"Episódio 1" tem 2 mil efeitos especiais; quatro vezes mais que "Titanic"
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segunda-feira, 21 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 22 (AE) - Quando iniciou a série "Guerra nas Estrelas", com o episódio 4, nos anos 70, George Lucas disse que que queria fazer um filme para garotos, que criasse uma nova mitologia e introduzisse uma moral básica. Seu maior problema foram os efeitos especiais. Simplesmente não havia tecnologia para o tipo de efeito que Lucas queria criar. Foram 363 tipos de efeitos só para aquele filme de 1977, contra 35 para a obra-prima de Stanley Kubrick, "2001, Uma Odisséia no Espaço", nos anos 60. Kubrick fez ficção científica e revolucionou o gênero. Lucas fez um filme que, de científico, tem pouco ou nada. Levou a fantasia à enésima potência.
"Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma" retoma a fantasia e radicaliza os efeitos. São agora 2 mil deles contra 500 de "Titanic" e 300 de "Godzilla". Até por causa disso, virou moda bater em Lucas e no "Episódio 1". A principal crítica que se faz ao filme é que hoje os efeitos estão banalizados, por culpa da saturação provocada pelo próprio Lucas. Portanto, não se pode mais fazer um filme que é uma parafernália de efeitos com um mínimo de história. Talvez seja injusto. "Star Wars: Episódio 1" não é eletrizante como "Guerra nas Estrelas". Mas não é porque Lucas não quis que fosse - e não porque ele fracassou.
O filme recicla muita coisa da primeira (na verdade, segunda) trilogia. Claro, pois se trata de um filme que se encaixa num projeto mais amplo. Sua narrativa é mais cool, o que pode decepcionar quem espera um tobogã de emoções. Mas não falta adrenalina. A corrida no deserto é a melhor do cinema desde a célebre corrida de bigas de "Ben-Hur", agora transferida para o espaço. O décor da cidade submersa é magnífico. Só mesmo de muito mau humor para não se divertir com "Star Wars: Episódio 1".
Uma das questões que o filme coloca é: o cinema do fim do milênio está ficando cada vez mais virtual? Um filme como "Matrix", dos irmãos Warchawskis, retira seu interesse e até sua originalidade do fato de construir no computador um mundo que só existe na memória/imaginação dos personagens. "Star Wars: Episódio 1" não vai tão longe, mas também carrega nos efeitos. A imagem é digitalizada.
A espada a laser com que os heróis Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi enfrentam o vilão ainda é um desafio para a ciência. É um truque magistral que a ciência não sabe, ou não consegue, explicar racionalmente. Jar Jar, o alienígena anfíbio e orelhudo que é responsável por boa parte das tiradas de humor (e que, neste sentido, assemelha-se ao Chewbaca da segunda trilogia), teve o seu arcabouço feito com um ator vestido à fantasia, mas sobre essas imagens foram superpostas outras, computadorizadas, que deram ao personagem sua feição definitiva.
Por causa disso, não é errado dizer que Jar Jar só existe no computador. A legião de soldados da federação também só existe no computador. E Lucas finalmente pôde fazer com os recursos necessários a digitalização de Jabba, o Hutt, personagem que já aparecia na segunda trilogia.
Um ponto "Matrix" e "Star Wars: Episódio 1 têm em comum: ambos são paráfrases bíblicas. "Matrix" virtualiza a saga de Jesus Cristo, contando a história de um Eleito. "Star Wars: Episódio 1" recua 30 anos no tempo para contar a história do jovem Obi-Wan Kenobi (interpretado por Ewan McGregor, era criado por Alec Guinness na outra trilogia), mas o personagem principal deste primeiro episódio da saga é o garoto Anakin Skywalker, que vai se transformar em Darth Vader. Ele é o jesuscristinho de Lucas.
Aos críticos que reclamam que ele não surge como uma encarnação demoníaca do mal, uma peste desde o berço, como os vilões da mitologia, cabe lembrar que, em toda a outra trilogia, Darth Vader foi sempre citado como o homem bom, o idealista atraído pelo lado sombrio da Força. Lucas acha que só poderá fazer o episódio 2 se o 1 render, no mínimo, US$ 550 milhões nas bilheterias. Os efeitos especiais consomem cada vez mais dinheiro. Os de "Episódio 1" consumiram quase a metade dos US$ 115 milhões de orçamento do filme. Por causa deles, cada segundo do filme custou em torno de US$ 13 mil.


