ENTREVISTA/MÚSICA - SENHOR COMPOSITOR
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de janeiro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A história da música brasileira obrigatoriamente precisa citar um nome: Paulo César Pinheiro. Aos 58 anos ele já compôs quase duas mil músicas, metade desse repertório foi gravada pelos maiores intérpretes nacionais. Elis Regina gravou, Chico Buarque gravou, Nana Caymmi gravou, Bethânia acabou de gravar e Clara Nunes, a primeira mulher do compositor, também. Só alguns exemplos. Portanto, não há como falar de música sem falar nele que ''fez um passeio de ponta a ponta pela música do século 20'', como disse à Folha2. E a história não se limita ao passado e Pinheiro continua escrevendo sua trajetória. Depois de conquistar um lugar de destaque na composição musical, está se lançando - com igual sucesso - em outras áreas. Teatro e cinema são algumas.
Ele escreveu o roteiro do espetáculo ''Besouro Cordão de Ouro'', musical dirigido por João das Neves e que estreou - com direito ótimas críticas e público numeroso - no ano passado. Agora estuda gravar as músicas em CD e levar a história, que fala de um personagem do folclore baiano, ao cinema. Para isso já conversou com o amigo Ruy Guerra. E o projeto já está delineado. Após o Carnaval, os dois se encontram para traçar as primeiras estratégias da empreeitada.
O compositor também guarda da manga cinco novos livros de poemas (já publicou quatro) e um de sonetos. Reclama apenas da falta de receptividade que a poesia tem no Brasil. ''Me disseram que a poesia é um gênero muito nobre, mas acho que trocaram uma letra. A poesia, na verdade é pobre'', brinca Pinheiro. Enquanto aguarda uma editora interessada em publicar seus livros, ele não pára de produzir. Esteve em Curitiba na última sexta-feira, quando fez um show em homenagem aos 11 anos do programa de rádio Samba de Bamba, do jornalista Rodrigo Browne. Na sua passagem pela cidade, falou à Folha2 sobre música, parceiros e futuro. A seguir os principais trechos da entrevista que ele concedeu.
Vamos falar um pouco dessa ''viagem'' musical que te levou a compôr a sua primeira música e que te trouxe até aqui. Você começou a compor muito jovem... Fale um pouco sobre essa experiência...
''Viagem'' foi a primeira música profissional que eu compus. Eu tinha entre 14 e 15 anos. Com 13 eu comecei a escrever e a fazer música, mas com essa idade, o começo é tudo muito infantil, muito rascunhável. Eu só me considerei um compositor a partir dessa música, o que de qualquer forma foi muito cedo. E foi uma música que foi gravada inúmeras vezes, tanto no Brasil quanto fora e que me apresentou às pessoas do meio musical. Mas naquela época eu não pensava em compor. Isso foi por acaso. Foi a primeira luz que se acendeu e que eu não sei bem como foi. Eu só sei que senti uma coisa diferente em mim. Tanto mentalmente quanto espiritualmente e mexeu com o físico também. Eu sabia que era alguma coisa diferente, mas eu era muito menino... e foi uma experiência assustadora...
E como aconteceu sua formação musical?
Na época o que a gente tinha como referência era a rádio. Os discos eram produtos de luxo e quem tinha uma rádiovitrola era quem tinha grana, então a nossa formação era através do rádio, cujo repertório era vasto. As rádios tinham orquestras tocando ao vivo com arranjos de gente fantástica como Radamés Gnatalli, que foi o mestre de quase todos os compositores que estão aí ainda. Essa foi minha formação... e eu ouvia de tudo... Todas as tendências existiam naquela época. Não era como hoje que você muda de estação e parece que está na mesma. É tudo pasteurizado. Além disso, naquela época estudava-se música na escola. Minha primeira base musical foi aos 4, 5 anos estudando pauta de música no jardim de infância. Essa foi a minha primeira base musical o resto foi intuição e até hoje é, mesmo quando eu componho música.
E já são quase mil composições gravadas. Dá para contar a história da música brasileira com suas letras...
Gravadas são quase mil. Compostas já passaram de 1,5 mil. Aliás eu estou pensando, por sugestões de amigos e parceiros, em fazer uma festa quando for feita a milésima gravação, porque isso aconteceu naturalmente. Eu nunca participei de esquema nenhum. Existem compositores que até podem ter esse número, mas eram compositores que viviam em esquemas dentro das multinacionais. Que faziam música como operários de fábrica. E as minhas gravações nunca foram asssim. As pessoas sempre me procuram em busca de alguma coisa minha. Eu nunca liguei para ninguém pedindo para que gravassem algo meu.
E nesse tempo todo de carreira, tem algum intérprete de sua preferência?
Meus intérpretes de preferência já morreram. Que foram os que mais me gravaram: Elis Regina, Clara Nunes e Elizeth Cardoso. Dos vivos, tem a Nana Caymmi, a Simone, o grupo MPB 4. Eu já gravei com quase todo mundo e poucos foram os que não me gravaram. Um exemplo é o João Gilberto, que eu gosto muito. Já fiz até musica em homenagem a ele.
Como você avalia o cenário musical hoje? Está mais difícil encontrar bons parceiros profissionais?
Da minha geração talvez eu tenha sido o único que procurou gente nova para fazer parceria. O restante está fazendo sozinho ou com gente do seu tempo. Eu já estou na quinta geração de parceiros. Hoje estou fazendo música com os filhos meus parceiros.
Isso é uma receita?
Não, mas esses meninos mais novos, talentosos e que conhecem o bom caminho da música brasileira me procuram como referência e eu escuto a todos. De vez em quando eu encontro um cuja linguagem é semelhante a minha.
Algum exemplo?
Olha, tem um menino de Itapetininga (SP), que ainda não gravou mas está para fazer um CD só de músicas nossas. Chama-se Breno Luiz. É um grande compositor, um rapaz de vinte e poucos anos. Os filhos do Baden Powell também são meus parceiros e são filhos do parceiro que me lançou, praticamente. Ambos tem menos de 25. Eu já estou na quinta geração porque eu comecei sendo o caçula da minha geração, que é o Dori Caymmi, o Chico Buarque, os Novos Baianos, o Paulinho da Viola. Esse pessoal é da minha geração, mas eu era o mais novo. Agora vou fazer 58 anos, mas praticamente atravessei o século 20, de ponta a ponta, fazendo música com todo mundo.
E isso deixa saudade?
Minha geração foi um momento de grandeza da música brasileira. E acho que foi a última grande geração. Não que as que vieram depois não tivessem sido. As que vieram depois não tiveram espaço para isso. A minha teve e estão todos em atividade e ainda são referência. Por isso que eu acho que teve grande importância. As seguintes foram esmagadas pelo processo que se criou dessa tal globalização e pela pasteurização do som. Essas gerações tiveram menos espaço. Foram gerações tristes e sacaneadas. E continua assim, formando guetos e espaços alternativos.
Por que não houve uma continuidade?
Veio muita gente boa depois. É uma linha de evolução natural da música, mas foi interrompida por outras motivos, um esmagamento cultural de fora para dentro que aconteceu a partir dos anos de chumbo, da ditadura militar. Como se domina um país? Através da sua cultura, da sua língua e da sua moeda. A moeda do Brasil hoje é o dólar, não é o real. A cultura é a americana ou o lixo americano e a língua é o inglês, que está escrito em todas as esquinas. Passamos da colônia portuguesa para a colônia americana. Continuamos a ser colônia, mas ruim, muito pior do que a de antes.


