Erotismo cheio de graça
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de novembro de 1997
Nelson Sato 
Londrina
ReproduçãoGisela Rao: escritora se diverte na foto de divulgação do livroEstá declarada a guerra dos sexos. No livro Sex Shop, a escritora paulista Gisela Rao põe o dedo na ferida das diferenças que fazem homens e mulheres se engalfinharem no inferno doméstico.
A incompatibilidade se faz explícita em dois contos que compõem e se confrontam no livro, que está saindo pela editora Lilith. Por que os homens não mijam sentados? Por que os homens, depois de mijar, não abaixam as tábuas das latrinas? Por que os homens, mesmo levantando as tábuas, mijam fora dos vasos? Por que os homens sempre deixam um pelinho na borda da latrina? - pergunta a personagem no conto Manifesto Tábua, no qual a autora lista uma a uma as razões que levam as mulheres a amaldiçoarem os homens.
Por que as mulheres se depilam com nossos aparelhos de barbear? Por que as mulheres sempre pedem para a gente comprar Moddes para elas? Por que as mulheres demoram tanto tempo no banheiro? Por que as mulheres sempre mancham a roupa da gente com batom? Por que as mulheres detestam dar uma rapidinha? - indaga o personagem no conto Manifesto Prestobarba, onde a autora desfia o rosário de queixas masculinas contra o mulherio.
Sex Shop é o primeiro livro de Gisela, que há 11 anos trabalha em São Paulo como redatora publicitária. Reúne 34 contos picantes e cheios de graça. A autora estreou nas letras escrevendo contos - sempre na linha humor erótico - em revistas como Marie Claire, Trip, Planet Sex e Erotika. Pela editora Brasiliense, participou de uma coletânea feminina de contos eróticos, cuja publicação forneceu-lhe o primeiro estímulo para escrever o livro.
Mas entre a idéia e a publicação, passou três anos cozinhando o material. Eu poderia ter lançado antes, mas por falta de tempo, medo de ser feliz, sei lá, fui atrasando o projeto. Só depois de frequentar uma psicóloga, decidi levá-lo adiante - conta ela. Atualmente, Gisela cria sites para a Internet, onde os conectados na rede podem conferir a versão interativa de alguns contos de Sex Shop. O endereço é: www.distopia.com/sexShop.Num país tido como machista, como é estrear na literatura com um livro de contos eróticos? Pelo fato de ser mulher, isso provocou algum espanto?
Gisela Rao - O espanto foi não ter provocado espanto. Com exceção de alguns e-mails que recebi pela Internet, mais voltados para o lado da brincadeira e da sacanagem, não vi nenhuma reação de surpresa. Um dos motivos talvez seja o fato do livro não ser agressivo. Os contos são relaxantes e cheios de humor. Outro motivo é que hoje o erotismo está mais comum no dia-a-dia das pessoas. Outro dia, entrou uma atriz nua num grande jornal aqui de São Paulo para divulgar uma peça e isso não causou nenhum escândalo. O jornal nem divulgou a peça.
Você teve algum modelo literário feminino para começar a escrever, ou em literatura não existe essa de sexo?
Gisela Rao - Gosto muito do Henry Miller e do Nelson Rodrigues, mas não acho que eles apareçam como influências na minha escrita. Na verdade, para alguém que escreve eu leio muito pouco. Desenvolvi mais o ouvido. As pessoas falam que essa minha vocação é herança genética, porque o meu pai é advogado e toda a minha família escreve bem.
Você é redatora publicitária há mais de uma década. Qual o peso da linguagem da publicidade em seu livro?
Gisela Rao - A influência é grande, a começar pelo tamanho dos contos, que são bem curtos. Além do mais, tem a sequência de começo, meio e fim. Os contos, enquanto gênero literário, geralmente não trazem um fim bem definido. No meu caso, todos trazem uma piada ou uma surpresa no final.
Há vários contos no livro que mostram personagens transando via Internet, pelo telefone e até dando vazão às fantasias num diário. O sexo virtual, para você, é uma forma de perversão e desvio ou uma prática saudável e normal?
Gisela Rao - Primeiro é bom lembrar que as pessoas estão transando menos. Mas elas fantasiam. O sexo virtual é saudável a partir do momento em que as pessoas brincam, se divirtem e extrapolam suas fantasias. Por exemplo, quando o namorado está longe, não há nada de mais que role um lance no disk-erótico. Também pela Internet, acho legal desde que você esteja curtindo a fantasia. Porque depois de um certo tempo acaba ficando um saco. Um outro elemento importante aí é que todas essas manifestações são práticas de sexo-seguro.
Você disse que as pessoas estão transando menos...
Gisela Rao - Com certeza. Eu tenho facilidade para falar de sexo, converso muito sobre esse assunto e percebo que as pessoas estão se satisfazendo em malhar. Estamos na era do ficar. Um dos motivos é a Aids. Mas noto também que o próprio erotismo está um pouco desvalorizado. Houve uma época em que as pessoas saíam, conheciam alguém e transavam. Hoje não está rolando a transa, principalmente entre jovens de 18 e 20 anos. Acho isso ruim.
Você já participou de chats eróticos? As conversas na Internet colaboraram, de alguma forma, para a elaboração dos contos?
Gisela Rao - Aproveitei pouca coisa nos chats eróticos. As pessoas não viajam muito, não soltam a imaginação. O material recolhido da Internet se reduziu à ambientação de alguns contos. Para o próximo livro, estou pedindo sugestões de idéias para as pessoas. Mas é raro alguém sair do relato cotidiano.
Como tem sido a recepção crítica do livro? Alguém já te acusou de fazer literatura de entretenimento, no sentido pejorativo da expressão?
Gisela Rao - As críticas têm sido favoráveis. Não vejo mal em escrever para entreter. O Steve Spielberg disse uma vez que gostaria que as pessoas saíssem de seus filmes melhores do que quando entraram no cinema. Penso da mesmo forma. É claro que eu gostaria que um crítico da Veja elogiasse meu livro pelo estilo literário, que ele contém. Mas meu grande objetivo é fazer os leitores rirem, se divertirem, curtirem e saírem mais leves do que quando entraram no livro.


