Uma escalada demanda tempo, planejamento e muitos equipamentos, certo? Não precisa ser assim. Existe uma modalidade famosa pela praticidade. O boulder é a escalada em rochas com o mínimo de equipamentos e poucos e complexos movimentos. Pode parecer brincadeira, mas deve ser levado a sério.
Boulder significa grande pedra arredondada, em inglês. A maioria dos blocos não tem mais de quatro metros de altura. Os caminhos para vencer os obstáculos são chamados de problemas, que podem ser solucionados com dez movimentos ou menos, diante de uma média de 30 na escalada tradicional. ''Exige mais explosão muscular e força, em vez de resistência'', diz Janine Cardoso, de 32 anos, campeã paulista de boulder.
Os problemas, classificados de acordo com a inclinação da rocha, o tamanho das agarras -frestas usadas para fixar as mãos e os pés - e a distância entre elas, determinam a complexidade dos movimentos.
Na modalidade, não são usados cordas, mosquetões e cadeirinhas, ''pois há menos riscos de se machucar em uma queda'', explica Ricardo Leizer, presidente da Associação Paulista de Escalada Esportiva (APEE). Mas a segurança não é desprezada. São usadas sapatilhas, pó de carbonato de magnésio para uma pegada mais firme e um colchão abaixo do escalador, o crash pad, para amortecer a queda. Uma pessoa - o segurador - fica no chão e atrás do praticante para posicionar o corpo de pé, caso o esportista caia, e evitar lesões.
Para praticar o boulder, é recomendado um curso básico de escalada sobre os procedimentos de segurança. ''Não existem aulas específicas, mas nos ginásios os instrutores passam dicas importantes'', diz Leizer.
É difícil precisar a origem do boulder, mas há registros do século 19, conforme explica o escalador Jim Curran no livro ''K2, The Story of The Savage Mountain'' (''K2, A História da Montanha Selvagem'', sem lançamento no Brasil). O autor atribui ao cientista britânico Oscar Eckenstein a criação da modalidade. Desde então, ela se popularizou, sobretudo nos últimos cinco anos. ''Passou a ser mais divulgada'', explica a campeã Janine Cardoso.
Alguns usam o boulder como treino complementar. É o caso de André Berezoski, tetracampeão brasileiro de escalada esportiva. ''É uma forma de se preparar para os movimentos mais difíceis de uma escalada normal'', diz. Outros são especializados na modalidade. ''Tenho preguiça de fazer a escalada tradicional. São muitos equipamentos'', diz o administrador de empresas Alexandre Paranhos, de 29 anos, escalador há 15. Além da praticidade, ele foi conquistado pela intensidade dos lances curtos.
Outro atrativo é a possibilidade de ser feito em grupos de amigos. ''O pessoal coloca música eletrônica e se reveza na tentativa de achar um jeito de subir'', diz Janine. A disponibilidade de rochas também é um dos fatores que alavancaram a modalidade. ''É mais fácil achar um boulder do que uma parede para escalar, ainda mais no Brasil, onde o relevo é bem desgastado'', diz o empresário Alexandre Silva, de 32 anos, escalador há 14. Mas como definir se a escalada será tradicional ou boulder? ''Não depende tanto da altura, mas das condições de aterrissagem'', explica Silva. Quanto menos irregular o solo, melhor.
Um dos lugares mais populares no mundo para a prática do boulder é a cidade de Fontainebleau, na França. ''O chão é bem plano e tem uma camada de areia para amortecer a queda'', diz Silva. Ele também destaca Bishop, nos Estados Unidos, por suas formações de granito repletas de falhas que servem de agarras.
No Brasil, um local popular é o Pontão de Fortaleza, em Ubatuba (SP). As formações são de boa qualidade, e a brisa do mar e a paisagem dão um clima especial. Mas Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, é a meca do boulder nacional. ''Tem muitas rochas e vários graus de dificuldade'', diz Janine. ''É um lugar maravilhoso.''

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