Entrevista com Zuenir Ventura




Mauro Frasson
O jornalista e escritor afirma que em um país de memória tão curta, sempre é bom lembrar o passadoO jornalista e escritor Zuenir Ventura, autor do livro ‘‘1968 o Ano que Não Terminou: a Aventura de uma Geração’’, esteve em Curitiba, na semana passada. Participou dos debates em comemoração aos 30 anos de maio de 68, programados pela Secretaria de Estado da Cultura.
Ele viveu de perto os acontecimentos de 1968 no Brasil. Em entrevista para a Folha, fez uma análise sobre o comportamento da juventude atual, comparando-a com a de 1968.
Para situar, onde o senhor estava em 68 e o que fazia?
Zuenir Ventura - Eu estava no Rio de Janeiro, era professor da escola de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da escola de DesenhoIndustrial. Trabalhava na revista Visão, com o Ziraldo, Washington Novaes, a Tete Moraes. O prédio da revista era junto ao restaurante Calabouço, perto do Aeroporto Santos Dumont, onde mataram o Edson Luiz. Nós quase assistimos, de tão perto que estávamos. Chegamos a sair na rua e vimos o corpo ser levado. E foi ali que tudo começou, o enterro acompanhado por 50 mil pessoas, as manifestações de rua. Esse assassinato foi o estopim de tudo.

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Barricada em uma rua de Paris, onde o movimento começou

Como foi que esta morte mexeu com tanta gente ao mesmo tempo?
Zuenir - Na verdade, o movimento estudantil já existia, mas a morte do Edson Luiz - e nós só o chamamos assim, sem o sobrenome - desencadeou, chamou a atenção da opinião pública. O slogan ‘‘podia ser um filho seu’’, doeu forte em muita gente.
O que permanece do ano de 68? Foi um ano de grandes aventuras, de conquistas, de manifestações. O que foi 68?
Zuenir - 1968 foi um pouco de tudo isso. Talvez por essa razão tenha permanecido, com tanta atualidade, até hoje. Resiste um pouco a sair do presente e ficar no passado. Foi um ano que ainda tem muita vitalidade. Esses 30 anos demonstram um pouco isso, pelo interesse da geração que viveu, mas também da garotada que tem a nostalgia do não vivido.
O que mais chama a atenção dos estudantes de hoje para o ano de 68?
Zuenir - Eles estão buscando 68 em 98. Olhando para 68 com uma indagação: será que se pode tirar alguma coisa de 68 para resolver esse país tão complicado de 98? Tenho a impressão que não é uma viagem retrô. Foi um ano que teve uma magia muito grande, que desperta a curiosidade, até mesmo por não terem vivido. Essa garotada de agora com quem tenho discutido, dado palestras, a impressão que tenho é que eles estão buscando um pouco de 68. Brinco até que 98 parece 68 de cabeça para baixo.
Podemos comparar 98 com 68?
Zuenir - Não é bem assim. Nesse país de memória tão curta, que diz-se que tem uma amnésia crônica, é até interessante olhar para trás. É interessante ter uma geração nova de garotos de 16, 17 anos tentando entender o que aconteceu nesse passado, para eles já tão remoto.

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Vítima do conflito com a polícia, próximo à SorbonneO senhor acha que existe um movimento de procurar respostas no passado?
Zuenir - Por um lado tem essa coisa positiva, por outro, tem sempre o risco de idealizar 68, quando tudo era maravilhoso, quando na verdade a gente sabe que não foi bem assim. Foi um ano extraordinário, excepcional de acontecimentos, de confluências de tudo: política, moda comportamento. Mas eles (os jovens) estão buscando muito a política, estão querendo entender para que serve.
O que representou o AI-5, a censura?
Zuenir - Há dois 68, um que vai até o dia 13 de dezembro (dia em que o AI-5 foi assinado), e outro depois do AI-5, quando começam os anos de chumbo. Até o que eu chamo da parte solar dos anos 60, de manifestações, de passeatas, de fé, de alegria, uma exuberância muito grande, muita vitalidade, nas ruas, nas escolas. Acho que todas essas informações chegam misturadas para a geração de hoje. Nós já estávamos numa ditadura, mas ainda existia essa ambiguidade. A gente ainda podia se manifestar, não tinha censura nas redações, ainda se podia escrever. Com o AI-5 vêm a censura e a tortura. Começa a vida nos subterrâneos, das drogas, da tortura, do exílio. Acho que isso está vindo um pouco embaralhado e, em seminários como esse, é a oportunidade de esclarecer o que houve de bom e o que houve de ruim.
E o que houve de bom?
Zuenir - A qualidade dessa geração, a qualidade de uma geração que se entregou, se doou. Eles não buscavam interesse próprio. Estavam vivendo um período de generosidade muito rara. Estavam se entregando à causa pública. Queriam derrubar o poder, reformar as universidades. Queriam construir uma utopia, um sonho, um país ideal. De qualquer maneira, uma geração que arriscou sua vida por um projeto.
E valeu a pena?
Zuenir - Acho que sim. ‘‘E tudo vale a pena, quando a alma não é pequena’’, citando Fernando Pessoa. Mesmo que politicamente tenha sido uma geração derrotada. Mas do ponto de vista cultural, comportamental, foi muito rico, com personagens ainda não substituídos.
Nesses 30 anos não houve nada comparável a 68?
Zuenir - A tentativa de troca de geração foi a dos caras pintadas em 92. Mas a gente lembra mais de 68 do que de 92. O que ficou de 92? Não marcou. Quem eram os líderes, qual foi a causa? Ninguém lembra mais.
Como as lideranças trabalhavam naquela época, o que fizeram para marcar tanto?
Zuenir - As lideranças tinham contato com a massa. Existia um porta-voz. Havia uma ligação muito grande dos líderes com os liderados, uma identificação. E hoje há no Brasil um problema de representatividade muito grande. Quem representa quem? O que os partidos representam? Quem as lideranças partidárias representam? É evidente que há líderes, mas nenhum deles consegue ter essa representatividade, estar perto, ser o porta-voz das principais causas.
O País não era muito diferente naquela época?
Zuenir - É claro que o País era diferente.
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Socorro a estudante ferido em manifestaçãoAntes eram as trevas, com a ditadura. Era muito mais fácil identificar o inimigo. Hoje, a democracia mistura tantas coisa. Não se tem muita idéia de quais são seus aliados, e adversários. O País é mais complicado na medida em que a crise social se agravou. 68 não se deu conta de uma crise social, havia uma luta pela democracia, pela liberdade de expressão. Só que a democracia é feita de justiça social. Sem justiça social não se constrói uma democracia plena. Não se constrói um Pais pleno.
O senhor considera a sociedade atual muito descrente?
Zuenir - Com certeza. Descrente, desencantada. Entre os jovens quando se fala percebe-se uma descrença na democracia. É ruim, para uma juventude que está se formando politicamente. Parodiando Churchill: ‘‘A democracia é o pior sistema do mundo, com exceção dos outros’’. Não há outro melhor, mas a nossa democracia não está levando em conta um problema que é quase uma tragédia, que são as injustiças sociais. Uma coisa indecente.
O senhor considera a globalização um problema?
Zuenir - A questão da reforma agrária é um problema que está se agravando com a globalização, com o neoliberalismo. A reforma agrária é quase secular e não há perspectivas de solução. Hoje, ao contrário de 68, a gente tem informação demais. Mas o acúmulo de informação pode gerar a desinformação. Isso aumenta a confusão. Não se consegue selecionar, não se lembra mais, é uma coisa atrás da outra, tragédias e comédias... E há ainda um agravante que são os escândalos, um atrás do outro, e um anula o outro. O escândalo dos anões do orçamento foi esquecido pelo do Sergio Naya e assim afora.
Mesmo com toda a tecnologia a serviço do homem, não é possível visualizar uma saída?
Zuenir - A tecnologia sozinha não resolve o problema da Humanidade. Muito pelo contrário. No final do século passado, com o telégrafo achava-se que as pessoas iam se aproximar, e no entanto ocorreram duas grandes guerras. Quando se fala em globalização se fala em mercado e mercado é feito de lucro, a única lógica do mercado é o lucro. Como se resolve, no Brasil, onde há milhares de pessoas sem as condições elementares de vida? Pela lógica de mercado, temos que ter consumidores. Acho que esta questão não é estudada no Brasil, nem pela oposição, nem pelo governo.

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