ENTREVISTA COM MAUREEN FLEMING
Qual foi a sua inspiração para criar o espetáculo "Black Madonna"?
Eu comecei a trabalhar nessa montagem durante uma residência artística no Instituto Sacatar, localizado na Ilha de Itaparica, na Bahia. Durante minha pesquisa, eu vi a fotografia do enforcamento de uma escrava brasileira e eu imaginei esta dança com imagens de esculturas primitivas contrastadas com as imagens da virgem abençoada sob um véu preto. No decorrer da coreografia, a figura encontra liberdade na morte e a dança nos lembra da nossa capacidade de transcender à crueldade humana. Desde o começo, estive interessada no arquétipo do ícone da Virgem Negra (Black Madonna), dentro da ideia ancestral do poder feminino. Também relacionei isso aos ciclos da natureza, à fertilidade (tanto no aspecto da reprodução humana quanto à produção de alimentos) e como isso foi sendo representado no decorrer da história humana.
Dentro de um enfoque mais mitológico?
Há alguns anos, eu tive a oportunidade de dançar na montagem "Dream of Kitamura", dirigida por Jean Erdman. Depois da performance, estava no elevador ao lado do seu marido, o renomado mitologista Joseph Campbell, quando de repente ele vira e me diz: "Sua dança é sua transcendência!". Esta simples e profunda observação abriu um mundo para mim, onde o divino é uma mitologia pessoal e uma expressão universal. A divindade pode morar no corpo e o presente ocasional do espírito é onde a identidade pessoal verdadeira mora, um lugar onde os opostos são revelados como ilusões. Os momentos contraditórios que formam a minha dança são minhas experiências de transcendência, que espero poder compartilhar com a performance de Black Madonna.
O acidente de carro que teve na infância influenciou, de alguma forma, na criação da montagem?
Como meu pai era militar, eu nasci numa base militar perto de Yokohama, no Japão. Quando eu tinha dois anos, minha mãe estava dirigindo quando um ciclista freou, de repente. Minha mãe parou o carro repentinamente e minha irmã e eu fomos arremessadas pelo para-brisa. Enquanto a minha mãe nos socorria, o ciclista foi embora, dando gargalhadas. Eu só fui saber dessa história quando adulta e acho que poderia dizer que aquela foi a minha "primeira dança", ao atravessar o para-brisa. Eu acho que aquela experiência plantou uma semente no meu corpo, que criou uma necessidade. Tanto que toda a minha coreografia, que envolveu todos esses movimentos dançantes, extremos, foram realmente um esforço para superar o trauma, curar as minhas feridas.
A senhora está com 60 anos. Como é dançar nesta idade (movimentos, performance, nudez)?
Eu completei 60 anos no dia 10 de agosto e é incrível poder dizer que eu continuo a cada dia mais flexível. Este é um milagre da Virgem Negra (Black Madonna)....Muitos artistas têm uma necessidade de ir além e por isso têm um contato mais forte com aspectos inconscientes e acabam criando uma relação entre vida e arte. Sobre dançar nua, considero a carne a vestimenta da alma e o corpo feminino tem sido um emblema da alma, como expressão artística, há mais de 40 mil anos. Quando eu danço nua, eu me torno a alma do observador. Há o potencial para um estado de transe compartilhado.
Quantas vezes já se apresentou no Brasil?
Cinco vezes. A primeira vez foi em 2002, no Mercado Cultural de Salvador, na Bahia.
Como é a receptividade do público brasileiro?
Eu amo o Brasil e sempre sinto uma recepção calorosa em todos os lugares em que pude apresentar meu trabalho. Sinto que os brasileiros são muito abertos e generosos e valorizo essa conexão na maioria dos encontros. (A.P.N.)





