Sexo, sexo e mais sexo. Em todas as formas, cores, gostos, estilos, jeitos e desejos. O novo livro do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’, é constituído de sexo e mais sexo. Pode ser considerado literário, erótico, pornográfico, lascivo, lúbrico, devasso, licencioso, libertino, histórico, sociológico e até obsceno.
Escrito sob encomenda para a coleção ‘‘Plenos Pecados’’, da Editora Objetiva, dedicada aos sete pecados capitais, João Ubaldo Ribeiro leva o pecado da luxúria à categoria de virtude. Narrado do ponto de vista feminino, pode ser considerado um romance erótico, herdeiro da honrada tradição da literatura erótica.
A narradora dedicou sua vida aos prazeres sexuais. Não como uma espécie de escolha, mas como um dom, de talento nato. Um dom, segundo ela, recebido de Deus. Nasceu com talento sexual, estudou e aprimorou tal faculdade. Seu grande lema é: a vida é sexo.
Trata-se de uma mulher que, passando dos 60 anos de idade, diante da proximidade da morte iminente, resolve contar suas memórias sexuais. Em forma de depoimento oral, gravado em fitas cassete e posteriormente transcritas para o papel, a narradora reconstitui seu passado, desde a infância, em seu primeiro contato com o desejo sexual até sua velhice libertina.
João Ubaldo, na apresentação do livro, afirma não ser o real autor de ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’. Avisa que enquanto estava preparando um texto sobre o pecado da luxúria, recebeu pelo correio um pacote contendo o manuscrito de um livro no qual a autora anônima - uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro - autorizava o escritor a publicar o relato como sendo de sua própria autoria. João Ubaldo só teve o trabalho de editar o texto, segundo a mulher totalmente verídico, e entregar para a editora. Na realidade, uma brincadeira de ficção sobre ficção.
A título do romance, ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’, tem origem na imagem de antigos templos búdicos que ostentavam estátuas em suntuosos atos sexuais. Juntamente com o enfoque libertino de sua narrativa, João Ubaldo percorre as transformações do comportamento sexual feminino da década de 40 até os dias de hoje.
Embora tenha começado sua vida sexual logo no fim da infância, a narradora cultiva, durante a juventude, o mito da virgindade matrimonial. Ironicamente pratica todos os tipos de relações (oral, anal, etc.) ao mesmo tempo que guarda sua virgindade. Isso até escolher o homem que a deflorará. Na verdade nunca se casará, nunca constituirá família, nunca terá filhos, sempre viverá exclusivamente para o sexo, seja ele heterossexual, homossexual, bissexual, etc.
Dona de declarações polêmicas, afirma que durante a história da civilização o sexo anal foi uma prática anticoncepcional eficiente. Em suas palavras, ‘‘é uma arte milenar que não pode ser perdida, e toda mulher que, sob desculpas inaceitáveis e ditadas pela ignorância, preconceito ou incapacidade, não conta com isso em seu repertório permanente, é uma limitada, não importa o que ela argumenta’’.
Algumas de suas posições podem ser consideradas completamente contrárias ao politicamente correto em dias de HIV. Uma delas é a condenação do uso de camisinha das relações sexuais. Para a narradora, numa relação onde a mulher não entra em contato com o esperma masculino é frustrante. A semente depositada no útero, na língua ou na pele, é um verdadeiro evento erótico. Num tom digno de Nelson Rodrigues, afirma que ‘‘nenhuma mulher sadia tem nojo de esperma’’. Nas relações orais, considera uma ‘‘ofensa suprema a mulher cuspir fora o esperma derramado em sua boca por seu homem - é uma selvageria, um sinal de baixa extração, falta de formação, de classe, de cultura, de sofisticação’’.
Como bom baiano, João Ubaldo, um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, cria um relato apimentado, picante, um retrato de fantasias sexuais sem limites, um vale-tudo em nome do desejo.
Defendendo a feminilidade do desejo, a narradora alfineta a repressão sexual social das mulheres e, num tom provocador proclama que ‘‘todas as mulheres já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo e pulsam sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e se controlam e compreendem tudo sobre sexo e querem tudo, é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em que a sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo...’
Em suas palavras, o incesto é uma prática natural, ‘‘não obrigatório, mas natural’’. Seu irmão mais novo foi seu eterno amante, juntamente com alguns tios. Os amigos e parentes são, para ela, os melhores parceiros para a prática sexual: ‘‘Comer alguém deve ser um gesto de amizade e que complementa e aprofunda, não estraga essa amizade. O que estraga é o lixo na cabeça, que não é inerente ao sexo, são os pinduricalhos mortíferos que arranjaram para ele.’
Citando Henry James, lembra que ‘‘ler um romance é olhar pelo buraco da fechadura. Nesse sentido, ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’ é uma fechadura onde o leitor coloca o olho para se deleitar com a vida sexual de uma mulher desejavelmente libertina. Ela mesma elucida a questão: ‘‘As pessoas lêem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente isso, mas muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonhoso que sentem é também sentido por outro, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mais precisam olhar, nunca estão saciados. Faz bem, é reconfortante.’
João Ubaldo Ribeiro tem o cuidado de, em ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’, não utilizar o conceito ‘‘amor’’, nem mesmo a palavra ‘‘amor’’. Focaliza o sexo enquanto desejo instintivo, não enquanto desejo sentimental. Coloca apenas lado físico do contato sexual, o lado selvagem da libido. Físico, selvagem, instintivo mas totalmente real, a luxúria em seu sentido pleno. Segue o princípio de que amor e sexo podem estar totalmente desvinculados. E conclui: ‘‘A paixão é simplesmente a tesão formatada’’.
• A Casa dos Budas Ditosos - de João Ubaldo Ribeiro, Editora Objetiva, coleção Plenos Pecados, ilustrações de Adriana Varejão, 163 páginas, R$ 19,00.ReproduçãoJoão Ubaldo Ribeiro: relato apimentado, picante, retrato de fantasias sexuais sem limitesMarcos Losnak
Especial para a Folha2

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