Eric Clapton erra a mão
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terça-feira, 07 de abril de 1998
Mauro Dias Agência Estado 
Contraponto aos quase dez anos sem gravar um álbum de inéditas, Pilgrim decepcionará os fãs mais dedicados de Eric Clapton. É um disquinho de baladas quase sempre bobas. As que não o são - My Fathers Eyes, que abre o disco, tem um interessante traçado melódico - se perdem em arranjos cheios de teclados e cordas diluidoras, corinhos de fancaria. Mesmo os solos da guitarra deixam de lado a criatividade e investem no óbvio.
É indesculpável que o disco de Clapton traga uma balada rastaquera como River of Tears, que envergonharia quem chorava com Fred Mercury. As duas músicas mencionadas são dele mesmo (a segunda tem letra de Simon Climie, o que pode explicar alguma coisa). A pretensão bluesy de River of Tears fica só na voz rouca do cantor - e que cantor! Tanto pior quando o disco de um grande artista resulta assim tão ruim.
Pilgrim (peregrino) também tem letra e Climie, que programou a bateria (você deve estar começando a entender como a produção funcionou) e tocou os teclados eletrônicos (o órgão Hammond ficou a cargo de Paul Carrack), acomodando o pacote sonoro básico sob o corinho de Chyna & Simon e as cordas da London Session Orchestra. É faixa um pouco mais animadinha. Uma frase reincidente da guitarra salva-a do desprezível absoluto.
Curioso. Clapton nunca se mostrou afeito a modismos. Em Pilgrim, parece, quis fugir à regra, modernizar a sonoridade (mas ele não precisa modernizar nada; é dono de seu pulso único, estilo inconfundível). E segue assim, de efeitos em efeitos eletrônicos, baladas tolíssimas - Broken Hearted, letra de Greg Phillinganes, bateria de Steve Gadd, baixo de Natha East (um timão), Onde Chance, letra outra vez de Climie, Paul Waller na programação meio clubber da bateria, cordas de orquestra sinfônica, riffs de guitarra perdidos na massa sonora acumulada.
Melhor soa Circus, Clapton tocando violão de cordas de aço, um banho, e aqui tudo funciona. Melodia inteligente, letra idem, economia no arranjo, o baixo de Nathan East soando como deveria, Chyna fazendo a segunda voz (e fazendo lembrar as boas canções de Paul Simon, na época da dupla com Art Garfunkel). Bom também soa Going Down Slow, o blues famoso de St. Louis Jimmy, e Fall like Rain, de Clapton mesmo, um country cheio de brios.
O guitarrista inglês homenageia Bob Dylan, regravando Born in Time. Desperdiçada homeangem - sai-se pomposa demais. Clapton só usa a guitarra com a força conhecida no blues de três acordes Sick & Tired, décima faixa. Parece até Eric Clapton. A canção Needs His Woman é bonita, mas o coro a estraga. Forte em Shes Gone , Clapton desliza novamente para a mediocridade em You Were There , uma canção, e Inside of Me, um híbrido modernoso que o desmerece. Melhor teria sido o silêncio.


