Ernest JsNger morre aos 102 anos
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terça-feira, 17 de fevereiro de 1998
Antônio Gonçalves Filho Agência Estado 
Ernst Junger não incomoda mais ninguém. Morreu ontem, aos 102 anos, em Wilflingen, uma pequena cidade de Baden-Wurtemberg no sudoeste da Alemanha, onde vivia retirado há mais de 40 anos. Autor de livros cultuados como Heliópolis e Eumeswil, Junger era uma figura polêmica. Grande escritor, Junger foi autor de um ensaio de triste memória que serviu de inspiração para os nazistas, Sobre o Nacionalismo e a Questão Judaica.
Junger era anti-semita? Não resta a menor dúvida. Junger alimentava sentimentos bélicos? Idem. Junger era colonialista? Basta ler seu Viagem pelo Atlântico, em que descreve uma viagem ao Brasil em 1936. Então, o que tornava sua literatura tão atraente? Seu estilo e sua força visionária. Junger morreu mais próximo de Nietzsche do que Kant, mais perto de Demóstenes, Montaigne e Lichtenberg, como declarou numa entrevista há cinco anos, quando a França redescobriu seus livros antigos e lançou inéditos como Exposição, coletânea de fragmentos.
A literatura de Junger encontra-se na fronteira em que filosofia e ciência trocam passaportes. O escritor costumava identificar na descoberta do átomo o fim de tudo. No ano em que nasceu, 1895, Rontgen expôs uma invenção revolucionária, os raios X, que o físico Max von Laue usou para descobrir o átomo. Comparando essa aventura científica à situação do mundo, Junger profetizou que a política vai desaparecer e dar lugar à ciência. A política seria o osso dos raios X, uma descoberta hoje rudimentar. A fecundação in vitro e a clonagem são o futuro, que anuncia um fascismo pior do que todo o fascismo conhecido.
Em síntese, o que Junger queria dizer é que pequenas elites deverão tornar-se cada vez mais poderosas para atender às aspirações da massa. Passo seguinte: arrumar uma divindade qualquer porque a massa não acredita que exista algo de sagrado no meio dela. Isso é nazismo? Sem dúvida, a história de Hitler e seus fanáticos seguidores tem algo a ver com isso, mas será difícil negar razão a Junger quando se vê um filme como Titanic, em que uma senhora de 101 anos (quase a idade de Junger) atira ao mar uma jóia valiosa quando poderia salvar milhões da fome com a venda do colar. A massa adora, porque há algo de divino na relação amorosa da velha com o fantasma de seu namorado. Não escolhemos, temos os genes programados para nos transformar em tenuípedes brilhantes ou imbecis, defendia Junger. Não por acaso, sua maior preocupação nos últimos anos foi preparar um estudo literário sobre fenótipos e genótipos. Ditaduras e tempos muito mais árduos do que aqueles que já conhecemos nos reserva o futuro, costumava dizer. É difícil não prestar atenção a essa advertência quando se assiste ao desaparecimento de culturas regionais na Europa unificada e a fragilidade do mundo ocidental diante das bolsas asiáticas.
Junger incomodava porque não tinha inibições morais. Fugiu de casa aos 17 anos e alistou-se na Legião Estrangeira. Construiu seus heróis com os restos do que sobrou de humano nessa espécie de besta da guerra, como o narrador anarquista de Eumeswil, acorrentado à mesa de seu tirano como testemunha impotente de um mundo decadente. Mesmo seus detratores são obrigados a admitir que poucos escritores conseguiram neste século chegar à precisão narrativa ou à poderosa descrição de Junger, especialmente em Heliópolis, em que cria uma sociedade totalitária adotando como modelos tipos que conheceu muito bem, como Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, que, aliás, o detestava. Todos temos, com efeito, um lado diurno e um lado noturno, e alguns se transformam, com o crepúsculo, em pessoas diferentes, escreve em Eumeswil. Atire a primeira pedra quem não for assim.


