São Paulo, 26 (AE) - "A Vida Sonhada dos Anjos" é um filme sobre o mal-estar contemporâneo. Não é o que distingue esse primeiro longa-metragem do francês Erick Zonca de tantos outros que falam sobre o mesmo tema. Ele é, também e principalmente, um comentário sobre a juventude, esse momento de intensidade da vida humana, e, por isso mesmo, tão sensível a variações de toda espécie.
As duas personagens principais, Isa (Élodie Bouchez) e Marie (Natacha Régnier), são as amigas da trama, as figuras principais da história. Isa é uma mochileira que chega a Lille sem eira nem beira. Encosta-se na casa de Marie. São personalidades diferentes e isso dá encanto ao filme. Isa é mais solar, aquele tipo de gente que consegue tirar da vida o que ela tem de melhor. Marie é complicada, encarna em si a angústia do tempo e, quando entra de cabeça num caso de amor sem perspectiva
acaba por naufragar.
As duas conduzem a trama, mas em torno delas gravitam outros personagens, nem tão secundários assim e igualmente encantadores. Como Marie e Isa frequentam a barra-pesada noturna de Lille, acabam conhecendo alguns tipos interessantes, como o leão-de-chácara de uma boate, um gigante de bom coração que fica na memória do espectador.
Essa é a história e não há muito a acrescentar. Duas garotas, sem grandes objetivos, tratam de buscar certa felicidade onde podem encontrá-la. Uma delas é bem dotada para esse tipo de luta mínima pela sobrevivência e a outra nem tanto. Quase tudo seria banal. Mas não se analisa filme pelo conteúdo. Ou pelo menos não somente por ele.
Fora de circuito - O que há de interessante é a maneira como Zonca conta a sua história e elege seus assuntos. De certa maneira, ele se alia a um certo neonaturalismo francês, muito produtivo, cujo grau zero seria o contundente "O àdio", de Matthieu Kassowitz. É um tipo de cinema que vai buscar seus (anti) heróis, mais na periferia que no centro. São os garotos das banlieus parisienses, ou de cidades fora do circuito in da França, como Lille.
Esse tipo de cinema aparece como reação à estética dominante nos anos 80 e começo dos 90, formalista, apurada tecnicamente, mas insípida, inodora e incolor, como costumam ser os trabalhos de Caro, Jeunet e Besson. Kassowitz, Klepish e agora Zonca fazem uma volta atrás, para ganhar fôlego. Trazem o cinema da fantasia para o mundo real. E, desse mundo real, elegem como personagens principais os "paumés" - os fracassados, os perdedores da vida. A arraia-miúda. Claro, trata-se de uma opção política.
Mas também ética e cinematográfica. Ética porque, sem ser maniqueísta, revela uma opção preferencial pelos marginalizados, tratando-os com ternura, embora evite endeusá-los, o que seria um retrocesso populista. Opção também cinematográfica, porque a linguagem adotada parece afinar-se com a situação de desequilíbrio que revela. Nesse tipo de cinema, a câmera na mão é comum, assim como aquele tipo de fotografia mais "selvagem", que desestabiliza o espectador e de certa maneira frustra a sua expectativa por um produto bem acabado, em geral, inócuo. Na Dinamarca, esse novo naturalismo foi radicalizado, ganhou um rótulo vistoso, Dogma 95, e transformou-se no mais badalado clichê de marketing do cinema independente.
Com essa estréia, Zonca mostra o Primeiro Mundo por suas bordas. Nada que lembre o cartão-postal ou a imagem deslumbrada que se tem dele pela perspectiva dos países eufemisticamente definidos como "em desenvolvimento". Beneficia-se de um trabalho extraordinário da dupla Éloide Bouchez-Natacha Régnier. As duas dividiram o prêmio de interpretação feminina em Cannes.
Serviço - "A Vida Sonhada dos Anjos". Drama. Direção de Erick Zonca. Com Elodie Bouchez, Natacha Régnier, Grégoire Colin. Duração: 113 minutos. Espaço Unibanco 1, em São Paulo, às 15 horas, 17h10, 19h20 e 21h30. 14 anos. Distribuição: Lumire.

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