André Bernardo
TV Press
No início da carreira, Tarcísio Meira só emplacava papéis de mocinho. Com o tempo, conseguiu provar que poderia fazer personagens complexos como o mau-caráter Dom Jerônimo, de ‘‘A Muralha’’, próxima minissérie global
Numa tarde ensolarada de dezembro, Tarcísio Meira chega ao sítio em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, que serve de locações para ‘‘A Muralha’’, a próxima minissérie da Globo sem data prevista para ir ao ar. Quase incógnito, estaciona o carro, cumprimenta a todos e se dirige para o galpão improvisado de refeitório. No meio de figurinistas e contra-regras, não se parece nem um pouco com um dos ‘‘top de linha’’ da Globo, com salário estimado em R$ 70 mil mensais. Dali a pouco, já está no ‘‘set’’ de filmagem.
Quando a diretora Denise Saraceni dá início às gravações, Tarcísio Meira prova porque é um dos mais respeitados atores da tevê brasileira. ‘‘O maior encanto da profissão de ator é poder sublimar as aspirações do cidadão comum’’, filosofa. Desde que começou a fazer novelas em 1963, quando protagonizou ‘‘2-5499 Ocupado’’, passando por uma infinidade de teleteatros na Tupi e Excelsior, esse paulistano de porte atlético e olhar arguto se viu condenado a interpretar o papel do mocinho.
Só nos anos 80 e 90 teve a chance de exercitar a veia cômica em novelas como ‘‘Guerra dos Sexos’’ e ‘‘Araponga’’ ou de incorporar tipos odiosos como Renato Villar, de ‘‘De Corpo e Alma’’, e Raul Pellegrini, de ‘‘Pátria Minha’’. ‘‘Não tenho a vaidade de apresentar tipos diferentes a cada trabalho. Só quero papéis que tenham credibilidade’’, argumenta.
Aos 63 anos de idade, Tarcísio Meira se diz encantado com o atual papel em ‘‘A Muralha’’. Na esperança de definir o personagem, o ator deixa de lado a tradicional fleuma britânica e lança mão de adjetivos quase impublicáveis, como ‘‘demente’’, ‘‘pervertido’’ e ‘‘calhorda’’. Criado especialmente para a minissérie pela autora Maria Adelaide Amaral, Dom Jerônimo Taveira é um beato rico e hipócrita que não faz outra coisa a não ser infernizar a vida dos habitantes da Lagoa Serena.
Depois de quase 40 anos de tevê, não chega uma hora em que todos os personagens se tornam muito parecidos entre si?
Isso acontece muito. É justamente por isso que, quando aparece um personagem diferente de todos os que já fiz, quero agarrá-lo com unhas e dentes. Apesar de não existirem dois personagens iguais. Eles podem até parecer iguais mas, se eu me debruçar sobre ele e me esforçar por encontrar as nuances do personagem, ele vai parecer diferente de todos os outros que fiz. O mais importante é fazer com que o público acredite nos personagens que eu interpreto.
Como você define o austero protagonista de ‘‘A Muralha’’?
O que posso dizer de Dom Jerônimo? Ele é um beato de péssimo caráter. Um calhorda, como dizem nos dias de hoje. Um perfeito canalha... É um sujeito que acredita somente na religião que criou para si próprio. Mas, em alguns momentos, dá a entender também que não acredita. Ele apenas usa a religião em proveito próprio. Por tudo isso, não consigo definir Dom Jerônimo assim ou assado. Tudo o que eu disser sobre ele vai ser muito pouco.
De uns tempos para cá, você se especializou em fazer tipos odiosos. A que você atribui isso?
Não acho que tenha feito tantos vilões assim. Fiz alguns, mas não muitos. Não é pelo fato de ser mau-caráter ou não que um personagem torna-se bom aos olhos do público. O personagem é bom quando você acredita nele e, principalmente, quando o público acredita no que estou fazendo. Não tenho compromisso com esse ou aquele tipo de personagem. O meu único compromisso é com a verdade. Essa é a minha maior preocupação.
Você nunca se sentiu tolhido por ter a imagem associada a mocinhos românticos?
De fato, os papéis românticos são leves, universais e de pouco engajamento com a realidade. Afinal, tais personagens têm de atingir o maior número possível de pessoas. As pessoas costumam assistir novelas porque certos personagens têm o poder de sublimar sonhos e aspirações. E este é justamente um dos maiores encantos da profissão de ator. Só que, com a idade, passei a interpretar papéis mais complexos e elaborados. Quando estreei na tevê, ainda não havia novelas. Fiz ótimos papéis nos teleteatros da Excelsior. Depois que comecei a fazer novelas é que resolveram investir na imagem de galã. Atualmente, não sou mais galã e nem o público espera me ver mais como galã.
Com quase 40 trabalhos no currículo, você ainda se sente motivado a fazer novelas?
Mas é claro que sim! Só que novela já é outro processo. Pela própria característica da produção, você nem sempre dispõe de tempo para aprimorar o trabalho. Isso sem falar que novela é uma obra aberta. Ao contrário da minissérie, novela tem apenas uma linha mestra para ser seguida pelo autor. Ele só sabe que tem de chegar ao final, mas não sabe exatamente o que fazer para chegar lá. No decorrer dos capítulos, a trajetória dos personagens muda um pouco. Mas isso também é estimulante. Afinal, você tem de trabalhar o personagem enquanto ele está vivo. É bacana traçar o passado do personagem e imaginar como ele se comportará diante dos acontecimentos futuros.

mockup