Antes que iniciássemos a conversa ele foi categórico: ''Estou aqui para ser esfaqueado''. Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal, como é reconhecido no universo cultural brasileiro, esteve em Londrina como uma das principais atrações da II Semana Paulo Leminski, ocorrida na semana passada.
Poeta de coração e profissão, esse carioca de 54 anos afirma que faz poesia para acalmar e suprir sua necessidade vital. É produtor do CEP 20.000 (Centro de Experimentações Poéticas) no Rio de Janeiro há 16 anos e, dando vasão a seu eclético currículo, também foi colaborador de revistas literárias, cronistas de jornal, co-autor de peças teatrais, coordenador de oficinas.
Com 13 livros publicados, Chacal é a representação viva da poesia brasileira contemporânea. Em entrevista concedia à Folha2, o poeta discorre com naturalidade a respeito da ''desqualificação profissional'', internet, universidades, poesia marginal e outras tendências.

Desde quando descobriu que vivia poesia em você?
Eu sempre gostei de ler e de escrever, mas quando eu li o Oswald de Andrade eu devia ter uns 19 ou 20 anos passei a ver que eu gostava realmente de poesia. Até então, eu achava a poesia uma coisa muito dura, muito fechada e triste me refiro a essa poesia que é dada em escola, essa coisa mais parnasiana, que não tinha a ver com meu mundo e minha vida. Com o Oswald, eu percebi que tinha muito a ver. Comecei a escrever e a publicar logo em seguida minhas poesias. Aos 20 anos eu publiquei meu primeiro livro em mimeógrafo com 100 cópias.

A poesia necessita de algo mais, além de ser lida?
Eu acho que a poesia hoje em dia virou uma coisa para especializados. Toda cultura é feita de especialistas. E a poesia não tem a ver com isso. Ela não é uma coisa do livro. Eu acho que que é um tipo de olhar que você tem para o mundo, que está muito além das palavras e dos versos. É para quem tem olhos livres para ver o mundo. Isso é o que eu acho que falta hoje em dia, esse despreendimento das pessoas. Hoje está tudo certinho, pragmático. As pessoas só pensam em aprender aquilo para trabalhar e viver daquilo e não pensam no conhecimento como algo mais amplo, libertador e tal.

Na última vez que esteve em Londrina (o poeta participou Londrix - Festival de Literatura no ano passado), você falou sobre ''desqualificação profissional''. Você se refere a isso quando fala de especializados?
Eu até estou repensando essa colocação, que diz respeito a essa opressão que você tem hoje em dia, essa coisa compulsiva da mídia pedindo uma qualificação profissional. Por isso eu falei em desqualificação profissional: uma proposta que libertasse você dessa compulsão do conhecimento voltado para a produção. Hoje eu estou repensando isso porque faço um curso de informática e acho isso bacana. Se você tem aquilo com um olhar aberto de tocar aqueles botõezinhos e ver as cores, é um barato. Eu acho que o conhecimento tem o seu valor, agora não deve apenas ser aplicado na produção.

E como deveria ser?
Todo aprendizado nas universidades de hoje é feito exclusivamente para produção. Por exemplo, eu sou poeta, faço esses cursos no Senac e os próprios professores querem me aproveitar de alguma maneira dentro da instituição. Mas como eles podem fazer isso? Eu também quero dar aula lá, mas nós não sabemos como, porque o que eu posso ensinar não tem uma aplicação na produção. É uma coisa pra vida, juntar umas palavrinhas e olhar o mundo de uma outra forma. Eu acho isso gozado, porque a poesia realmente não tem um valor prático, embora sirva pra muitas coisas, pra você registrar a vida de uma forma menos objetiva que o jornal, por exemplo, e mais poética. Tem seu valor, mas dentro dessa nossa cultura parece mais uma coisa alienígena.

A entrevista continua na página 3.

mockup