Aos 48 anos, o jornalista e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho recebeu ontem a honrosa e cobiçada missão de colocar o Brasil novamente no grid de largada da mais tradicional, prestigiada e, por que não, mítica mostra de cinema do mundo. Ao selecionar seu segundo longa, "Aquarius", depois do sucesso internacional do filme de estreia em 2013, "O Som Ao Redor" (lançado em Londrina no Cine Com-Tour/UEL), o Festival de Cannes reconhece uma talentosa carreira atrás das câmeras iniciada em 1997 no curta metragem.

Desde esta época Kleber coleciona prêmios em importantes mostras competitivas. E paralelamente cobriu 17 edições de Cannes como repórter e crítico. Na França conheceu Emilie Lesclaux, produtora de seus filmes, mulher e mãe de seu casal de gêmeos.

Kleber, agora de volta à Croisette , mas do outro lado da trincheira, conversou ontem com a Folha por telefone.

Quatro anos depois do mundialmente aclamado "O Som ao Redor", você emplaca a seleção oficial do mais importante festival do mundo com "Aquarius". Como é trazer o Brasil de volta ao centro das atenções cinéfilas mundiais?


Tudo fica um pouco mais pesado, embora não exatamente estranho por conta de meu longo trabalho como crítico no festival. Claro que estou muito feliz, mas não deixa de ser assustador você estar naquela arena quase romana.

No "Som ao Redor" há a convivência problemática com os espaços públicos e privados nas grandes cidades, uma situação de hostilidade que passa pelas relações domésticas de trabalho, entre outras questões, tudo contado com inventiva formal pouco vista no cinema brasileiro mais recente. E "Aquarius", o que é?
"Aquarius" é uma espécie de expansão de coisas que já fiz no passado. É um filme sobre espaço urbano, sobre espaço pessoal, sobre mercado, história, memória, arquitetura. Acho que é um filme bem político.

Sonia Braga está de volta ao cinema brasileiro, pelas suas mãos. Como você chegou à escolha da atriz para o papel principal ?


Uma noite, quando conversávamos sobre o projeto e pensávamos numa atriz para fazer a personagem principal, um dos fotógrafos do filme, Pedro Sotero, sugeriu Sonia Braga. Nenhuma contestação. Enviamos o roteiro, ela leu, amou e respondeu em 24 horas. É uma grande atriz. E uma estrela. Tive prazer e honra em trabalhar com ela, que compreendeu perfeitamente o personagem: uma mulher madura, forte, sofrida. Tinha somente admiração por ela. Agora tenho também uma pessoa amiga e querida.

Você é veterano de Cannes, mas durante muitos anos como jornalista. A história agora é outra. É o lado de lá da trincheira. Assusta?


Foram quase vinte anos como jornalista. É claro que assusta um pouco sim. Você sabe bem como é aquela sala de coletivas. Vou estar na mesa lá em cima, e vocês embaixo, comigo como alvo... Recebi hoje um telefonema curioso: Madame Christine Aimé, chefe da assessoria de imprensa e velha conhecida, ligou não para falar de credenciais, protocolo da coletiva e tal, mas só para dar os parabéns, ela que me conhece tanto há tantos anos, não como cineasta, mas como jornalista. Isso foi muito bom.

O Brasil em Cannes

O ego tupiniquim andava mesmo precisando. E esta consolação vem agora pelo viés artístico, já que os ventos não andam lá muito favoráveis em outros nichos de brasilidade. A organização da 69ª edição do Festival de Cannes anunciou ontem a relação de filmes que concorrem à Palma de Ouro de 2016 em maio (dias 11 a 22).

E entre eles a presença latino-americana é somente brasileira (e não argentina, como ocorreu nos últimos anos), mais precisamente com o longa-metragem "Aquarius" do diretor recifense Kleber Mendonça Filho, em estreia mundial. Sua atriz principal, Sonia Braga, estará no tapete vermelho três décadas depois de subir as lendárias escadarias do Palais, quando "Eu Te Amo", de Arnaldo Jabor, esteve na competição oficial.

"Aquarius" é a história de Clara (Sonia Braga), mulher que mora de frente pro mar no edifício Aquarius, ultimo prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos maiores e dona de aconchegante apartamento cheio de discos e livros, ela vai enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.


Kleber não vai ter vida fácil em Cannes. Pela frente, filmes de Almodóvar, o drama "Julieta"; o novo de Sean Penn, "The Last Face"; os irmãos belgas Dardenne com "La Fille Inconnue", e o inglês Ken Loach com "I, Daniel Blake", entre outros pesos pesados, todos avaliados por um júri presidido por George "Mad Max" Miller.


A França, dona da casa, garantiu espaço generoso com quatro títulos. São vinte, os concorrentes à Palma, mas como sempre a lista nunca é definitiva, podendo contar com mais um ou outro à ultima hora. Outra produção brasileira, de curta-metragem, também estará concorrendo à Palma de Ouro da categoria: "A Moça que Dançou com o Diabo", de João Paulo Miranda Maria.


Entre as atrações colaterais, um Woody Allen recordista: sua nova comédia, "Café Society", foi convidado para abrir oficialmente a mostra no dia 11 de maio. É a terceira vez que Allen inaugura o evento, sempre hors concours. As outras foram com "Hollywood Ending" e "Midnight in Paris", 2002 e 2011, respectivamente.


As presenças em sessões especiais de Steven Spielberg, com a fábula "O Bom Gigante Amigo", e Jodie Foster, com "Money Monster, reforçam a ideia da proximidade quase visceral entre Cannes e Hollywood, que também comparece com alguns títulos em competição.


Como de hábito, o tapete na Croisette vai fazer o tapete do Oscar corar de humilhação, já que são 12 dias e noites de feérica badalação trajada a rigor e decorada com resplandescente coleção de joias.

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