Erotismo "cult" está de volta às telas
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de setembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 20 (AE) - Pode não ser uma tendência, mas certamente será mais que uma coincidência. O erotismo "cult" está de volta às telas. Na França, saíram quase ao mesmo tempo "O Tédio", de Cédric Kahn, e "Romance", de Catherine Breillat. O grande must da temporada, para o público cinéfilo, é o cerebral "De Olhos bem Fechados", último trabalho de Stanley Kubrick. Que, aliás, participou, fora de concurso do recém-encerrado Festival de Veneza e, de certa forma, imprimiu seu tom geral à mostra italiana.
Veneza, este ano, foi acusada de reabilitar um erotismo dito "de autor". Além do testamento de Kubrick, programou obras escandalosas, como o coreano "Lies" ("Mentiras"), o franco-belga "Une Liaison Pornographique" ("Uma Ligação Pornográfica") e o italiano "Guardami" ("Olhe para Mim"). Este último baseia-se na história de uma figura popular na Itália, a estrela pornô Moana, morta misteriosamente com 32 anos. Isso para não falar no notório Tinto Brass, que apareceu no Lido, hors concours, com seu "Tra(sgre)dire", um macarrônico jogo de palavras entre transgressão e traição.
Tal dose de libido provocou a condenação do Vaticano. Como na Itália gosta-se de polêmica, o cineasta Ermanno Olmi, católico, saiu em defesa do curador da mostra, Alberto Barbera, dizendo que os excessos da sexualidade podem ser profiláticos - curam-se por si mesmos e previnem desvios maiores.
Não é possível colocar esses filmes todos no mesmo saco. Nem equipará-los, pelo simples fato de apresentarem temas comuns. "Romance" foi o que causou escândalo maior - efeito provavelmente buscado pela diretora Catherine Breillat ao escolher para o elenco um ator pornô, Rocco Siffredi. Rocco tem méritos notórios e a capacidade de interpretação não está entre eles. É tido como o mais bem-dotado em seu métier e Catherine não poupa detalhes ao espectador. Tirando esse exibicionismo anatômico, o filme até que é bem interessante, mostrando o caminho de uma mulher para encontrar um sentido para sua sexualidade. Feminista como um panfleto de Betty Friedan.
Já "O Tédio" parece usar a sexualidade para discutir um antigo impasse social: o excesso de consciência, por parte de um parceiro (o professor de filosofia), contra a natureza em estado bruto do outro, a gordinha Cecília. "Em De Olhos bem Fechados", Kubrick fala de sexo o tempo todo, sem mostrar uma única cena realmente erótica ao longo das 2h40 de duração do longa. Coisa de gênio.


