ENTREVISTA Todo o encanto de Zezé
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sábado, 13 de setembro de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba Se já fosse primavera poderíamos dizer que Curitiba estava florida e em efervescência na semana que acabou ontem. Grandes nomes da nossa música como Leny Andrade (ela é reconhecida no Estados Unidos, onde vive, como a voz brasileira do jazz), Jair Rodrigues, Sandra de Sá, Zé Luiz Mazziotti, Rosa Maria, Virginia Rosa e Zezé Motta passaram por aqui.
O motivo de tanta gente ter vindo se apresentar no palco do Guaíra, na quarta-feira, foi o projeto Re-Favela, uma tentativa inédita da arquiteta Consuelo Cornelsen e da designer Regina Bruni de resgatar, inicialmente, a dignidade e do amor-próprio para os moradores de duas das maiores favelas da Região Metropolitana de Curitiba, a Vila Parolin e a Zumbi dos Palmares.
Em meio ao fervo que foram os bastidores do show, uma artista célebre recebeu a Folha2 para uma entrevista exclusiva. A cantora e atriz Zezé Motta falou sobre seu trabalho ''Divina Saudade'', homenagem à Elizeth Cardoso, um combinado de disco e show que lançou há uns dois anos e meio. Contou que a interpretação de Chica da Silva, no filme de Cacá Diegues, foi um divisor em sua vida e que, anos mais tarde, ao ser chamada para fazer a mãe da personagem, numa novela sobre a história da escrava negra que virou nobre, achou que ficaria com ciúmes da atriz Taís Araújo. Mas não ficou. A seguir os principais trechos da entrevista de Zezé Motta.
Você fez muito sucesso com o trabalho ''Divina Saudade'', uma homenagem a Elizeth Cardoso, você ainda está sentindo a repercussão desse trabalho?
Ainda. Agora menos, mas foi um trabalho de impacto. Viajei por todo Brasil. Não sei como eu não vim ainda a Curitiba com esse show, mas já estou conversando com a Consuelo (Cornelsen) e ela disse que assim que relaxar desse megaevento quer que eu venha para cá.
E como é homenagear uma grande artista como a Elizeth?
É uma emoção, uma coisa incrível. E aconteceu assim: estava fazendo uma novela que ia durar muito pouquinho e pensei ''qual vai ser meu próximo projeto?.'' Um dia olhei na minha estante e vi o livro do Sérgio Cabral sobre a vida dela, chamado ''Elizeth, uma vida'' e decidi homenagear a divina. Deu certo. Foi uma emoção só. Resolvi reler o livro e me impressionei ao ver que tínhamos vários pontos em comum, como signo (as duas são de câncer), o mesmo time de futebol, que é o Flamengo, e até o sabonete. Eu uso o mesmo há mais de 20 anos, o Phebo (risadas).
Vocês chegaram a se conhecer, foram amigas?
Eu tive a oportunidade de conhecê-la um ano antes dela se despedir da gente, em 1990. O Hermínio Bello de Carvalho fez uma homenagem ao Herivelto Martins e me convidou. Foi uma honra participar desse projeto e cantar ''Praça Onze'' com ela. Foi muito emocionante estar ali com meu ídolo. Ela era muito simples e generosa. Foi uma experiência fantástica.
Qual será o próximo projeto?
Eu já estou até com ele encaminhado. Vou fazer clássicos do samba. Vai se chamar ''Na Cadência do Samba'', vou gravar pelo selo MEC. Há uma promessa da Embratel de patrocinar o show para eu poder viajar. O disco talvez saia até o final do ano. O show só em 2004. E estou fazendo uma peça que deve vir a Curitiba com ela. É uma comédia de costume do José de Carvalho, com direção do Gracindo Júnior, chamada ''Disse que me Disse''.
Não sei se você já refletiu sobre os 27 anos do filme Chica da Silva. Como foi esse tempo de lá para cá? Quais mudanças o personagem provocou em sua vida?
(Gargalhadas) Chica da Silva foi um marco na minha vida. Posso dividí-la em antes e depois do filme. Eu tinha 30 anos quando filmei. Minha vida mudou. Conhecia três países antes e com ela eu já conheço 16. Em alguns lugares eu fui porque descobriram que a Chica cantava. Mudou tudo. Nessa época eu morava em comunidade. Não tinha dinheiro para pagar o aluguel sozinha. Depois eu ganhei todos os prêmios que existem para cinema, inclusive fora do Brasil. Agora, a ficha só caiu, quando um dia eu estava em Cabo Verde e o Walter Avancini (diretor de novelas) me ligou e disse: ''você topa fazer a mãe da Chica da Silva?''. E eu falei ''como é que é ?''( mais gargalhadas). Caramba! Eu agora eu vou ser mãe dela! E disse: ''vou pensar''. Pensei e no dia seguinte vi que era uma homenagem e que bom que estava viva e podia dar continuidade a esse personagem. Quando comecei o trabalho, pensei com meus botões: ''eu acho que quando a Chica da Silva virar rainha do tijuco na novela eu vou morrer de ciúmes''. Que nada! Eu me envolvi de cara com a Taís Araújo (protagonista na novela Chica da Silva da Rede Manchete). Sou canceriana, mãezona e assumi o papel dentro e fora do set.


