ENTREVISTA TALENTO PREMIADO
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sábado, 22 de abril de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Depois de mergulhar no universo da intolerância racial, no espetáculo ''A Caminho de Casa'' (2004) escrito em parceria com o dramaturgo londrinense Maurício Arruda Mendonça , o diretor de teatro Paulo de Moraes salta para o mundo profano de Nelson Rodrigues (1912-1980), no clássico ''Toda Nudez Será Castigada''. Mais uma vez o sucesso permeou a trajetória da Armazém Companhia de Teatro, hoje radicada no Rio de Janeiro, mas que surgiu há 20 anos em Londrina, quando era chamada de Companhia Bombom de Teatro. Na semana passada, Paulo de Moraes, 41 anos, recebeu o prêmio de melhor diretor, no 18º Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro, realizado no Estrela da Lapa, que também conferiu o troféu de iluminação para Maneco Quinderé. A peça concorria ainda nas categorias de melhor atriz (Patrícia Selonk) e cenário (Paulo de Moraes e Carla Berri).
Perfeccionista, Moraes gosta também de ousar na parte cenográfica fundamental para ele na criação de ''um mundo paralelo''. Para ''Toda Nudez...'' criou uma imensa caixa de acrílico por onde as memórias da personagem principal vão ganhando vida nos 11 atores que dividem o palco.
Nascido em Cornélio Procópio, aos 16 anos Paulo de Moraes veio estudar em Londrina. Pouco mais tarde, ingressou no Grupo Delta de Teatro, sob direção de José Antônio Teodoro, a quem Moraes homenageia em ''Toda Nudez...''. Na época, a peça também foi encenada e Moraes fez um papel pequeno.
Para a comemoração dos 20 anos do grupo, no ano que vem, Paulo de Moraes faz certo mistério, mas adiantou que será elaborado um texto baseado em um escritor latino-americano (não brasileiro). ''Toda Nudez...'' será apresentada no Festival Internacional de Londrina (Filo), que começa em junho. A seguir os principais trechos da entrevista que Paulo de Moares concedeu à Folha2.
Que tal receber o Prêmio Shell?
Cara, a expectativa você sempre tem quando está indicado...Eu já tinha sido indicado em três versões anteriores do prêmio e não tinha levado, então tinha uma expectiva grande. Mas a gente nunca sabe o que passa pela cabeça das pessoas.
E qual foi a primeira sensação ao ver esse sonho concretizado?
O que eu sinto mais é essa questão do reconhecimento de um trabalho, principalmente de um trabalho como o do Armazém. É um trabalho de grupo, nós somos uma companhia, estamos juntos há muito tempo, sempre tomamos as decisões juntos, inclusive a decisão de sair de Londrina e vir para o Rio de Janeiro (há oito anos). É bacana perceber que essas coisas encontraram eco, que encontramos um lugar que é a nossa casa e que isso repercute tanto no público quanto na classe e na crítica.
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''Toda Nudez...'' será apresentada este ano no Filo (Festival Internacional de Londrina)?
Tivemos um contato e parece que está tudo certo.
®MDBO¯®MDNM¯É uma sensação especial quando se apresentam em Londrina, onde o trabalho de vocês se iniciou?
Para mim é sim porque todo o meu aprendizado de teatro foi aí. Comecei a fazer teatro na universidade, depois entrei no Grupo Delta. Viajamos muito e, a partir disso, pude ter contato com pessoas muito diferentes, com várias formas de fazer teatro, e tem também o Filo, que para todo mundo de Londrina foi uma escola muito grande. Pudemos ver coisas muito importantes que não teríamos como ver se não fosse o festival. As condições que a cidade deu formaram meu pensamento, a minha forma de trabalhar. Então, poder apresentar aí de novo, para mim é sempre muito excitante. Eu fico nervoso, mas é bacana.
É comum o Armazém trabalhar com textos próprios. Como é trabalhar com textos clássicos, como o de Nelson Rodrigues?
Tem momentos em que é importante poder voltar a um texto já estruturado. O projeto anterior do grupo, ''A Caminho de Casa'', foi um processo muito longo, de quase um ano. Era um tema muito ''espinhoso'', falava sobre preconceito religioso e construímos a estrutura toda. Quando saiu o projeto de ''Toda Nudez...'' (a convite do Centro Cultural do Banco do Brasil), queríamos fazer um processo que não tivesse que se preocupar com o texto. Teria que ser um texto desafiador para mim e para os atores. ''Toda Nudez...'', na minha opinião, era o ideal nesse sentido, porque tem personagens extremamente fascinantes e a estrutura dramática. Assim como foi preciso quando montamos ''Esperando Godot'' (de Samuel Beckett). Às vezes há um texto pronto que se adequa melhor ao que você quer dizer e a forma como você quer trabalhar.
Como é sair de um texto, no caso de ''A Caminho de Casa'', que trata da intolerância religiosa, e ir para um clássico rodrigueano que aborda questões sobre a sexualidade?
Tudo faz parte do trabalho de evolução do ator e para mim a questão inicial em ''Toda Nudez...'' é a hipocrisia, não é a questão da sexualidade. É a hipocrisia na vida, no amor, na sociedade...O texto fala muito sobre isso, é extremamente determinante. E como é muito bem escrito, dá a possibilidade de uma leitura cênica, que consegue trazer à tona esse tema de uma forma muito forte, muito bacana.
Qual a característica do Armazém que ficou mais evidente nesse trabalho?
Não acho que isso seja uma coisa tão rápida e fácil de se definir. Há algumas questões no trabalho da gente, relacionadas ao ator como foco central da ação. Mas, ao mesmo tempo, tem sempre um cenário muito elaborado, mas que eu acredito que nunca toma o foco do ator, enfim, nunca diminui a importância do ator. Mas existem as duas coisas: o ator dominando a palavra, a ação, e o espaço cênico que dá essa possibilidade da criação de um mundo paralelo. Para mim é importante que o que aconteça no palco seja um mundo paralelo. Não gosto de realismo, não me interesso por isso. A minha idéia com o teatro é sempre criar um mundo à parte. Por isso o espaço para mim é tão importante.
No ano que vem o Armazém vai comemorar 20 anos. O que estão preparando para essa data?
A partir da metade do ano vamos começar a escrita de um texto, em cima de um autor latino-americano, não brasileiro, mas não posso falar o nome ainda. E vai haver a parceria com o Maurício Arruda Mendonça também.
Depois de receber um prêmio tão prestigiado, como você se auto-avalia como diretor. Eu conheço algumas pessoas que tiveram a oportunidade de trabalhar com você e comentaram da sua rigidez e disciplina no trabalho do ator...
Como me auto-avalio...Essa questão do rígido, essa palavra pode ser usada de diversas maneiras...Essa rigidez pode parecer uma coisa simplesmente tosca, um cara bravo, ou um cara que gosta de disciplina no trabalho, que se interessa pela perfeição do movimento, da palavra. Dependendo da definição que você pega, você vai achar isso bacana ou não. Se for uma questão de ser bravo, eu não me considero assim. Mas sou perfeccionista, acho que persigo a perfeição do movimento, do ator, da luz. Se é isso ser rígido, sou rígido e vou continuar rígido. Agora, para mim, o ator é um parceiro, não tenho problema com os atores. Talvez eu tenha tido problemas com pessoas que não sabiam se queriam ser atores de verdade, que estavam num momento inicial ainda. Mas com os atores que querem construir uma história artística relevante não tive problema não.
E quando você pára para pensar no caminho que já trilhou até aqui, se sente satisfeito?
Ah! Tenho que estar, né? (risos)...Seria muito pedantismo da minha parte se não estivesse satisfeito. Mas espero que a gente conquiste mais coisas, não só em relação a prêmios. Queremos conquistar uma carreira internacional, um público maior ainda no Brasil, em outros lugares, como em algumas cidades que já conquistamos, Brasília, Recife, Natal...Isso me causa uma grande alegria. Conquistar novos públicos como em Porto Alegre, onde raramente vamos, ou em Florianópolis, onde nunca fomos...
Algo mais?
Tem sim. Acho que a questão essencial para mim quando fiz esse espetáculo era homenagear o José Antônio Teodoro, que foi diretor do Grupo Delta e morreu em 1987. Ele era muito meu amigo, morreu muito jovem, com 34 anos, e foi um cara que me ensinou muito do que eu sei hoje. Ele sempre acreditou muito em mim como ator. Então, fazer ''Toda Nudez...'' é me aproximar um pouco dele e fazer uma homenagem à pessoa que ele representa.


