ENTREVISTA Nas trincheiras do ibope
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domingo, 24 de agosto de 2003
Roberta Brasil<br> TV Press 
Uma regra nem sempre respeitada pelas emissoras diz que o âncora deve ter um currículo expressivo para transmitir credibilidade ao telejornal. A considerar seus 25 anos de carreira, Roberto Cabrini atende perfeitamente a este ''pré-requisito''. O jornalista, que comanda o ''Jornal da Noite'', na Band, iniciou na profissão aos 16 anos e, com 17, já era repórter da Globo. Foi correspondente internacional e cobriu conflitos em países como Iraque, Afeganistão e Camboja. Também localizou fugitivos da Justiça, entre eles PC Farias e a fraudadora do INSS Jorgina de Freitas. De quebra, ganhou vários prêmios por reportagens investigativas, como o Líbero Badaró, o Wladimir Herzog e o APCA.
Mas Cabrini bem poderia acrescentar um outro item ao seu currículo: o de ''bom de ibope''. Com ele, o ''Jornal da Noite'' triplicou de audiência em quatro meses, saltou de 1,5 para 4,5 pontos. ''Não copiamos a Globo porque acabaríamos sendo uma versão piorada deles. Optamos por investir em matérias ousadas e de grande interesse'', explica. Antes de substituir Maria Cristina Poli no comando do ''Jornal da Noite'', Roberto Cabrini vinha apresentando o ''policialesco'' vespertino ''Brasil Urgente'', agora entregue a José Luiz Datena. Longe do gênero ''bangue-bangue'', Cabrini parece mais à vontade. ''Nunca gostei de fazer cobertura policial'', admite.
Depois que você assumiu o ''Jornal da Noite'', a Band passou a disputar o segundo lugar do horário. A que você credita isso?
Há uma mudança de conceito. Não adiantaria ficar tentando imitar a Globo, por exemplo. Eles têm todos os recusos técnicos para fazer o que fazem e nós seríamos apenas uma cópia piorada. Precisávamos buscar um outro caminho e optamos por pautas mais ousadas. Investimos em matérias de comportamento para atender ao público feminino, sem esquecer as reportagens investigativas. Também cobrimos política e economia, mas sempre do ponto de vista do cidadão comum. Isso não costuma acontecer na Globo, por exemplo.
Como assim?
A tendência do repórter é cobrir Brasília como se aquilo fosse outro planeta. Como se as decisões tomadas no Distrito Federal não afetassem a vida das pessoas. Assim, a cobertura fica chata, fria e desinteressante. O telejornal cobre porque dá ''status'', mas o ibope cai. Como a Globo faz assim, todas repetem o mesmo equívoco. Nós estamos revendo isso, puxando o assunto no que ele afeta a vida do motorista, do professor, da dona-de-casa... Mas é uma mudança de mentalidade. Ainda precisamos trabalhar muito para chegar a um ponto satisfatório.
Que reportagens você destacaria nessa nova fase?
Tentamos trazer sempre duas reportagens especiais por noite. Outro dia, mostramos uma brasileira, professora de Sociologia, que foi tentar trabalho em Londres e acabou virando prostituta. Personagens como este servem para provocar o debate e trazer à tona problemas sérios da atualidade. Mas também acho importante falar de assuntos leves, como na matéria que fizemos sobre a volta dos videogames. Faz as pessoas dormirem bem.
Você começou a carreira com 16 anos. Não foi muito precoce?
Realmente. Comecei como estagiário numa rádio de Piracicaba, minha cidade natal, no interior de São Paulo, e logo fiquei conhecido. Primeiro porque era o repórter mais novo da cidade. Segundo porque fazia, na cara-de-pau, as perguntas que todo mundo gostaria de fazer. Um dia me chamaram para um teste na Globo. Com 17 anos, virei repórter de rede nacional!
E, 25 anos depois, você se arriscaria a eleger a reportagem mais marcante da sua carreira?
Uma só é difícil. Mas tenho algumas de que posso me orgulhar. A que fiz denunciando o tráfico de escravas no Sri Lanka, por exemplo, teve repercussão na ONU. As coberturas no Iraque, na Palestina, no Afeganistão também me marcaram muito. Agora, uma notícia muito difícil de dar foi a da morte do Ayrton Senna. Se fosse frio, iria ferir a sensibilidade das pessoas. Se fosse emotivo demais, não estaria sendo profissional. Era um equilíbrio delicado... Mas, afinal, são em momentos como este que se molda um jornalista.


