A música de Caetano Veloso, como uma luva, inunda o filme. Chama-se ''Michelangelo Antonioni''. Mas infelizmente o episódio vulnerável de ''Eros'' é justamente aquele assinado pelo incomparável mestre da incomunicabilidade, o diretor da trilogia cult ''A Noite'', ''A Aventura'', ''O Eclipse''. Com roteiro inexplicavelmente incoerente e insosso de outro ''maestro'', Tonino Guerra, ''Il Filo Pericoloso Delle Cose'' parece mais um filme de Walter Hugo Khouri em sua fase final e decadente. Diálogos ruins, um lamentável trio de atores recitando em inglês algumas bobagens desconexas ou executando coreografias pretensamente eróticas. Com todo o respeito que evitou manifestações desagradáveis ao final da exibição do episódio, é hora de pedir carinhosamente ao nonagenário Antonioni que encerre já sua densa e seminal carreira de pensador de imagens. O silêncio de uma platéia constrangida deve ser o recado mais expressivo.
O curta metragem de Steven Soderbergh, ''Equilibrium'', seria até bem mais interessante, não tivesse ocorrido mais uma trapalhada, agora proporcionada pela projeção. Um dos rolos foi trocado, e todos pensaram que o nonsense que se viu na tela (punks numa briga de bar) fosse mais um sonho do personagem de Robert Downey Jr. no divã do analista Alan Arkin. Quando se localizou o elo perdido e o filme foi retomado, a fratura já tinha comprometido o clima da razoável comédia de Soderbergh.
É de Wong Kar-wai a pequena obra-prima ''A Mão'', 40 minutos de erotismo denso, rarefeito, sutil, pleno daquela melancolia que preenche ''Amor à Flor da Pele'' em tempo integral. Em Shangai, 1963, o alfaiate Chang, consumido por paixão recolhida que arde mas não queima, faz as roupas da prostituta Miss Hua (Gong Li, em carne e seda). Eros é milimetricamente medido sem fita ou régua, mas pela mão que no decorrer dos anos decorou cada centímetro daquelas formas. Um amor desesperado, fetichista, pura emoção tátil e visual. Exemplo conclusivo de como o grande cinema pode, sabe - e às vezes deve - ser irresistivelmente fútil. Um fecho de ouro para este Festival de Veneza.
(C.E.L.J.)

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