Considerada o fenômeno comercial da década no meio editorial, a trilogia ''Cinquenta Tons de Cinza'', ''Cinquenta Tons Mais Escuros'' e ''Cinquenta Tons de Liberdade'' já vendeu mais de 40 milhões de livros em todo o mundo. O romance britânico escrito por Erika Leonard James, ou simplesmente E.L. James, causou furor desde o lançamento na Ingraterra, em março deste ano, ao abordar o erotismo sob a ótica feminina.
O best-seller narra detalhes das experiências sexuais sadomasoquistas vividas por uma estudante e um milionário. A obra, que já está sendo adaptada para virar filme, tem dividido opiniões e gerado calorosas discussões sobre sua explícita linguagem pornográfica.
A descrição dos fetiches sexuais dos personagens principais do livro fez com que a publicação fosse proibida de circular em escolas e bibliotecas públicas dos Estados Unidos. No entanto, a polêmica parece ter impulsionado as vendas da públicação. Somente no Brasil foram vendidos cerca de 200 mil exemplares em pouco mais de um mês de lançamento do primeiro e segundo volumes da obra.
''É realmente um fenômeno. O dia inteiro tem pessoas atrás deste livro, de adolescentes a idosos. E não são apenas as mulheres que têm procurado por ele, os homens também têm comprado dizendo que querem conhecer melhor o desejo feminino'', afirma Sônia Alves, que trabalha como vendedora em um sebo da cidade.
Acostumada a ler muitos romances por conta de sua profissão, ela diz que esperava mais do livro Cinquenta Tons de Cinza. ''Criou-se tanta polêmica em relação ao livro, que eu achei que fosse algo realmente novo. Achei a linguagem muito pornográfica, a ponto de não ter coragem de recomendar o livro para minha irmã, por exemplo. Acho que existem autores clássicos que abordam o erotismo com uma linguagem muito mais rica e interessante, como é o caso do Aloísio Azevedo e do Machado de Assis. Não gostei e, por isso, não pretendo ler os outros dois volumes da série. Para mim, esse livro é uma versão mais apimentada dos romances abordados em Júlia, Sabrina e Bianca'', avalia a vendedora.
Já a professora Cláudia Sartori de Azevedo diz ter gostado do livro. Para ela, o que tem atraído o público feminino é o romance e não as cenas sexuais descritas no livro. ''O personagem principal é bonito, rico e sensual e leva a personagem feminina a viver tudo o que uma mulher sonha viver, não em termos sexuais, mas sim em relação ao romance, ao fato de ser desejada'', pontua.
A linguagem explicitamente pornográfica do livro não chocou Cláudia. ''Não achei chocante. Acho que se trata de um modismo. Já havia encontrado descrições detalhadas de relações sexuais mesmo em outros gêneros de livros, como nos policiais da série O Homem que Não Amava as Mulheres'', aponta.

Liberdade e culpa
Depois de ouvir vários relatos de suas pacientes, o psicólogo Sylvio Amaral Schriner fez questão de ler a obra de E. L. James. ''Acho que o livro tem feito muito sucesso porque o tema sexualidade ainda causa muitas angústias e todo mundo quer entender sobre esse assunto. Embora o livro não traga nenhuma novidade, ele serviu de desculpa para as pessoas falarem sobre sexo'', analisa.
De acordo com ele, outro aspecto positivo é que, ao abordar o sadomasoquismo, o livro mostra que o fato de ser dominado na cama não deixa a pessoa, seja homem ou mulher, em situação de desvantagem. ''Apesar de toda liberdade conquistada, muitas mulheres ainda sentem culpa de sentir prazer sexual e têm medo de serem comparadas a uma prostituta. É muito bom que se encare com naturalidade o fato dos casais buscarem outras formas de obter prazer, além dos métodos tradicionais'', avalia.

Fim dos tabus
Já a doutora em Educação e professora da Universidade Estadual de Londrina Mary Neide Figueiró, diz ter receio que ao ler a obra que enaltece a prática sadomasoquista as mulheres acabem achando que só é possível obter prazer por por meio de algo extraordinário. ''Ainda não li o livro, mas todas as matérias que falam sobre ele focam na questão do sadomasoquismo. É importante saber que existem outras práticas além do convencional papai e mamãe, mas também é bom ressaltar a importância da afetividade das relações, sabendo que é possível ser feliz no dia a dia, sem a necessidade de viver coisas extraordinárias para alcançar o prazer'', salienta.
De acordo, com a docente, que é autora de três livros sobre sexualidade, o grande ponto positivo do fenômeno alcançado pelo Cinquenta Tons de Cinza é o fato de as mulheres assumirem que leram o livro e abrir espaço para debater a questão do prazer feminino. ''Essa é uma enorme conquista: poder falar sem pudor de coisas que fazem parte do dia a dia de todo mundo, sem pudores'', conclui.

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