Curitiba - A música popular brasileira exerce um fascínio permanente sobre os músicos. Explica-se, em tese, porque cada vez mais instrumentistas eruditos dedicam parte de seu tempo a esse universo flexível, onde a partitura é um caminho, mas não chega a ser mandamento de vida e morte. O violonista carioca Zé Paulo Becker, de rígida formação clássica, foi mais longe: há sete anos abandonou a carreira clássica para ser músico popular. A troca de gênero não foi tão simples quanto parece. Ele teve que reaprender a ver o instrumento sob outra ótica. ‘‘Foi muito difícil’’, confessa.
Zé Paulo está com o primeiro CD solo na praça, ‘‘Lendas Brasileiras’’, lançado pela Kuarup. Pelo mesmo selo saiu anteriormente o disco do Trio Madeira, conjunto do qual ele faz parte ao lado de Ronaldo do Bandolim e Marcelo Gonçalves (violão de sete cordas). O músico toca violão de seis cordas.
Atravessar a ponte do clássico ao popular exigiu do artista empenho, dedicação e humildade: ‘‘Tive que ter a humildade de ir nos botecos com o violão nas costas e aprender a tocar as músicas que para os outros eram fáceis, mas que para mim eram difíceis. Houve um período de transição que foi muito duro, mas sinto que até hoje estou nesse período. O aprendizado na música popular é constante, estou querendo sempre mais’’.
Por que, depois de anos de estudos, fazer essa opção? ‘‘Eu me identifico com a música popular brasileira. É o reconhecimento à sua riqueza’’, resume. Tem mais: ‘‘Na formação erudita senti uma grande falta da capacidade de harmonizar, improvisar que não fez parte do meu aprendizado. Para tocar música erudita bem você não precisa saber isso’’.
O aspecto social foi outro elemento a pesar na decisão. Zé Paulo diz que invejava as pessoas que ‘‘eram capazes de sentar em algum lugar e tocar música em comum’’. O encontro de chorões era motivo de frustração. ‘‘Eu não sabia fazer aquilo. Isso é que fui buscar na música popular’’.
Seu maior compromisso com a arte, enfatiza o violonista, esteve sempre ligado ao suingue, ‘‘sem tanta preocupação com a limpeza do som, que é mais característica da obra erudita’’. Apesar disso, os anos de estudos consumidos não desaparecem como passe de mágica. ‘‘É claro, você não pode negar seu passado e sua origem’’, concorda.
Zé Paulo acredita que exista público para MPB instrumental, mas a barreira está na indústria fonográfica que comanda o setor artístico. ‘‘Parece que música é uma coisa e o produto que eles querem ter para vender é outro’’, queixa-se. Saídas para essa realidade existem, porém é preciso imbuir-se de paciência e teimosia.
‘‘A gente vai fazendo trabalho de formiguinha. Eu mesmo lancei dois discos totalmente independentes’’, afirma. O CD do Trio Madeira Brasil chegou à casa de 9 mil unidades vendidas basicamente entre São Paulo e Rio. O consumo ocorre especialmente após a apresentação dos shows do grupo.
A influência mais forte sofrida por Zé Paulo Becker vem do amigo Yamandú Costa, o gaúcho de 21 anos apontado como um gênio das cordas. ‘‘O cara chegou no Rio com uma maneira de tocar que deixou todo mundo se perguntando o que era aquilo. Tudo que era violonista refletiu, ninguém ficou ileso à sua vinda’’, justifica.
Dividindo apartamento no Jardim Botânico com Yamandú Costa, esse tipo de influência na sua música foi ainda mais marcante. ‘‘Ele me motivou a compor’’, afirma o carioca. Também influiu, embora indiretamente, para que o violonista abrisse seu campo de ação e assumisse as apresentações solo, não se restringindo a tocar somente em grupos.
‘‘Passei também a ver o lado da performance, do desprendimento, da maneira de tocar. Tentar sair da forma da música. Acho que Yamandú deu uma grande contribuição no cenário, ele mexeu com a cabeça de todo mundo do Rio. Para mim é um gênio, um cara iluminado na particular maneira de tocar’’, fala sobre o amigo. Juntos, algumas vezes, sobem ao palco – e da excelência dos violões, premiada sai a platéia

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