais/ nada de novo sob o sol/ o que existe/ é sempre o mesmo ovo/ chocando o mesmo novo.’’ Domingos Pellegrini
Para a vanguarda que estava acostumada a chocar a burguesia desde o fim do século XIX - com suas cores selvagens, com suas formas que fugiam à representação, com seu novo ideal de beleza - e logo após, a confusão que o Dadaísmo fez imperar no circuito das artes, o final do século XX parece propor justamente o fim de toda estética ainda capaz de chocar.
Escândalos estéticos foram cometidos por muitos artistas, mas, diante dos acontecimentos atrozes que se sucederam neste curto período de tempo, suas barbaridades não conseguem sequer fazer sombra ao que de fato aconteceu e continua acontecendo neste mundo. Basta lembrar o horror da 1ª e da 2ª guerras, do holocausto judeu, da guerra da Bósnia, da Chechênia e milhares de outras perseguições raciais, políticas, econômicas e sociais que dizimaram populações inteiras, que devastaram o solo da terra, que destruíram milhões de vidas animais e vegetais, que poluíram o ar e a água, para nos darmos conta que a apreciação da arte, mesmo, foi o que menos houve neste século.
Bem que a arte tentou. Colocar calcinha e soutien em Jesus Cristo crucificado, desenhar bigode na foto da Monalisa, deturpar a imagem de santos, tudo isso que podia escandalizar a classe média - acuada diante da televisão que não pára de bombardear imagens de bundas, de sexualizar o discurso das crianças, de empobrecer a cultura, enfim - se torna ingênuo diante da verdadeira sacanagem, que foi banir a ética dos nossos valores morais.
Podemos nos lembrar da exposição de nus desenhadas por Flávio de Carvalho, nos anos 30, que foi proibida pela polícia - sempre pronta para defender o direito e a ordem - em São Paulo, porque os desenhos foram considerados um atentado ao pudor público. Parece piada, mas aconteceu. Outros fizeram coisas realmente absurdas. Recentemente o artista e professor paulista, que vive atualmente no Rio de Janeiro, Nelson Leirner, que participou de várias bienais e tem um vasto currículo, se viu às voltas com a Justiça porque desenhou em algumas fotos infantis muito conhecidas, pênis e seios nos bebês que posavam de couve-flor numa bacia, ou de girassóis em um jardim. Talvez tenha conseguido seu intento de aparecer como artista rebelde e crítico que é, e consciente da confusão que arrumou.
A caça às bruxas continua viva, a Santa Inquisição sedenta para jogar os hereges na fogueira, a classe média louca para ver a crucificação de Cristos. Em pleno final de milênio, há quem ainda se escandalize com beijos na boca no meio da rua, com homens andando de mãos dadas, com desenhos ou versões de coisas que absolutamente não fazem sentido algum diante de tanta violência e truculência a que somos submetidos, simplesmente porque o grande escândalo é haver ainda quem perca tempo se escandalizando.
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