Quando resolveu aceitar o convite de Manoel Carlos para fazer a ''marchand'' Heloísa de ''Mulheres Apaixonadas'', Giulia Gam não tinha idéia do que estava por vir. Como de hábito, o autor fez mistério sobre a trajetória da personagem. Limitou-se a dizer que Heloísa era irmã de Helena e mulher de Sérgio, interpretados por Christiane Torloni e Marcello Antony. Mesmo dispondo de tão poucos elementos para compor a personagem, a atriz topou na hora. Afinal, ela não fazia uma novela, do início ao fim, desde ''Fera Ferida'', de 94. ''Quando você está muito tempo longe, sente medo de não conseguir voltar. Felizmente, não poderia ter voltado em melhor hora. É um renascimento. É como se estivesse trocando de casca aos 36 anos'', festeja.
O temperamento destrutivo de Heloísa surpreendeu tanto a atriz que ela resolveu assistir a uma das reuniões do MADA, sigla do grupo Mulheres que Amam Demais Anônimas. Giulia temia que sua atuação como ''dependente afetiva'' resvalasse para a caricatura e não produzisse o efeito desejado. Na verdade, não só ela, mas dezenas de pessoas nunca tinham ouvido falar do MADA. Desde que a novela mencionou sua existência pela primeira vez, o número de mulheres que frequentam as sessões do grupo no Rio de Janeiro saltou de 25 para 100. ''Várias delas me disseram que procuraram o MADA por causa da novela. Fiquei comovida'', confessa.
Você imaginava que pudesse voltar a fazer novelas com uma personagem tão marcante como a Heloísa?
Sinceramente, não. Imaginava que fosse fazer um trabalho legal, dentro de uma novela bacana do Manoel Carlos, etc e tal. Mas não me passava pela cabeça que a repercussão teria essa dimensão. É incrível que uma novela ainda mexa tanto com as pessoas... Para falar a verdade, estava insegura. Quando você está longe, acredita que nunca mais vai conseguir voltar. Hoje, sinto como se eu fosse uma outra atriz. Hoje, me sinto bem mais madura.
Como está sendo interpretar uma ''dependente afetiva''?
Quando recebo o roteiro, às vezes, rio pra caramba; outras vezes, morro de vergonha... ''Nossa, não acredito que vou ter de fazer uma coisa dessas...''. Mas logo embarco na viagem e acredito no que estou fazendo. Basicamente, a Heloísa é uma pessoa frágil, que não confia em si mesma e que ''endeusou'' muito a figura do outro... Não sei como o autor vai conduzir essa história. Mas estou aprendendo a não ficar defendendo o personagem. Às vezes, me pego querendo dar uma melhorada nas cenas porque é tudo muito sofrido. Mas não posso fazer isso. Afinal, estou prestando um serviço à dramaturgia.
Você sabia da existência do MADA?
Não, eu não fazia idéia de que o MADA existia. Aliás, acredito que poucas pessoas fazem. A primeira reação que eu tive, quando fui assistir a uma das reuniões, foi: ''Caramba, isso aqui é muito sério! Não posso fazer de qualquer jeito!''. Num primeiro momento, eu podia pegar a cena e fazer a Heloísa do jeito que bem entendesse. Mas, num segundo momento, percebi que já tinha assumido um compromisso com as pessoas que enfrentam esse tipo de problema. O tratamento tinha de ser verdadeiro, respeitoso...
E o público? Como tem reagido?
Até pouco tempo, o público não conseguia entender direito a Heloísa. As pessoas não sabiam se torciam ou não por ela. Pairava uma certa dúvida no ar: ''Que mulher é essa? Ela é louca? É chata? Qual é a dela?''. Atualmente, as reações vão de raiva, como ''Essa mulher é insuportável!'' ou ''Dá vontade de dar porrada nela!'', a afronta, como ''Puxa, essa Heloísa não tem amor-próprio!'' ou ''Ela não devia se humilhar desse jeito!''. Mas, desde que apareceu o MADA na novela, as pessoas passaram a ver a situação com outros olhos.

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