ENTREVISTA COM TONY HARA
Qual o objetivo da reedição de "Dos Porões da Delegacia de Polícia"?
A cidade, apesar de ser nova, foi pensada e lida por diferentes escritores. Essa diversidade de leituras, de tentativas de compreensão realizadas no passado são instrumentos para que a gente entenda a cidade no tempo de agora. O objetivo da Coleção Doc.Londrina, criada em 2011, é rememorar essas interpretações. Devolver ao círculo de leitores imagens e imaginários construídos por escritores, que foram deixados de lado, mas que ainda fazem sentido. Em 2011, eu e o jornalista Felipe Melhado organizamos a reedição do primeiro romance ambientando em Londrina, "Escândalos da Província", de Edison Maschio, que satirizou, em 1959, a alma corrupta, a troca de favores, o toma lá dá cá praticado pela elite local. Agora estamos lançando "Dos Porões da Delegacia de Polícia", de Marinósio Filho, que retrata a violência praticada contra os pobres da cidade.
Os fatos narrados no livro de Marinósio Filho permanecem atuais na Londrina do século 21?
Infelizmente sim. Michel Foucault, filósofo-historiador que pesquisou a história da violência nas prisões na década de 1970, disse certa vez que as instituições policiais-carcerárias mudam muito lentamente. A denúncia que a própria Folha de Londrina fez, recentemente, da violência praticada no Cense II de Londrina, é um exemplo da permanência, da atualidade do livro de Marinósio Filho. Mas, o mais angustiante não é exatamente a permanência da violência dentro das instituições, mas a permanência da tolerância que temos em relação à violência. Marinósio Filho aborda até com uma certa ironia desiludida essa tolerância. O roteiro é esse: o jornal denuncia estupros, torturas, corrupção nas prisões e delegacias de polícia. Os leitores ficam momentaneamente indignados. As autoridades dizem que vão abrir "rigorosos inquéritos". E amanhã, ou depois de amanhã, ninguém mais falará do caso, a indignação passa, e a vida seguirá até que apareça um novo caso bombástico. E todo processo será repetido. Marinósio flagrou muito bem isso, ainda na década de 1970.
Marinósio enfrentou problemas com as autoridades policiais na época do lançamento? Sofreu ameaças, ou teve que se retirar da cidade como Edson Maschio, autor de "Escândalos da Província"?
Na pesquisa que fizemos não encontramos nenhuma informação sobre perseguições, ameaças na época do lançamento do livro. Em 1979, ele já era um senhor de 65 anos de janela, um pouco mais calmo. Marinósio teve um pedido de prisão decretado em junho de 1964 porque avaliou muito mal a nova situação política vivida pelo país após o golpe militar. Ele ameaçou "homenagear" no seu jornal O Combate, os delatores, os alcaguetes, os colaboradores do novo regime com a "Comenda Dedo de Ferro". É claro que os milicos não gostaram da brincadeira. No final da década de 1950, ele teve problemas com a lei porque entrou numa briga violenta contra o delegado da cidade, Miranda Assy. Era uma época diferente, Marinósio abusava dos adjetivos. Uma coisa inimaginável nos dias de hoje. No O Combate havia matérias que começavam assim: "Miranda Assy, na realidade, a nu, é um marginal da pior espécie que envergonha, desmoraliza e desonra a briosa Polícia Civil do Estado"; "Miranda Assy é um ladrão, no duro. Contumaz e vulgar". Em resposta ao jornalista o delegado abriu 11 inquéritos policiais. Todos, segundo o próprio Marinósio, arquivados.
O que foi modificado e acrescentado ao volume em relação à edição original do livro?
O texto de Marinósio foi modificado apenas para adequá-lo às regras do novo acordo ortográfico. Escrevi uma apresentação contextualizando a obra, e resolvemos publicar também uma cronologia da vida do autor. Felipe Melhado e eu organizamos essa cronologia porque a vida de Marinósio Filho parece um filme de aventura. Pouca gente sabe disso. O homem saiu de Salvador em 1939 e passou quase nove anos na estrada como músico. Viveu a boêmia em diferentes capitais do país. Manaus, Belém, Rio, São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre e até mesmo Montevidéu onde gravou três discos pela Son dOr. Uma das músicas gravadas foi a marchinha "Cachaça não é água" que estourou no Carnaval de 1953. Chegou a Londrina em 1947, viveu o auge da Vila Matos, a zona do meretrício, que como diz a lenda, era a maior e mais luxuosa do Brasil. É um personagem rico, contraditório, polêmico, cheio de vida. É uma história de vida que merecia ser contada.





