O Oscar de melhor filme estrangeiro, o Prêmio Especial do Júri de Cannes e mais uma dezena de prêmios internacionais, atribuídos em 89 ao assumido melodrama ‘‘Cinema Paradiso’’ - e por toda parte o sucesso comercial naturalmente agregado - representam hoje uma espécie de maldição na carreira de Giuseppe Tornatore. De lá para cá foram só tropeços junto à crítica e cifras modestas nas bilheterias. Injusto, de modo geral, o trato mais rigoroso dos críticos. ‘‘Estamos Todos Bem’’, de 90, traçava com equilíbrio e acuidade o mapa da terceira idade e o que ela representa para o núcleo familiar. Ignorando o pretensioso equívoco chamado ‘‘Uma Simples Formalidade’’, deslize de 93, chega-se ao quase tratato etno-antropológico ‘‘O Homem das Estrelas’’, realizado em 95, comédia dramática que chega ao coração da Itália através da Sicília.
Pensando várias vezes antes de abraçar qualquer novo projeto, o cineasta decidiu em 98 partir para uma empreitada de arrojo. A um custo orçamentário total de 19 milhões e duzentos mil dólares, o maior da modesta história financeira do cinema italiano, Tornatore foi em busca de uma epopéia singular. Na verdade, uma história inacreditável, nascida da cabeça de um dramaturgo. Antes de ser transformado em grande espetáculo, ‘‘A Lenda do Pianista do Mar’’ (veja a programação de cinema nesta página) era apenas um monólogo teatral intitulado ‘‘Novecento’’, escrito por um certo Alessandro Baricco. Vendo o filme, é possível compreender porque Tornatore se sentiu atraído e tocado pelo lirismo que brota de um inapatado social, um gênio que vive em reclusão dentro de um navio entre dois continentes sem nunca tocar a terra.
Para interpretar o personagem ‘‘1900’’, foi escalado alguém também meio errante, o inglês Tim Roth. O ator de ‘‘Cães de Aluguel’’ confere ao personagem-pianista um tom quase angelical, quando não surrealista, acentuado por um olhar vago e uma emoção sempre contida. Há alguns ótimos momentos, como o esplêndido duelo entre o rei do jazz e a performance do pianista.
O que fica um pouco difícil de compreender são os motivos que levaram Tornatore a ralentar o curso da ação, abusando de idas e vindas entre a reclusa vida de ‘‘1900’’ no oceano e as erraticas andanças em terra do amigo e trumpetista favorito. E fazendo justiça a sua pouco defensável marca registrada, o cineasta de novo carrega a mão nas lágrimas do epílogo. Mas nada tão comprometedor que retire a validade desta poema musical trans-oceânico.

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