ENTREVISTA/SIDNEY MAGAL 'Antes, as pessoas iam ao meu show para tirar sarro'
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sábado, 18 de agosto de 2007
Thiago Nassif<br> Reportagem Local 
A década era 1970. O figurino, cigano, com botas altas e cabeleira vasta. Figurinha certa em programas populares como Chacrinha e Clube do Bolinha, Sidney Magal, cultiva, desde aquela época, a pecha de cantor brega, com figurinos mais que exagerados e coreografias idem. Como diriam os mais próximos: se Ricky Martin conquistou a América em 1999, no rebolado, por que não poderia o veterano Magal manter sua hegemonia em domínios tupiniquins?
Sobrevivente de uma geração que revelou, entre outros, a pílula de Odair José, a conga de Gretchen hoje, também, consagrada no universo do pornô entre outros representantes máximos do dito gênero brega, Magal sabe, como poucos, se manter em evidência. Seja no cinema, na TV ou no teatro, afora os palcos.
Em entrevista à FOLHA 2, o cantor, que esteve em Londrina na última semana para se apresentar em uma boate, fala de carreira, projetos paralelos e do atual momento no mercado fonográfico. Tudo, claro, sem perder o rebolado.
Passaram-se três décadas desde sua ascensão ao mercado musical brasileiro. A quais fatores você atribui sua permanência no mercado hoje?
Costumo dizer que essas coisas a gente não explica e sim recebe e agradece, pois, num País como o nosso, em que a partir dos 40, 50 anos é difícil permanecer no mercado, considero-me um privilegiado. Já se passaram 30 anos desde que estourei e, à época, consegui conquistar um público infantil muito grande. Hoje, os formadores de opinião são aqueles que foram fãs de Sidney Magal na infância. Isso me trouxe para os anos 2000 sem que eu percebesse. Hoje mesmo vi a Siri, do Big Brother Brasil (BBB), tentando aproveitar seus últimos minutos de fama, como apresentadora/entrevistadora, foi hilário! Sempre fiz de tudo para estar presente, mas com consciência.
Isso foi fundamental?
Foi e é. Quando a carreira não estava muito bem, eu fiz novela na TV Manchete (Ana Raio & Zé Trovão), musicais, fiz Roque Santeiro no teatro e me dei bem, graças a Deus, fiz cinema nacional de qualidade, em Caminho das Nuvens. Tudo isso para não deixar minha imagem cair, até porque eu sabia que minha música não estava sendo executada, mas que minha imagem tinha que ser preservada para que eu desse continuidade. O mercado é isso. Me chama que eu vou (risos).
Em 1996 você gravou um álbum em Los Angeles, com orquestra e músicos americanos. Hoje, a música Nada Além, gravada naquela época, está na abertura da novela Eterna Magia. É fácil para o Sidney Magal fazer projetos paralelos?
Anos antes do meu primeiro sucesso, eu cantava na noite. Então, eu tinha um repertório vastíssimo, que transitava do bolero à salsa. Até ópera eu cantava. Então, sempre tive facilidade. É lógico que sempre há uma resistência, as pessoas não conseguem imaginar o Magal calmo. É complicado. Em 1980 eu cortei o cabelo e cantei o gênero romântico. As pessoas não aceitaram. Agora, acho, é hora de olhar para o projeto de 1996 e fazer um DVD maravilhoso com big band, à la Rod Stewart, para que a gente possa ter a Música Popular Brasileira (MPB) enaltecida com arranjos novos.
Mas há algum projeto em andamento?
Não sou muito fã de projetos, até porque costumo dizer que, se caso fosse, seria engenheiro. Às vezes penso em algo, mas acabo retardando porque insistem em determinadas coisas. No meu segundo DVD, quem sabe. No primeiro, tive que, até para ter como registro, priorizar as clássicas como Amante Latino e Sandra Rosa Madalena, que não poderiam ficar de fora. O público se sentiria traído.
Já pensou em fugir de Sandra Rosa?
Pois é, essa música (Sandra Rosa) é tão marcante que já quis fazer algo para fugir dela, mas as pessoas ficam esperando que você faça uma segunda Sandra Rosa Madalena. Se eu fosse um artista de cinema, seria mais fácil, porque aí me inspiraria em Missão Impossível 1, 2, 3. Tenho três músicas inéditas gravadas, que ainda tenho que mostrar à gravadora. Isso vai depender de como o mercado se apresentar.
Aliás, como você avalia o mercado, atualmente?
O mercado não é bom para ninguém hoje. A pirataria está aí, as gravadoras não investem, as rádios cobram muito para executar as músicas e a gente tem que correr atrás do prejuízo. Com tudo isso, é complicado. Temos que contar com a paixão do público.
O Sidney Magal se encaixa em que estilo atualmente?
Independente do rótulo, acredito que faço o sábado e domingo do brasileiro, a diversão. Então, me encaixar em um estilo é muito relativo. Fui, por anos e anos elogiado por uma carreira extraordinária, porém tida como muito brega, porque havia um preconceito social muito grande. Aquilo que agradava à empregada doméstica não podia agradar ao patrão. Hoje, graças a Deus, as pessoas assistem aos meus shows para se divertir, sem preconceito. Antes, as pessoas iam ao meu show para tirar sarro, para debochar. Nunca me preocupei com rótulos. Nunca esperei que o público me considerasse um artista que provocasse mudanças sociais.
Recentemente, uma fã sua, ao te encontrar, declarou ter tido um orgasmo. Como lida com este tipo de assédio?
Lido muito bem. É muito emocionante, cada um põe para fora, literalmente, aquilo que está sentindo. Já me jogaram calcinhas, jóias como corrente, relógio e anel de ouro. Depois foram as bijuterias e, hoje em dia, não jogam mais nada. Não foi o Magal que mudou, e sim a condição do povo. Quanto à cena da fã, fiquei muito honrado, minha mulher estava presente, amigas estavam presentes e eu fiquei totalmente sem ação. Me senti como aquele vizinho que vai visitar um amigo e, de repente, o cachorrinho monta em sua perna e você fica disfarçando. (risos).
Há dez anos você reside em Salvador. Cansou do Rio de Janeiro?
Sou carioca, para mim o Rio de Janeiro continua sendo a cidade mais bonita do mundo, mas, infelizmente, a vida por aqueles lados ficou muito tumultuada para o meu gosto. À época, como meus filhos estavam entrando na adolescência, quis mostrar a eles um Brasil mais simples, de mais natureza, de viver intensamente, ao contrário do Rio de Janeiro, que passou a ser uma cidade muito violenta.
Por falar em família, você tem três filhos. Identificou, na prole, alguém com a veia artística?
Minha filha mais velha tem uma voz lindíssima e é afinadíssima.
Podemos esperá-la em breve nos palcos, então?
Sempre a deixei bastante à vontade. Eu acho que não. Ela não tem paciência e nem espírito para ser fotografada a qualquer hora, e, para ser artista, na minha concepção, você precisa estar aberto ao público e à ânsia dos fãs.
Em Salvador, consegue ter uma vida normal?
As celebridades brasileiras são bem diferentes das americanas. Lá, quando elas se endeusam, a vida delas muda e elas acabam se deformando. Nós, latinos, temos a capacidade de sermos grandes estrelas e termos uma vida comum, também. Este é o equilíbrio ideal. Gosto de Salvador porque vou da barraca de praia ao shopping sem abrir mão de minha vida.


