ENTREVISTA Fera domada
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de agosto de 2003
André Bernardo<br> TV Press 
Miguel Falabella é do tipo que não chora o leite derramado. ''Vamos ordenhar a vaca outra vez'', ensina. A julgar pela novela ''Agora É Que São Elas'', que termina na próxima sexta-feira, Miguel teve de ordenhar um rebanho inteirinho. Afinal, a trama de Ricardo Linhares sofreu duras críticas. Da trama à escalação de elenco. ''Achei um barato fazer o Juca Tigre. Palavra de honra! Mas essa é apenas mais uma novela. Atrás dela virá outra'', minimiza, com ar blasé.
Uma das soluções encontradas pelo autor foi mudar o perfil de Juca Tigre. De vilão cômico, ele virou um conquistador romântico. Não por acaso, a audiência só ultrapassou os 30 pontos quando Juca Tigre reassumiu a paixão por Antônia, personagem de Vera Fischer. O romance, aliás, foi uma das reivindicações do grupo de discussão promovido pela Globo. ''Não sou a favor de deixar os destinos da ficção nas mãos de meia dúzia de donas-de-casa...'', resmunga o protagonista da trama.
Na defensiva, Miguel faz questão de lembrar que o papel não fora escrito para ele e sim para Fábio Jr. E mais: que só aceitou o convite porque ele partiu do diretor Roberto Talma, o responsável por sua estréia na tevê, em ''Sol de Verão'', de Manoel Carlos. Nesses 20 anos de televisão, Miguel cita a novela ''Mico Preto'' como uma de suas favoritas. ''A novela foi um dos maiores fracassos da Globo, mas foi a com que eu mais me diverti. Acabou a minha carreira? De jeito nenhum...'', ressalta.
Na reta final de ''Agora É Que São Elas'', que balanço você faz da novela?
Olha, eu adorei fazer o Juca Tigre, adorei o texto do Ricardo Linhares, achei tudo muito divertido. Aliás, eu me diverti à beça fazendo essa novela. Mesmo assim, existe uma verdade universal: atrás de uma novela, sempre vem outra. Adorei fazer essa novela, mas não tenho muito tempo para pensar nisso. Estou com seis peças em cartaz, vou rodar meu primeiro longa-metragem, enfim, tenho mais o que fazer...
Apesar de aparentemente satisfeito com o resultado, você parece um tanto ressentido...
Na verdade, eu não dou essa importância toda ao assunto. É um trabalho como tantos outros que já realizei na minha carreira. Adorei fazer o Juca Tigre, eu me diverti muito com ele, mas essa novela é mais uma entre tantas outras. Novela é entretenimento e ponto final. Tem tanta coisa mais importante acontecendo nesse país...
A sua atuação foi duramente criticada pela imprensa. As críticas chegam a aborrecê-lo?
De jeito nenhum. Crítica, para mim, não tem a menor importância. Aliás, já escreveram coisas bem piores a meu respeito. Já escreveram, para você ter idéia, que morri. A imprensa já me matou! ''Morreu nessa madrugada o ator Miguel Falabella...'' Contando assim ninguém acredita... O que pode haver de pior do que a morte? Honestamente, não tenho esse tipo de melindre.
O que você achou do resultado do grupo de discussão que reivindicou mais ''beijo na boca'' entre Juca Tigre e Antônia?
Olha, eu questiono muito esses grupos de discussão. Você não pode deixar o destino da ficção nas mãos de meia dúzia de donas-de-casa. Com todo o carinho pelas donas de casa. Afinal, é para elas que escrevo. Elas são as minhas espectadoras no teatro. Eu acho compreensível, mas questionável. Mas, em televisão, é preciso se entender que você não tem autonomia de criação. Para início de conversa, ninguém está aqui para fazer arte, mas para vender óleo e sabão em pó.
Você fala com indisfarçável desdém da tevê. Mas não foi a televisão que deu visibilidade ao seu trabalho no teatro?
A televisão foi fundamental na minha carreira. Fundamental! Ela me deu uma visibilidade impressionante quando comecei. Faço coisas de que gosto muito na tevê. Mesmo porque, se não sinto prazer, não consigo fazer nada. Gostei de quase tudo que fiz na tevê. Não tenho do que reclamar. Agora, não dá é para ligar para essa bobagem de ''group discussion''. Isso é falta do que fazer!


