A teledramaturgia decidiu roubar quase todas as cenas na tevê aberta em 2010. Paisagens paradisíacas, abordagens espiritualistas, humor inteligente e uma profusão de seriados preencheram as telas cada vez mais finas das tevês.

No entanto o que mais se sobressaiu foi a estética do texto e as atuações comoventes. Como as da novela ''Escrito nas Estrelas'', a mais votada neste ano pelos editores que publicam ''TV Press''. A história rendeu à trama da autora Elizabeth Jhin a eleição nas categorias ''Melhor Autor'', ''Melhor Novela'' e ''Melhor Atriz'' para a carismática Nathália Dill.

Com uma caprichada fotografia e produção de arte, ''Passione'' estreou com maestria em cinematográficas locações italianas. Mas abusou do sotaque, errou na escalação do vilão Fred, de Reynaldo Gianecchini - eleito ''Pior Ator'' - e finalmente conseguiu terminar o ano num ritmo que se equilibra entre o humor e o mistério. No entanto, a novela micou ao fazer tanto estardalhaço para revelar o tão ''misterioso'' segredo de Gerson, personagem de Marcello Anthony.

Na contramão da pluralidade de talentos da trama das seis e das surpresas de ''Passione'', ''Ti-Ti-Ti'' foi uma das promessas mais equivocadas do ano. O ''remake'' da bem-sucedida trama de Cassiano Gabus Mendes, exibida há 25 anos, estreou com sucessivas decepções, apesar da satisfatória audiência. Mesmo com a interessante adaptação de Maria Adelaide Amaral, a história extrapolou na caricatura. O único mérito tem sido a bem costurada atuação de Murilo Benício, que ganhou a eleição na categoria ''Melhor Ator''.

Novela
Melhor: ''Escrito nas Estrelas''
2º Melhor: ''Ti-Ti-Ti''

Além da vida

A temática espiritualista de ''Escrito nas Estrelas'' embolsou todas as atenções este ano. Eleita a ''Melhor Novela'', a produção de Elizabeth Jhin ultrapassou as fronteiras dos assuntos sobrenaturais e se destacou por um texto comovente, mas sem sentimentalismos. Com atuações pertinentes, Nathália Dill, Jayme Matarazzo e Humberto Martins conseguiram contar uma história de amor ao longo dos séculos sem escorregar em pieguices. Dosada por pitadas de humor, a trama abordou a fertilização humana em uma barriga de aluguel a partir do sêmen de um jovem que morreria tempos depois da coleta.


Pior: ''Tempos Modernos''
2º Pior: ''Uma Rosa Com Amor''

Fiasco cosmopolita

Ambientada no centro nervoso da capital paulistana, a trama ''Tempos Modernos'' foi um retrocesso na dramaturgia da Globo. A produção, que marcou a estreia de Bosco Brasil como autor solo na Globo, se equivocou desde a escalação de protagonistas poucos carismáticos - vividos por Fernanda Vasconcellos e Thiago Rodrigues -, até a exagerada alusão às histórias em quadrinhos. Isso sem falar no quanto Grazi Massafera foi caricata como vilã. Quase tudo se passava em um gigantesco edifício no Centro de São Paulo, batizado de Titã, gerenciado pela pífia atuação de Antônio Fagundes, como o empresário Leal.




Milena Toscano disse a que veio a protagonista de ''Araguaia''

Atriz Revelação

Melhor: Milena Toscano
2º Melhor: Mayana Moura

A galope

De espora nos pés, Milena Toscano entrou pisando firme em ''Araguaia''. A loura de rasgados olhos azuis mal era lembrada por sua coleção de participações em tramas da Globo desde 2004. Mas quando vestiu o rústico e charmoso figurino da protagonista Manuela na trama de Walter Negrão, a bela começou a falar grosso e dizer a que veio. Segura como a destemida veterinária da trama rural, Milena vem se destacando como a durona mas apaixonada personagem, que marca sua estreia como protagonista.

Ator Revelação
Melhor: Fiuk
2º Melhor: Humberto Carrão

Carga genética

No universo mais jovem da dramaturgia, o ano foi de Filipe Kartalian Ayrosa Galvão, o Fiuk. O cantor e guitarrista que protagonizou ''Malhação'' como o descolado Bernardo nem parecia que faria tanto estardalhaço. Mas bastou começar a convencer como o mocinho da novela adolescente para conseguir ser eleito na categoria ''Ator Revelação''. Com jeito propositalmente tímido e uma legião crescente de fãs fervorosas, o ator já assinou contrato longo com a Globo e está quase emplacando na grade de 2011 o seriado ''Tal Filho, Tal Pai'', que será exibido como especial de fim de ano no próximo dia 23.



Nathália Dill soube expressar sentimentos e ganhou destaque em ''Escrito nas Estrelas''

Atriz
Melhor: Nathália Dill
2º Melhor: Mariana Ximenes

Além dos limites

Em cena, os olhos expressivos de Nathália Dill conseguem demonstrar quaisquer sentimentos de suas personagens. Com uma indisfarçável força dramatúrgica, a atriz caminha com facilidade entre papéis das mais variadas facetas. Foi com essa pluralidade cênica que Nathália conseguiu atrair todos os olhares para sua correta interpretação da personagem Vitória/Viviane em ''Escrito nas Estrelas''.

Pior: Gabriela Durlo
2º Pior: Grazi Massafera

Fracasso bíblico

Depois de estrear na Record em ''Vidas Opostas'', em 2007, Gabriela Durlo viveu papéis de destaque até protagonizar a minissérie bíblica ''A História de Ester'' em março deste ano. No entanto, compor uma protagonista e segurar uma produção que se passa 400 anos antes de Cristo com uma diversidade de cenas mais complexas foi demais para a atriz, que não conseguiu convencer como a destemida judia que vira rainha da antiga Pérsia.



Murilo Benício convenceu como o costureiro espanhol Victor Valentim em ''Ti-Ti-Ti''

Ator
Melhor: Murilo Benício
2º Melhor: Tony Ramos

Na dose certa

Murilo Benício quase sempre consegue se sobressair em sua atuação. Não tem sido diferente em ''Ti-Ti-Ti'', com seu impagável costureiro espanhol Victor Valentim. O papel, que foi interpretado com maestria por Luiz Gustavo há 25 anos, agora parece igualmente convincente pelos recursos que Murilo utiliza em cena. Murilo se sobressai dosando com sabedoria os traços de comédia do costureiro sem afetações caricatas numa história onde quase tudo apela para o exagero.

Pior: Reynaldo Gianecchini
2º Pior: Alexandre Borges

Rascunho da maldade

Os papéis vilanescos são um risco para atores sem embasamento dramático. Os recursos mais comuns nesse caso são um excesso de caras e bocas, voz demasiadamente pausada e uma frequente cara de mau. Estes têm sido alguns dos escorregões mais frequentes de Reynaldo Gianecchini com o maquiavélico Fred desde o início de ''Passione''.



As confusões amorosas de um triângulo amoroso em ''Passione'' renderam a Gabriela Duarte e Bruno Gagliasso os prêmios de atriz e ator coadjuvante

Atriz Coadjuvante
Melhor: Gabriela Duarte
2º Melhor: Zezé Polessa

A volta por cima

Gabriela Duarte deixou de ser ''a chatinha do Brasil'' para se tornar uma das atrizes que mais surpreendeu este ano na teledramaturgia. Na pele da perua Jéssica, de ''Passione'', Gabriela sacudiu a poeira do tédio que embalava todos os seus papéis anteriores para construir uma personagem com personalidade, que transitou com segurança entre cenas de um humor pastelão e o melodrama mais rasgado do gênero.

Ator Coadjuvante
Melhor: Bruno Gagliasso
2º Melhor: Werner Schunemann

Além do óbvio

Bruno Gagliasso nunca conseguiu interpretar galãs em sua carreira. Mesmo assim, o ator tem alcançado o mérito de embasar sua trajetória em papéis absolutamente diversificados. O último deles tem sido como o bígamo italiano Berilo, em ''Passione''. Apesar de soterrado com o cansativo sotaque italiano em cenas de um humor exagerado, Bruno transmite emoção e veracidade com o personagem que sofre por se dividir entre dois amores.

Séries e Seriados Nacionais
Melhor: ''As Cariocas''
2º Melhor: ''A Cura''

Nas curvas do Rio

Daniel Filho costuma ser imbatível em suas escolhas televisivas. Com o texto consistente de Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, o diretor fez do seriado ''As Cariocas'' um oásis na programação da tevê aberta este ano, numa produção onde cada um dos 10 episódios tiveram o mesmo esmero que Daniel tem com seus longas. Encabeçada por apenas quatro atrizes cariocas - as outras seis são de outros estados -, a produção contou com colírios da teledramaturgia, como Paola de Oliveira, Grazi Massafera e Alinne Moraes em atuações irretocáveis.

Pior: ''Na Forma da Lei''
2º Pior: ''S.O.S. Emergência''

Milícia para quem precisa

A densa atuação de Luiz Melo foi um dos poucos pontos positivos do seriado ''Na Forma da Lei''. O autor Antônio Calmon deixou de lado seu interesse por surfe e vampiros, temas centrais de suas tramas, para investir numa produção policial. O tiro saiu pela culatra e o seriado que parecia trilhado pela inspiração do americano ''Law & Order'' até contou com boas atuações, mas o comando de Wolf Maya por trás das câmeras não conseguiu cumprir o prometido.

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