Reprodução‘‘O erotismo é uma gota no mar de qualidades’’‘‘Todo o corpo é um órgão sexual, com exceção, talvez, das clavículas’’. A frase de Luís Fernando Veríssimo - que seria execrada pelo poetinha Vinícius de Moraes, que adorava as chamadas saboneteiras - espelha bem como o brasileiro encara o sexo. E a teledramaturgia nacional tem explicitado esta visão na busca da audiência. Mas a volúpia de autores e diretores por cenas eróticas assumiu tal proporção que muitas vezes são usadas mesmo em detrimento da própria história.
‘‘Xica da Silva’’, da Manchete, é um bom exemplo. Para alongar a trama para além dos 200 capítulos, o diretor Walter Avancini tem pavimentado a história da escrava que virou rainha com cenas cada vez mais picantes. Taís Araújo, atriz que faz Xica, chegou a se rebelar contra uma delas, que faria com Vitor Wagner, intérprete do Contratador João Fernandes. ‘‘Eu não quis fazer porque poderia pôr por água abaixo todas as conquistas que a comunidade negra artística vem tendo’’, justifica Taís, sem explicar a relação entre sodomia e cor da pele.
Avancini ficou irritado com o episódio, mas acabou aceitando tornar mais soft a cena, que deve ir ao ar no final de julho. Mas não poupou a pupila Taís. ‘‘Essa menina está tendo uma atitude pudica injustificável. As atrizes têm todo o direito de se defender dos maus diretores. Mas este não é o meu caso’’, esbraveja Avancini.
O diretor garante que não está apelando ao exibir cenas de nudez a torto e a direito. ‘‘O erotismo é uma gota no mar de qualidades’’, avalia, sem pudores, Avancini. Não é o que pensa o dramaturgo Dias Gomes. O autor, que também já escreveu cenas picantes em novelas como ‘‘Saramandaia’’ e está escrevendo a minissérie ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’, discorda de Avancini. ‘‘Xica está caindo no terreno do mau gosto’’, provoca.
Dias Gomes, por outro lado, acha que o público não se incomoda com cenas em que a nudez aparece de modo artístico - relembra que, em ‘‘Saramandaia’’, Sônia Braga exibiu um nu frontal. ‘‘O personagem tinha tanta sensualidade que o seu corpo queimava os lençóis. E ninguém se incomodou com isso’’, conta o autor.
São os atores, no entanto, os que mais sofrem com a expectativa de ter de encarar um roteiro com cenas de nudez. Nívea Stelmann, que vive a donzela Caroline da novela ‘‘A Indomada’’, acha possível abdicar da nudez sem abrir mão do erotismo. ‘‘Um ombro desnudo é bem mais sexy ’’, acredita Nívea. A atriz, no entanto, sabe que a Caroline vai brevemente perder a virgindade. E certamente na cena terá de mostrar mais que o ombro. A atriz, inclusive, não esconde a ansiedade pela cena. ‘‘Com certeza, não haverá apelação. E, se houver, vou conversar com os diretores’’, adianta a atriz.
Falar com o diretor, porém, nem sempre adianta. Ingra Liberato tentou este expediente quando participou da primeira fase de ‘‘Pantanal’’, na Manchete. E ela era casada com o diretor Jaime Monjardim. O prestígio, porém, não a livrou da cena da relação sexual que fez com o ator Paulo Gorgulho. O máximo que conseguiu foi reduzir o número de pessoas com o privilégio de presenciar a cena. ‘‘É tão constrangedor e profissional que a gente não consegue nem tirar uma casquinha. E olha que até já tentei!’’, diverte-se Ingra.
Para a diretora Tizuka Yamasaki, é fundamental um bom relacionamento entre diretor e ator para que um cena sensual não se transforme em um trecho de filme pornô. Em ‘‘Kananga do Japão’’, também na Manchete, Tizuka lembra que a atriz Elaine Cristina, que interpretava a prostituta Lysete, recusou-se a ir para a cama com o personagem do cafetão vivido por Raul Gazzola, apesar de saber que não seria para valer. ‘‘Falei que era estranho uma prostituta passar a novela toda vestida’’, afirma a diretora. Após uma conversinha ao pé do ouvido, a atriz se conformou, e resolveu fazer a cena. ‘‘Pior do que mostrar a nudez é ficar puxando os lençóis para se esconder’’, conclui Tizuka.
Estilos de nudez Assinar um contrato com determinadas cláusulas, antes da novela ir ao ar, pode ser a saída para que atores não sejam obrigados a se despirem no meio da trama. Esta é a opinião de Gabriela Alves, que, recentemente viveu a Assunção em ‘‘Salsa e Merengue’’. ‘‘Existe um lado íntimo meu que não vale a pena ser exposto’’, admite. A descontração de Gabriela, porém, está exposta nas bancas de revistas de todo o País.
A atriz está na capa da Playboy e aparece, a grosso modo, do jeito que veio ao mundo num ensaio fotográfico feito em Veneza, na Itália. Gabriela garante que posou porque a proposta a interessava. ‘‘Sempre fiz papéis de menininha. Agora tive a chance de mostrar que sou uma fêmea’’, gaba-se a atriz de 25 anos.
Quem está tentando trilhar o caminho inverso é a atriz e modelo Andréa Guerra. Depois de aparecer na capa da mesma Playboy e de desfilar com microbiquínis no Carnaval carioca, a atriz não quer mais saber de papéis eróticos. Isso não a impediu de fazer a prostituta Chola, em ‘‘Dona Anja’’, do SBT.
Reconhecida até hoje por ter protagonizado o especial ‘‘A Desinibida do Grajaú’’ na Globo, Andréa lembra que foi convencida a aparecer nua, na cena em que tomava banho, pelo diretor do especial, Roberto Talma. Ela chegou a ser chamada na ilha de edição para conferir a cena. Quando o especial foi ao ar, porém, não teve jeito. ‘‘Tomei um susto quando me vi pelada, mas tive de me conformar’’, relembra.
Vergonhas de fora Já vai longe o tempo em que apenas as mulheres eram vítimas das câmaras ousadas. A atriz e diretora Norma Bengell inaugurou o nu frontal no cinema brasileiro em Os cafajestes, de Ruy Guerra em 1961. Desde então, Norma ainda não viu mudanças na forma como a sexualidade é tratada pela dramaturgia. ‘‘É sempre a mulher que fica gemendo’’, constata. O ator Marcos Winter, que vive Hércules em ‘‘A Indomada’’, garante que já gemeu no ar. Senão de prazer, ao menos de frio e pânico.
Foi na novela ‘‘Pantanal’’, quando teve de entrar pelado no Rio Negro. ‘‘Era esquisito ter de transar num rio cheio de piranhas’’, lembra o ator. Lugui Palhares, o Pedro Henrique, da novela Perdidos de Amor, exibida pela Band, teve a nudez tão explorada no início da trama que choviam modelos para contracenar com o garotão, que vivia com o peito desnudo. ‘‘A nudez também é constrangedora para o homem. Mas sou ator e faço o que estiver escrito’’, enfatiza Lugui.

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