Eros é reforçado pela mídia
O sexo é matéria-prima de considerável número de filmes no Festival de Veneza. E a mídia entra como caixa de ressonância
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
A parcela maior de culpa fica debitada ao irresponsável mas compreensível circo de marketing armado - primeiro nos Estados Unidos e agora na Europa - em torno de De Olhos Bem Fechados, a obra prima de Stanley Kubrick que consegue a bravura de ser ao mesmo tempo tão excitante quanto assexuada. E neste picadeiro, a contribuição mediática é como de hábito definitiva. De fato, olhando mais detidamente a sinopse de boa parte dos filmes selecionados, em competição ou nas paralelas, há uma coleção considerável de situações eróticas e/ou sexuais, em graus diversos de explicitude, visual ou auditiva. O que provavelmente irá ocorrer nos próximos dias, nas nove salas que compõem o complexo exibidor da 56ª Mostra Cinematográfica de Veneza, é um gradativo esvaziamento de expectativas. Pois é impossível que neste século agonizante tudo já não tenha sido mostrado e visto nas telas. Quase tudo, diriam os plantonistas de escândalos, de olhos bem abertos na vigília ao redor de títulos como o francês Uma Ligação Pornográfica e o italiano Guardami. Nesta festiva crônica de voyerismo anunciado, onde no momento tudo se escreve, tudo se lê e tudo se ouve e se propaga em estéreo digital, o que não vai faltar, com certeza, são as armadilhas do tipo pornô-intelectual.
Uma vez mais está banida a burra unanimidade. A crítica italiana generosamente abriu espaços para resenhar o filme de Stanley Kubrick. E como nos Estados Unidos as divergências são muitas, há um murismo próprio de quem ainda não acredita muito no que viu. Entre os que gostam e não gostam estão La Repubblica e Il Corriere della Sera. Já La Stampa se rende ao fascínio da obra. No Brasil não vai ser diferente. Amir Labaki, da Folha de S. Paulo, confessou ontem que não despreza mas não ama. Já Luis Carlos Merten (O Estado de São Paulo), que não está em Veneza, disse passionalmente a Labaki que o filme pode mudar a vida das pessoas.
Começou tímida, a mostra competitiva. Com movimentos preguiçosos e inapetentes provocados pela ressaca pós ouverture kubrickiana. O austro-suíço-germânico Nortrand, da estreante Barbara Albert, não chega a ter aquele impulso e frescor dos primeiros filmes, e seria candidato tão somente a um prêmio de melhor filme austríaco, já que por aqui é o único saído de Viena. Num cenário contemporâneo, duas amigas, Jasmin e Tamara, e mais Valentin, Senad e Roman, todos jovens, de diferentes etnias e origens sociais, dividem sonhos e desesperanças durante um curto período. Há influentes rescaldos da guerra na ex-Iugoslávia, há sonhos, frustrações familiares e amorosas, intermináveis indagações sobre um futuro ainda nebuloso. O filme tem um mérito, e com certeza foi aceito por isso: os personagens passam muito daquele misto de angústia, incerteza e carência que ainda agora marca a vida de tantos jovens europeus protagonistas de radicais mudanças na geografia física e humana do lado oriental do continente.
A segunda entrada pela disputa do Leão de melhor filme veio da Polônia. Uma Semana na Vida de um Homem, escrito, dirigido e interpretado por Jerzy Stuhr, é uma espécie de fábula moral, tema particularmente caro aos cineastas poloneses - a onipresente e rígida religiosidade católica romana inserida num ambiente político-social à esquerda: qual intelectual não veria com bons olhos esta fértil dicotomia como fonte de belos e graves filmes?
Uma Semana na Vida de um Homem é o que o título diz. Embora aparentemente bem-sucedido, em sete dias o homem vai mostrar do que é capaz. Adam Borowski é um promotor habituado a usar o código para distribuir justiça. Mas este homem tem uma vida privada, com problemas que ele não pode resolver segundo uma rígida lógica matemática.
O filme trata de temas morais e assume o risco de se tornar moralista. O que de fato acontece, e o que afinal o distancia, por exemplo, do Kieslowski de Decálogo, Não Matarás e Não Amarás, filmes que despertam dúvidas e incertezas em vez de dogmas. Razão de ser de qualquer manifestação artística, de resto e para sempre.





