Entrevistas de Borges
O poeta, ensaísta e tradutor Floriano Martins realizou um verdadeiro garimpo para reunir em dois volumes uma série de entrevistas de Jorge Luis Borges que encontravam-se dispersas em jornais e revistas latino-americanas, publicadas entre 1964 e 1985. O trabalho resultou em "Memória de Borges um livro de entrevistas", que traz a essência do pensamento de Borges revelado a interlocutores como Alejandra Pizarnik poeta luminar e Ivonne A. Bordelois que abrem o primeiro volume, passando depois por María Ester Vásquez e Maria Esther Gillio, responsáveis por duas das melhores conversas com o escritor argentino.
Entre a ideia de selecionar as entrevistas e organizá-las até a efetiva publicação do livro, Floriano teve que esperar uma década. Faltava uma editora que assumisse o risco de enfrentar um eventual problema relacionado a direitos autorais, embora se saiba que as entrevistas concedidas à imprensa não se incluem nesta obrigação jurídica, o que não elimina totalmente os riscos de um embargo da obra.
Em 2013, "Memórias de Borges" finalmente encontrou uma editora. A publicação coube à Nephelibata e resultou em dois volumes inéditos já que as entrevistas nunca haviam sido traduzidas para o português, com exceção da última, que encerra o segundo volume.
Uma das qualidades da publicação da Nephelibata é trazer uma seleção primorosa. Ao fim, o que se tem é um mosaico das ideias de Borges que revelam rigor e, ao mesmo tempo, uma incrível modéstia para falar da sua própria criação. Seu brilho ultrapassa a fulguração dos egos que costumam figurar na literatura para revelar atrás do escritor um homem preocupado em ir sempre além do que já havia produzido. A impressão é que para ele tudo o que fazia ainda parecia pouco, reflexo talvez de seu imenso conhecimento.
O fio que conduz as entrevistas é a memória, suas perguntas são quase sempre tocadas por sentimentos da infância, lembranças de momentos da juventude costuradas a motivações que revelam muitas das suas escolhas. Das entrevistas saltam motivações que dão sentido a uma vida emblemática, a vida de um dos maiores escritores do século 20 que resgata vivências e raízes para justificar opções existenciais e literárias. É curioso observar que o autor de dezenas de obras - entre poesia, contos e ensaios - revela modéstia ao comentar dois de seus melhores livros: "Ficciones" e "El Aleph". Ele diz: "Parece-me que não estão mal, mas é um gênero que me interessa pouco agora."
A última entrevista do livro, "Um homem devorado pela fera", foi dada a Fabian Restivo em 1985, e trata-se da única que já havia sido traduzida no Brasil, publicada pela Folha de S.Paulo em 1986. Dias depois desta entrevista, Borges desapareceria, saindo de cena acompanhado por María Kodama, possivelmente para um tratamento de saúde, até morrer em 14 de junho em Genebra. Nos dias que precederam sua morte nada se sabia acerca de seu destino, dizem que sua secretaria e companheira ergueu uma muralha ao seu redor. Melhor pensar talvez que o autor de Ficciones esgueirou-se por um labirinto, como num de seus poemas: "Não haverá nunca uma porta. Estás dentro/ E o alcácer abarca o universo/ E não tem nem anverso nem reverso/ Nem externo muro nem secreto centro./ Não esperes que o rigor de teu caminho/ Que teimosamente se bifurca em outro,/ Que obstinadamente se bifurca em outro,/Tenha fim. É de ferro teu destino (O Labirinto/ Jorge Luís Borges em Elogio da Sombra, tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques).
SERVIÇO
"Memórias de Borges um livro de entrevistas", volumes I e II
Organização,tradução,prólogo e notas - Floriano Martins
Editora - Nephelibata, 2013
Pedidos pelo e-mail - [email protected].
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





