As luzes se apagam. O girasonhos - instrumento de percussão feito com tubo de PVC - começa a girar, produzindo um som quase mágico. Uma voz mansa vai invocando as histórias infantis: ‘‘fechem os olhos, tirem toda inquietação da mente e deixem espaço apenas para os sonhos’’. Está instalada a fantasia, o espetáculo começa: Era uma vez... É com este ritual que o grupo paulista Girasonhos inicia seus espetáculos.
Seu precursor é Giba Pedrosa, um paulista de 35 anos que se descobriu contador de histórias, há 10 anos. Desde que se conhece por gente é um devorador de literatura infantil. ‘‘Eu achava que isto era um problema. Afinal, eu sou um homem adulto, tenho que ler outras coisas. Mal sabia que estava aí minha vocação’’, conta.
Giba Pedrosa estará em Londrina de hoje até sábado promovendo a oficina ‘‘Tecendo o Invisível’’, que irá abordar diversos temas sobre o contar histórias. O curso é voltado para educadores e faz parte da programação da Festa do Livro realizada pelo Sesc Aeroporto.
Foi por acaso que o paulista formado em Letras pela PUC de São Paulo percebeu que adorava contar e inventar histórias. Ele ensinava teatro para crianças e um dia, ao chegar para dar aulas, encontrou seus alunos intrigados. Uma professora havia morrido e a direção da escola disse às crianças que ela havia viajado.
Elas perguntaram a Giba - que não gosta de ser chamado de tio - o que de fato tinha acontecido. ‘‘Ela morreu’’, contou. Foi uma chuva de perguntas sobre a morte. ‘‘Como tratar de um assunto sério, que é difícil de ser abordado até com adultos?’’, questionou. ‘‘Comecei a inventar uma história, percebi a força que ela tinha e isto foi me absorvendo.’’
Desde então não parou mais. Há três anos e meio juntaram-se a ele Léo Dockdorczyk e Fernando Goutijo e nasceu o Girasonhos. Léo no violão e voz, Fernando na percussão e efeito especial e Giba na pesquisa de histórias infantis de diversas épocas e povos.
Este trabalho também exige um certo ritual. ‘‘Quando fui pesquisar sobre a mitologia grega, fiquei duas semanas trancado em um sítio, lendo os livros sobre assunto e bebendo vinho para invocar o deus Baco’’, brinca. Para entrar em contato com as histórias dos povos, Giba vai aos consulados de diversos países em São Paulo.
Hoje, o repertório do Girasonhos conta com 180 histórias das mais diversas épocas e povos, mais 30 de autoria de Giba. ‘‘Algumas eu criei junto com crianças, como O Namoro da Pipoca Sílvia’’, conta. ‘‘Eu estava comendo pipoca com uma garotinha e uma caiu do saquinho. Ela falou: - Ih! A pipoca vai fugir. A partir daí criei o enredo: a pipoca fugia para namorar.’’
O público do Girasonhos não se restringe às crianças; inclui também adolescentes e adultos. O grupo costuma levar seu trabalho a bares paulistanos, em plena madrugada. ‘‘O grande barato é que as mesmas histórias que nós contamos para crianças, contamos nos bares’’, afirma.
Os adultos, segundo Giba, são pegos de surpresa e demoram para se entregar. ‘‘Já as crianças têm uma relação corporal com a história’’, compara. ‘‘Mas, aos poucos, os adultos vão se entregando. Quando a gente menos espera eles estão imitando galinha com o grupo. E todo mundo vira criança outra vez.’’
A natureza também atrai Giba e seu grupo. ‘‘Quando percebemos que vai haver um belo pôr-do-sol vamos para Boiçucanga, perto de São Sebastião, para fazer uma roda de história. Uma vez, mais de 200 pessoas pararam para ouvir nossas histórias. Era tanta gente que veio até polícia para ver o que estava acontecendo.’’
O grupo trabalha também com escolas, onde são feitos espetáculos voltados para alunos da pré-escola à universidade. O grupo já realizou três: um sobre histórias da mitologia grega, outro sobre histórias primitivas da tradição indígena e outro sobre contos franceses e Monteiro Lobato.
Os projetos são inúmeros. Contar histórias deu tão certo que hoje o Girasonhos trabalha sob encomenda e está gravando um CD para ser lançado em novembro, com diversos textos, inclusive com músicas de cantores como Itamar Assumpção e Caetano Veloso, e citações de escritores como William Shakespeare.
O próximo espetáculo está sendo preparado a pedido do Sesc Pompéia, sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Pode parecer brincadeira, mas contar histórias é coisa muito séria para o Girasonhos: ‘‘As pessoas pensam que contar e ouvir histórias é perda de tempo. Que viver no mundo da lua é coisa de bobo, mas não, é uma das grandes formas de viver a realidade’’, afirma Giba.
Para ele, contar história é uma maneira de redescobrir o lado lúdico que é amortecido no corre- corre do dia-a-dia. ‘‘É uma forma de expressar o aprendizado simbólico da vida’’, complementa. ‘‘Isto ajuda a criança a elaborar sentimentos como medo, prazer, angústia.’’
Segundo Giba, hoje esta prática já é mais comum. A maioria das escolas, pelo menos em São Paulo, já conta com a ‘‘Hora do Conto’’, quando pelo menos por 15 minutos, todo mundo, desde a faxineira até os alunos, param para ler. ‘‘O que falta é esta prática ganhar as ruas, as casas. As pessoas precisam desligar a televisão e conversar, contar histórias.’’
Giba faz a sua parte neste sentido. Ele realiza um trabalho com 20 meninos de rua que participam da oficina de contador de histórias. ‘‘Estes meninos e meninas irão depois atuar nas creches. E irão receber para isto’’, afirma. A oficina, segundo Giba, vai ajudar a pessoa a se vasculhar e a resgatar o contador de histórias que existe dentro dela. ‘‘Contar histórias promove o autoconhecimento’’, afirma.

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