ReproduçãoO jornalista José Ernesto Erichsen Pereira lança hoje, às 18 horas, no hall de entrada da Secretaria do Estado da Cultura, o livro ‘‘Uma História de Caminhos’’. A obra está sendo relançada e é, como descreve o subtítulo do livro, um ‘‘estudo sobre a formação e influência do Paraná no sul do Brasil’’.
A primeira edição foi de 1962, bancada pela Sociedade Literária ‘‘O Formigueiro’’ e agora ganha reedição de apenas 500 exemplares da Secretaria de Estado da Cultura, com ilustrações de Estela Carmen Pereira Sandrini, filha do autor.
O livro trata da formação cultural e social do paranaense como influenciador de costumes e um agente de ligação entre São Paulo, centro cultural, econômico e social herdado de Portugal, e os costumes acastelhanados dos habitante do Prata. Eram os paranaenses que faziam esta ligação, ao mesmo tempo em que conviviam com a migração de europeus e a formação de caminhos, como os que os tropeiros faziam no seu levar de gado e mulas do Rio Grande para Sorocaba e muitas vezes a Feira de Santana, na Bahia. No caminho iam se fazendo cidades e costumes.

Reprodução‘‘Uma História de Caminhos’’ é mais do que um simples livro sobre o caminho das tropasTrata, por exemplo, do falar peculiar do paranaense que, segundo o autor, adotou a fonetização didática para conversar com os estrangeiros, principalmente com os russo-alemães. ‘‘Foi essa corrente de imigrantes que determinou o endurecimento fonético do modo de falar dos habitantes das cidades da Lapa, Palmeira, Ponta Grossa e Imbituva e, depois, de toda a gente localizada no segundo e terceiro planaltos paranaenses’’, escreve Pereira.
Segundo ele, os russo-alemães vindos do Volga para o Paraná, em 1878, somavam mais de 20 mil pessoas. Era mais gente que a soma das populações das cidades mais próximas. ‘‘Naturalmente que aquelas populações paranaenses não iriam aprender o dialeto russo-alemão dos recém-chegados. Estes é que teriam de aprender a língua de nossa gente. E assim foi: no começo foi duro, mas, enfim, vencemos, ficando, porém, com um linguajar duro, professoral, didático’’, explica às páginas 48 e 49.
Ainda tratando de formação da linguagem, ele lembra que alguns termos e mesmo alguns costumes passaram a ser incorporados ou, em contrapartida, ensinados pela população paranaense, influenciada tanto pelo linguajar dos tropeiros quanto dos imigrantes que aqui chegavam. Sobre os tropeiros, também mostra que muitos deles se estabeleceram no Paraná e chegaram a participar da política local.
Casamento ‘‘Quando se verifica a genealogia de nosso ‘líderes’ políticos - da Quinta Comarca e da Província até o começo da República - vemos que grande número deles, quando moços, foram tropeiros e casaram com filhas de estanceiros do Rio Grande e de fazendeiros paulistas. E, também, não foram poucas as moças do Paraná a contrair núpcias com paulistas e gaúchos que, percorrendo os caminhos que ligavam o Rio Grande à feira de Sorocaba, delas se enamoraram’’, escreve à página 35.
O jornalista e escritor mostra que até mesmo Saint-Hillaire, o historiador francês, gostou das mulheres dos Campos Gerais: ‘‘As mulheres são algumas vezes de rara beleza. Têm a pele rosada e uma delicadeza de traços que eu não tinha ainda notado em nenhuma brasileira’’, escreveu o viajante francês.
‘‘Uma História de Caminhos’’ é mais do que um simples livro sobre o caminho das tropas. Nos ensina as origens de certos costumes e de algumas expressões linguísticas, mas é, mais do que tudo, uma história de gente que vivia em torno de caminhos, numa época que o Brasil era muitos. Foi pelo trabalho desta gente que aconteceu a união do sul com o sudeste.
‘‘A história da humanidade é uma história de caminhos’’, afirma o também jornalista e escritor Nireu Teixeira na introdução do livro. ‘‘Este livro, como o nome indica, é uma história de caminhos. Caminhos que se fizeram a partir dos Campos Gerais de Curitiba, em direção ao extremo Sul. De imensa importância na consolidação territorial do Brasil. É obra imprescindível para o conhecimento da contribuição dos ‘Paulistas de Curitiba’ neste período tão significativo da nossa história, envolto na neblina do tempo, pouco conhecido, em profundidade, pelo Brasil e até pelos paranaenses’’, escreveu Teixeira.
José Ernesto Erichsen Pereira nasceu na cidade de Palmeira, em 1909, e concluiu os estudos em Curitiba, onde se iniciou ainda jovem como jornalista. Trabalhou nos jornais O Dia, A Tarde e O Estado do Paraná. Foi secretário da Prefeitura da Lapa, e trabalhou no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários - IAPC, no Paraná e em Santa Catarina.
Até mesmo na dedicatória do livro está presente a importância dos tropeiros. ‘‘Em memória de Manoel Antônio da Cunha Braga (‘‘Nhôzinho’’), avô de minha exemplar esposa, dona Stella Braga Pereira, e como homenagem a meu tio Conrado Erichsen Sobrinho, os últimos tropeiros da família’’, escreveu o autor.
‘‘À sua maneira, Erichsen Pereira é um tropeiro da história a nos guiar nos tortuosos caminhos das tropas, arrebanhando ‘gado de vento’, cruzando rios, descendo e subindo montanhas, ensinando-nos a ontogênese do Paranᒒ, conclui Nireu Teixeira em sua apresentação.

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