ENTREVISTA ENTREVISTA - O eterno amante latino
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quinta-feira, 21 de abril de 2005
Júlio Maria<br> Agência Estado 
A imagem que mostra Elvis Presley gordo e enfiado em um macacão é o alerta vermelho para Sidney Magal. O cigano espalhafatoso e sedutor, recolocado em cena como cult pela mesma mídia que o teve como o supra sumo da cafonice, diz que seu palco o permite até ser gay, mas não a ser ridículo. Um DVD, um disco e um documentário, além de comerciais, novelas e teatro, em breve darão ao artista de 52 anos a última chance para realizar o sonho de mostrar que sabe bem mais que a letra de ''Sandra Rosa Madalena''. Enquanto aguarda pelos projetos, responde qualquer pergunta e faz de si próprio uma diversão impagável. Confira a entrevista.
O senhor está com roupas bem discretas. O gosto do Sidney Magalhães é diferente do gosto do Sidney Magal?
Eu não teria coragem de ser o Magal nas ruas.
E por que não?
O palco é o local sagrado que me permite não ser homem, ser gay, mostrar meu lado feminino, ser imoral. Nas ruas, sou o pai de família, o marido. Seria ridículo se eu quisesse impor minha realidade artística no dia-a-dia. Iria constranger as pessoas que convivem comigo.
O senhor disse que o palco lhe permite ser gay.
Sim, até isso.
As pessoas não podem achar que o senhor é gay o tempo todo?
Isso sempre acharam. No início da minha carreira era o que mais se discutia. Diziam que eu era uma bichona desvairada. Os machistas ficavam loucos porque viam que as mulheres enlouqueciam comigo. Diziam: ''Não é possível. Esse cara rebola sem pudor, faz carinhas, boquinhas, beicinhos. Isso aí é uma bichona''.
O senhor vive no limite dos sexos. O outro lado nunca o seduziu?
É lógico. Só um extraterrestre conseguiria dizer: ''Eu não me envolvo''. Sou casado há 25 anos com a mesma pessoa, tenho três filhos que são tudo na minha vida. Qualquer pensamento de que há alguém que mereça ir para a cama comigo, vou até o limite que posso. Se todo mundo me vê como um pai de família louco pela mulher, não posso me dar o direito de sair transando com o mundo.
Sendo mais objetivo: o senhor já se envolveu com homens?
Não, mas já cheguei bem perto. Houve um bailarino argentino. Fizemos viagens juntos, ele me apresentou a Argentina, fui viajar para vê-lo patinar no Holiday On Ice. A amizade era tão profunda e a atração física ficou tão forte que tivemos consciência de que algo poderia acontecer. Eu tinha os meus tabus, ele não tinha tantos, mas nunca passou de admiração. Durante o tempo em que ficamos neste clima, eu me sentia super bem. Mas todo ser humano é mesmo um bissexual. A gente nasce bissexual. Nascemos com desejo pelo sexo, independente de ser feminino ou masculino. De repente uma pessoa olha para você e você diz: ''Caramba, que olhar foi esse? Me arrepiei todo.'' Aí vai ver, é um homem. Sim, mas agora é tarde. Só que aí entram os freios da sociedade e você chega à conclusão de que aquilo vai te dar tantos problemas, sua família, sua vida, por um desejo que você pode frear. Na minha época, por exemplo, era muito comum garotos brincarem de roçar um no outro. É algo que nos excita quando somos adolescentes. E, caramba, isso para mim nunca foi um problema. Se encontro uma pessoa maravilhosa, sensual, que me deseja, é impossível dizer: ''Estou imune a isso.'' Não existe.
Sua volta vale para quê?
Minha maior preocupação agora é não ficar parado. Quero começar a mostrar trabalhos novos. Quero sobreviver pelo menos por mais uns cinco ou seis anos. Não quero ficar como estou hoje, só indo na TV cantar ''Sandra Rosa Madalena''. Haja saco.
Será que as pessoas querem novidades?
Não.
O senhor então está condenado à ''Sandra Rosa Madalena''?
Aí é que está. Chego nos shows hoje e as pessoas me perguntam: ''Aí, por que você não vem com aquelas camisas coloridas?'' Eu digo: ''Gente, tenho pavor de coisa ridícula. Morreria de tristeza se botasse um salto desse tamanho com o peso que tenho hoje em dia, com uma calça tentando apertar o meu pneuzinho e eu suando e me matando para tentar ser o Magal da década de 70. Eu acho que morreria quando chegasse em casa. Cairia em prantos. É muito triste a história do Elvis Presley porque o vimos como um bujão dentro do mesmo macacão que ele usava nos tempos em que era lindo e maravilhoso. Aquela imagem me choca, tenho muito medo disso.
O quanto o senhor deve a Paulo Coelho?
É bom que tenha me perguntado isso porque falam que o Paulo Coelho anda dizendo que me lançou, que criou minha imagem. Isso não é verdade. Ele era um cara que trabalhava na área de marketing da gravadora. Foi o Robert Livi, um empresário argentino, que me deu todos os toques, quem fez tudo. Tenho mais de dez versões de músicas feitas por Paulo Coelho. Ele também chegou a escrever o roteiro de meu filme, ''Amante Latino'', de 1979.
O senhor quase não tinha falas neste filme. Paulo Coelho diz que escreveu o roteiro assim para preservá-lo.
É, mas foi um exagero. Era tipo assim: a Monique Lafont falava um monte de coisas e eu dizia: ''É''. Será que achavam que eu era incapaz de falar mais do que isso? Eles poderiam ter tirado mais de mim.
Há ciganos em sua família?
Há um tataravô húngaro que eu nunca vi. O que acontece é que, aos meus shows, vão grupos de ciganos que garantem que eu sou um cigano. Dizem para mim que essa história que eu conheço sobre mim mesmo não é verdadeira. Que minha mãe não é minha mãe, que fui largado na porta de minha casa por uma cigana que eles sabem até quem é.
Artistas nunca assumem o quanto têm de marketing?
Nunca tive problemas com isso.
Quanto o senhor tem de marketing?
É humanamente impossível viver sem marketing. Não dá para dizer que o artista de hoje, que ganha milhões como uma Ivete Sangalo ou Chitãozinho & Xororó, não seja um produto mais do que qualquer coisa. É impossível. Para mim, penso o seguinte: se ficar 50% marketing, 50% essência, estou satisfeito. Muitos são 80% marketing.
O senhor já disse que Sidney Magal era um Ney Matogrosso com outra embalagem.
É verdade, sempre fui fã dele.
Latino é um Sidney Magal com outra embalagem?
Não posso concordar. Falta muito para o Latino ter minha descontração, minha garra. Tudo o que eu tenho muito falta muito para ele. Sem contar o repertório, que não gosto. A pessoa que me substituiria teria de ter a minha personalidade, a minha voz, só que preparada para os dias de hoje. O Latino não é essa pessoa.
As pessoas amadurecem em 30 anos de carreira. Evoluem, lêem livros, se envolvem com outros princípios, mudam de religião. Cantar ''Sandra Rosa Madalena'' enquanto tudo isso acontece não se torna uma angústia?
Nunca é uma angústia. Adoro subir no palco e ouvir ''tesão, minha vida''. Eu vou fazer show na alta sociedade e os produtores falam: ''Olha, o público é meio frio, não repara''. Eu dou um risinho e digo que não tem problema. Na segunda música as mulheres estão levantando a saia e virando todas um monte de pombagira. Esse é o meu desafio. Quero continuar sendo respeitado como artista. Em que nível? Não me preocupo.
AE - O senhor tem alguma influência musical de um primo seu chamado Vinícius de Morais?
Uma vez minha mãe disse: ''Filho, vá falar com o Vinícius, de repente uma música dele poderia lançar sua carreira''. Eu tomei coragem e fui. Cheguei e disse: ''Oh! Vina...'' porque a gente chamava ele de Vina ''Oh! Vina, será que não dá para, sei lá, eu gravar uma música sua? Essa nova que você fez ou outra. Sei lá''. Ele disse: ''Oh primo, não faz isso não. Você tem um estilo tão seu, uma coisa tão... A sua tendência, pelo que estou vendo, é ser o galã das multidões, é ser o cara popular.A sua tendência, pelo que estou vendo, é ser o galã das multidões, é ser o cara popular. O meu trabalho é de Bossa Nova, de MPB, que eu não sei se seria a sua praia.'' Isso foi importante para mim.
O senhor ainda encontra mulheres no armário?
Houve uma garota que roçou na minha perna até ter um orgasmo. Fui receber fãs no camarim quando essa moça entrou, trançou as pernas na minha coxa e começou a tremer. Minha mulher estava lá, a Dudu das Frenéticas também, todas perplexas. Eu dizia: ''O que faço?''. E minha mulher: ''Não faz nada... Vai que alguém tira essa mulher daí e ela morre. Deixa ela em paz.'' Ela teve o orgasmo e, logo depois, desmaiou.


