Episódios de 'Ao Sul da Paisagem', de Paschoal Samora, são destaque no festival
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sábado, 08 de abril de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 09 (AE) - O conceito de paisagem pressupõe subjetividade. Essa foi a conclusão a que chegou um grupo formado na USP no ano passado para estudar o tema. Coordenado pelo professor Hans Dieter, a análise também concluiu que a presença da paisagem depende do olhar. Mas para cada olhar existem pessoas diferentes, com interpretações diversas. A profundidade do estudo inspirou o cineasta Paschoal Samora, da Grifa Cinematográfica, a produzir, dois meses depois, a série de documentários "Ao Sul da Paisagem". Um dos episódios, "Paisagem e Memória", participa da mostra competitiva do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. O filme será exibido no sábado, às 21 horas, no Itaú Cultural.
"Achei curioso que alguém se dedicasse a estudar esse tema", conta Samora, que vai produzir uma série de seis episódios. Três já estão prontos: "A Paisagem e o Sagrado", "Paisagem e Memória" e "Caminhos da Paisagem". Os três filmes foram realizados no Sul do País. Cada um deles mostra a relação dos personagens com o local onde vivem. Paisagens completamente distintas, interpretadas por olhares diferentes. "Traçamos uma rota meio aleatória; escolhemos as pessoas que aparecem quando chegamos ao local e deixamos fluir", explica Samora.
Apesar de a paisagem ser o ponto de interseção, cada episódio revela singularidades que tornam os filmes independentes. "A Paisagem e o Sagrado" foi rodado no Paraná, na região fronteiriça com Argentina e Paraguai, onde ficam as ruínas da missão da Santissima Trindad del Paraná. O foco do filme são os índios guaranis, que hoje sofrem para manter as divisas do pequeno território que restou depois da chegada dos colonos.
O primeiro episódio transita entre o mitológico e o documental, partindo do relato de Teodoro Tupã, descendente de índios que luta para manter acesa a chama da cultura guarani. A narrativa parte da origem do mundo na versão dos guaranis. O texto foi baseado no relato do cacique Terena, que vivia às margens de um rio da região. "Ele dizia que tudo surgiu da grande água", conta Samora. "O Teodoro Tupã é um guerreiro que resgata o que foi perdido nestes 200, 300 anos de barbárie". Reflexão - "A Paisagem e o Sagrado" é, segundo o diretor, um filme "assumidamente dos índios", narrado metade em guarani, metade em português. "Tomei essa decisão porque algumas coisas só podem ser ditas em guarani", argumenta Samora. O filme também usa imagens de arquivos mostrando antigas expedições arqueológicas na região do Iguaçu e fotos da construção da Represa de Itaipu. Apesar de a realização do filme coincidir com o aniversário dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, Samora garante que a produção nada tem de comemorativa.
"Para falar a verdade, tenho um certa indignação com isso", reclama o diretor. "O cacique Terena disse que não deveríamos comemorar os 500 anos de descobrimento, mas 500 anos de invasão; é algo para ser refletido". Na segunda parte do documentário, "Paisagem e Memória", ocorre uma radical mudança de conceito. Agora, o que predomina é a poesia. A subjetividade ganha mais força. Filmado no Farol da Solidão e na Lagoa do Peixe, localizados em Mostardas, localidade isolada do litoral do Rio Grande do Sul, o episódio volta a apresentar uma característica que se está tornando marcante no trabalho de Samora: a força dos personagens.
Desta vez, eles são três: Pedro Júlio de Souza, José Américo Roig e João José da Silva, conhecido como João Coragem. Cada um deles vivendo em três desertos diferentes: o da areia, o do mar e o da cegueira. Pedro vive com a mulher e os dois filhos numa pequena casa de madeira erguida no Farol da Solidão, situado no meio das dunas móveis. Ele chegou há 50 anos ao local e nunca mais saiu. Desde então, convive com o vento forte e constante, que o obriga a mudar-se toda vez que a areia começa a invadir a casa. Ele reclama da solidão, mas resigna-se. "Não quero ir para a cidade, estou acostumado com a solidão", diz Pedro. "O conceito de solidão não é um estado, mas o local em que se vive", observa ele, sorrindo.
"O filme mostra o fator da imobilidade", explica Samora. A câmera entra na casa de Pedro e mostra a paisagem inóspita vista pela janela. Na memória, um tempo com menos areia
mais verde, pescaria farta. Mas ele ainda alimenta esperanças: "Aqui, com o tempo, vai ficar bom de novo, vai ficar gramado, campestre". Sentado num banquinho, violão em punho, Pedro versa: "Quem vive no Farol da Solidão pode se contar feliz, porque mora num deserto, não vê, não ouve e não diz".
O ex-pescador João Coragem vive na Vila da Lagoa do Peixe. Todos os que vivem lá são ou foram pescadores. Chegou com 23 anos e viu muitos amigos partirem, empurrados pela força do vento e pela invasão da areia. Mas ele ficou, honrando o apelido. O mesmo, porém, não ocorreu com sua família. "Nunca achei jeito de sair daqui, então fui ficando; meus filhos que viviam comigo foram embora", lamenta. Sua primeira casa foi praticamente tomada pelas dunas. "Eu já vi o vento arrancar casa, colégio..."
A fisionomia cerrada de João denuncia um passado triste. Ele perdeu o filho no mar e, por isso, nunca mais voltou para lá
apesar de sentir falta. Lembra que antigamente as pessoas entravam no mar, mas muitos não voltavam. "O mar é um troço vivo", diz ele, observando as ondas quebrarem com força na areia. "O João é mais duro com relação à memória", comenta Samora.
O terceiro personagem de "Paisagem e Memória", José Américo, é artista plástico. Ele pinta paisagens de sua cidade, São José do Norte, muitas delas já desaparecidas. As pinturas, que mostram o mar, os pássaros e a arquitetura simples da cidadezinha, são inspiradas na memória de Américo, que sofreu descolamento de retina e quase não enxerga. "A pintura para mim é uma necessidade", diz o artista. "Os seus quadros são uma janela para a memória", define Samora, que mostra a cidade apenas por meio das pinturas de Américo. Fotografia - A terceira parte do filme de Samora é "Caminhos da Paisagem". Foi filmada em Urubici, Santa Catarina, região ocupada por colônias de descendentes de alemães, letonianos e poloneses. O personagem central desta vez é o fotógrafo Orquizo Rei, figura tradicional da cidade. É ele quem dita o ritmo do filme. Munido de sua câmera fotográfica, ele percorre as paisagens que considera mais importantes da região. Paisagens que, por meio de recursos de computação, surgem emolduradas pelas fotografias de Orquizo.
Uma das qualidades da obra de Samora é a força dos personagens. Ela está presente também em "Confidências do Rio das Mortes", seu trabalho anterior, indicado para o prêmio de melhor produção cultural para TV no Grande Prêmio Cinema Brasil, realizado em fevereiro. Um dos méritos de "Ao Sul da Paisagem" é a bela trilha sonora composta por Paulo Tatit e Sandra Peres, acrescentada da poderosa voz da Marlui Miranda (que canta em guarani em A Paisagem e o Sagrado). Destaque também para a direção de fotografia de Hélcio "Alemão" Nagamine.


