Entrevista Fábio Moon
O Álvaro de Moya, estudioso dos quadrinhos, esteve no último fim de semana em Londrina e disse que a graphic novel Daytripper (de autoria de voces) encabeçava a lista de títulos de HQs mais vendidos nos EUA, segundo o The New York Times. O que esse sucesso comercial no mercado americano tem representado para a carreira de vocês, além obviamente de robustecer a conta bancária da dupla?
O sucesso do Daytripper ajuda a estabelecer nossa carreira como autores, não só como desenhistas, e facilita próximos projetos em que sejamos tanto os roteiristas como os artistas. A demanda pelas nossas idéias aumentou.
Diferentemente da legião brasileira de artistas de HQs que desenha para revistas de super-heróis americanas, vocês conseguiram emplacar uma história autoral por lá. Vocês têm noção desse pioneirismo ? Acreditam que poderão abrir portas para outros autores nacionais?
Não, não acho que vamos abrir portas para outros autores nacionais, porque é o trabalho pessoal que abre portas, não as pessoas em si. O interesse lá fora pelos brasileiros aumentou com o nosso trabalho, mas trabalho autoral depende do autor, o diferencial está na individualidade do trabalho, e está aí o atrativo e a dificuldade.
Qual a recepção dos títulos da Vertigo na Europa? Daytripper será lançado no velho continente?
Já saiu na Espanha e na Itália, mas ainda não temos resposta de como está indo por lá.
Como foi o processo de criação de Daytripper? Vocês introduziram mudanças no estilo, sabendo que o público-alvo (inicial) seria americano?
Mandamos algumas histórias para os editores da Vertigo, e essas foram as que eles gostaram mais. Partimos daí. Acho que, como em todo trabalho, tivemos uma preocupação em pensar que esse trabalho poderia ser visto por muita gente que adora quadrinhos, mas que não conhecesse o nosso trabalho, então tentamos criar uma boa primeira impressão. Acreditávamos também que o Daytripper atrairia muitos leitores que não estão acostumados a ler quadrinhos, então pensamos nesse público também.
Aliás, como voces descreveriam o estilo de vocês? Quais são as marcas registradas de suas HQs?
Nós contamos histórias sobre relacionamentos e o drama humano. O cenário, as situações e a época são elementos que podem variar, mas estamos interessados em explorar a complexidade dos relacionamentos, das emoções. Isso e um desenho bacana para ajudar a criar novos mundos.
Quando Daytripper será lançado no Brasil? Já há definição sobre como será o formato da edição nacional?
Sairá no segundo semestre, pela Panini, numa edição encadernada. Final de agosto ou setembro.
Outro trabalho aclamado de vocês, O Alienista, é uma adaptação de uma obra de Machado de Assis. Como vocês vêem esse gênero de produção? Deveria ser um filão mais explorado pelos quadrinhistas nacionais?
Já é um filão super explorado. Quase todas as editoras nacionais que produzem quadrinhos estão produzindo alguma adaptação. Não sei quanto tempo essa onda irá durar, mas pelo menos ajuda a criar um mercado de trabalho onde os autores, roteiristas e desenhistas têm trabalho e espaço para melhorar. Se um dia as adaptações acabarem, o mercado estará mais forte por causa delas.
Que avaliação vocês fazem do mercado de quadrinhos no Brasil? O pessoal está produzindo? As editoras estão publicando? Os leitores estão consumindo? Que diferenças vocês perceberam ao longo dos anos desde que começaram a trajetória publicando fanzines?
Em meados dos anos 90, a produção nacional estava praticamente extinta, e esse foi um dos motivos para criarmos o fanzine 10 Pãezinhos. Sem editoras, só nos restava a auto-publicação para mostrar para as pessoas à nossa volta o que queríamos fazer em quadrinhos. No início dos 2000, algumas editoras nacionais surgiram ou começaram a se interessar pelo autor nacional, mas a produção ainda dependia muito do autor, as vendas e a distribuição não era lá essas coisas, então só continuava quem queria mesmo. Acho que essa situação melhorou bastante. Hoje, temos muito mais autores se auto publicando, fazendo revistas independentes, e essa produção atrai as editoras que começaram a investir mais em quadrinhos. A onda das adaptações ajuda a chamar atenção para os quadrinhos e ajuda a bancar uma nova geração de autores. Algumas editoras estão fazendo a diferença e estão conseguindo atingir um público novo, que gosta de ler mas não lia quadrinhos, e esse é o público que a atual produção, que migra cada vez mais para as livrarias, precisa. Se conseguirmos levar os livros até o público, aí só depende da qualidade do trabalho.(N.S.)





