Você concorda com a ideia de que o espetáculo "Belle" ironiza o clichê da sensualidade, conforme vem apontando a critica especializada? O corpo é um instrumento perfeito para ilustrar/expressar a dualidade de sentimentos que permeia a obra que serve de inspiração para a montagem?
"Belle" apresenta um embate entre razão e instinto. Entre o amor e a carne. Mesmo com a grande abertura e reconhecimento mundial diante da importância do sexo e do erotismo, isso ainda é um tabu que é muitas vezes tratado de forma comercial, vulgar e rasa. Para mim, tanto a sexualidade como o erotismo fazem parte do mundo dos desejos. Então, em "Belle" apresento a importância de dois mundos que coexistem e ao mesmo tempo se enfrentam. Quando li "A Bela da Tarde", percebi que poderia fazer uma adaptação em que traria para o mundo dos movimentos os sentidos e as intenções que essa história oferece. Procuro tratar dessas visões, desses delírios e desejos como parte do mundo interno desta mulher, a Sevérine. A sexualidade que apresento é uma extensão da imaginação dela e do corpo dela. A dança pode ser inteligente e reflexiva ao utilizar o corpo como instrumento para todos esses sentidos.

Em 20 anos de atuação da companhia, você é reconhecida pelo seu trabalho como "diretora de movimento", com espetáculos criativos que demonstram a sua diversidade e inquietação. A montagem "Belle" sintetiza bem essa trajetória? Por quê?
O amor, o desejo, a paixão são assuntos que me interessam há muito tempo. No meu primeiro espetáculo "Vulcão", a paixão está presente. Em "Nó", o desejo está presente. Em "Tatyana", o amor está presente. Acredito que em "Belle" todos esses sentimentos estão presentes e ainda mais aprofundados.

O que lhe inspirou a criar um espetáculo baseado na obra "Belle de Jour", de Joseph Kessel? É recorrente nas suas criações se inspirar na literatura estrangeira, não é mesmo? O seu último espetáculo em Londrina foi o "Tatyana", baseado em obra do escritor russo Aleksandr Púchkin. Para a montagem atual, você teve como referência o clássico filme "Belle de Jour", de Luis Buñel? Explique o seu processo criativo.
O embate que todos temos entre mundos que se contrapõem, entre realidades que lutam dentro da gente, é algo obsessivo pra mim. Precisamos muitas vezes ou achamos que precisamos o que não nos pertence. Cada indivíduo escolhe as experiências que terá na vida e com elas pode enriquecer sua trajetória. É preciso coragem para atravessar estradas ainda desconhecidas, por isso admiro tanto minha personagem Séverine. Na verdade, essa é a segunda vez. A primeira foi Púchkin e agora, o argentino Joseph Kessel. O filme me fez conhecer e procurar o livro, mas segui a inspiração do livro. O filme foi importante para que o mundo conhecesse essa história nos anos 70, mas ela foi escrita nos anos 30. É claro que a memória do filme está em todos nós, mas criei minha própria maneira e necessidade de contar essa história. Por exemplo, pra mim foi necessário personificar numa outra bailarina a "Bela da Tarde".

Na montagem atual, predomina os movimentos de dança verticais ou horizontais? Qual a intenção dessa forma de expressão?
As duas estão presentes. Novos espaços proporcionam novas respostas de movimento. O corpo precisa criar caminhos e se divertir de uma maneira diferente, com novos desafios.

É a primeira vez que se apresentam em Maringá? Como foi a receptividade em Curitiba? Há alguma previsão de "Belle" ser apresentado em Londrina?
Não é a primeira vez. Já estivemos em Maringá com outros espetáculos, como "Tatyana", em 2012, e "Cruel", em 2009. A receptividade em Curitiba sempre é maravilhosa, é um público muito fiel e caloroso. Ainda não fechamos a agenda da turnê de "Belle", quem sabe também não passaremos em Londrina?

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