ENTREVISTA Mergulho introspectivo
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de junho de 2003
André Bernardo<br> TV Press 
A atriz Vera Holtz confessa que anda um tanto irreconhecível. Famosa na Globo por gostar de brincar antes, durante e depois das gravações, ela não tem feito outra coisa ao chegar no Projac a não ser se trancar no camarim. Lá, a atriz estuda minuciosamente os capítulos da novela. ''Decoro até vírgula'', exagera. Entre uma cena e outra, ainda lê ''O Jogador'', de Fedor Dostoiévski, que fala justamente sobre um bebedor compulsivo. ''Nunca estive tão 'na minha' quanto agora. O pessoal está até estranhando. Alguns vieram perguntar se estou com problemas em casa...'', diverte-se.
Na verdade, o comportamento recluso da atriz se deve unicamente a Santana. Para compor a professora alcoólatra de ''Mulheres Apaixonadas'', Vera tem evitado até puxar assunto com os colegas de trabalho. Afinal, tudo é motivo de piada para essa divertida paulista da interiorana Tatuí. Aos 51 anos, Vera só se descontrai mesmo quando sai de casa e ouve os mais inusitados comentários sobre a personagem. ''A Santana já virou até piada: 'E aí, vamos dar uma de Santana hoje?' Antigamente, as pessoas metiam o pé na jaca. Hoje, elas dão uma de Santana'', brinca.
De Manoel Carlos, Vera garante não esperar outra coisa. Sempre que aceita fazer uma novela do autor, ela já sabe que vai interpretar uma personagem de forte repercussão social. Em ''Por Amor'', fez Sirléia, uma ex-miss traída pelo marido que deu a volta por cima. Na minissérie ''Presença de Anita'', interpretou Marta, uma fazendeira reprimida que acabou na cama com um peão. Para ela, o final de Santana não pode ser diferente. ''Há dias, fiquei sabendo de uma mulher que arranjou um namorado e parou de beber. O filho dela me disse: 'Minha mãe virou outra pessoa!''', relata.
Como você vê a ''descida aos infernos'' de Santana? Ela já chegou ao fundo do poço?
Ainda não. Ela ainda está ''emburacando''. Ela só vai chegar ao fundo do poço quando se isolar socialmente. Por enquanto, ela ainda está na fase da irritabilidade. A Santana nega o quanto pode que é alcoólatra. Diz que está todo mundo contra ela. Mas, depois, vem o sentimento de culpa e ela cai na real. Há dias, por exemplo, gravei a cena em que Santana agride a Adelaide. Fiquei arrasada!
Recentemente, Osmar Prado mereceu elogios por sua atuação como alcoólatra em ''O Clone''. O que difere a Santana do Lobato?
A Santana tem uma agravante que é a menopausa. Ninguém toca nesse assunto. É como se não existisse. Mas, quando chega na casa dos 50, a mulher enfrenta a depressão da menopausa, que é um processo ainda pouco conhecido. A Santana não tem marido, não tem filhos, não tem família... O que ela tem? Tem uma profissão instável, uma casa alugada, um carro velho, um monte de relacionamentos frustrados... Qualquer um ''emburacaria'', não é mesmo?
Você tem algum caso de alcoolismo na família?
Felizmente, não. Mas tenho um amigo ex-alcoólatra que me monitora por telefone. Se faço uma cena errada, ele logo me telefona: ''Vera, não tem essa de esconder a garrafa! Ela pode até esconder, mas toma um golinho antes...'' Ele me chamou a atenção, por exemplo, para a cena em que a Santana ficou olhando para a taça de champanha. ''Olha, não tem essa de ficar olhando para a champanha, não... Ela vira na garrafa na mesma hora...''
Você consegue manter um distanciamento da personagem?
Não, eu sempre saio do Projac arrasada. Ontem mesmo, voltei para a casa triste. ''Mas por que você está triste assim?'', me perguntaram. ''A Santana voltou a beber...'', expliquei. Quando ela volta a beber, eu fico triste. É mole? É uma relação meio esquizofrênica. Ninguém entende nada...
Mas o que você achou da versão do Beto Silva, do ''Casseta'', para a ''Sócana''?
Eu amei. Sou fã deles. Logo no começo da novela, eu me perguntei: ''Puxa, será que eles não vão fazer a Santana?''. Quando soube que sim, vibrei. Hoje, implico com todo mundo: ''Olha, pessoal, eles só homenageiam que está fazendo muito sucesso...'' ''Bebum'', aliás, sempre faz muito sucesso...


